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29 January, 2021

Turismo futebolístico: revolução turística ou revolução futebolística?

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Visca el Barça, visca Catalunya y visca Fuentealbilla”. Estas foram as palavras de Andrés Iniesta após a conquista de três títulos seguidos em 2009. Um grito histórico e também uma revolução turística. O Secretário de Cultura de Fuentealbilla comentou que esta menção à sua cidade de dois mil habitantes foi uma campanha de “milhões e milhões de euros”. Cinco anos depois, a Universidad Rey Juan Carlos realizou uma pesquisa para medir o impacto do sucesso de Iniesta no turismo em Fuentealbilla e a maioria dos entrevistados que visitaram o vilarejo responderam que o conheciam por esta famosa frase eufórica do atleta profissional do futebol.

A análise, em maiores detalhes, mostrou que, a maioria dos turistas que estiveram no vilarejo eram fãs do Barça, sendo 57% homens, oriundos da Catalunha. O crescimento do turismo foi um marco, pois até este momento o vilarejo nunca tinha recebido tantos turistas. Estes vilarejos também valorizaram o fato de que sua existência era conhecida em toda a Espanha e que a chegada dos visitantes também ocasionaria o desenvolvimento do turismo enológico e cultural.

Em uma pesquisa com a população foi questionado se estariam dispostos a visitar Fuentealbilla. Todos os entrevistados responderam que associavam o vilarejo com Iniesta, vinhos da região e lindas paisagens. As principais atrações turísticas eram a casa onde o atleta profissional de futebol cresceu, uma estátua e o monumento à Copa do Mundo, mas a subida ao Cerro de la Cruz, as termas romanas e as salinas também fizeram a diferença. Um atleta profissional de futebol transformou seu lugar de origem em um destino turístico consolidado com diversas atrações com tão só pronunciar seu nome. Um fenômeno de grande magnitude comparado ao museu Pelé em Santos, no Brasil ou ao museu Cristiano Ronaldo na Madeira, em Portugal, que já eram destinos de grande importância anteriormente.

Em 2016, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan recebeu Samuel Eto’o em um grande jantar de gala antes de um jogo beneficente que aconteceria em Antalya. A partida teve que ser cancelada devido a uma tentativa de golpe de Estado na Turquia, mas contaria com a presença de Marcel Desailly, Carles Puyol, Deco, Messi, Drogba, Luis Suarez, Maradona, Neymar, Hazard, Totti, Xavi, Iniesta, Turan entre outros. A presença da alta cúpula de líderes do país se devia à valorização de destinos turísticos relacionados ao futebol, como o que nascia em Antalya, uma cidade no sul da Turquia, entre as montanhas Taurus e o Mediterrâneo. A chegada de todas essas estrelas internacionais do futebol era a melhor estratégia de marketing para o turismo local.

As instalações esportivas em Antalya apresentam um valor estratégico para o turismo nacional porque atraem demandas independentemente das flutuações sazonais, segundo o estudo publicado no International Journal of Trade, Economics and Finance. O principal objetivo de sua oferta fora da temporada é atrair clubes de futebol para que realizem suas concentrações lá. Esta pausa é muito popular entre as equipes russas durante seu recesso de inverno, por exemplo, entre os meses de janeiro e março. Assim como os clubes alemães o Eintracht Frankfurt, Shalke 04, Wender Bremen, Bayer Leverkusen ou Borussia Dortmun que realizaram stages nestas instalações. Estas visitas já são lucrativas por si só, em função da ocupação hoteleira pelos atletas profissionais de futebol, corpo técnico e jornalistas que acompanham as equipes. Porém, o mais proveitoso de tudo isto é sua aparição na mídia, como a recepção de Eto’o para seus amigos. Em função desta publicidade, podemos realizar campeonatos de categorias inferiores, cursos de arbitragem e treinamento além de uma infinidade de atividades que mantém a ocupação hoteleira. Estes campos de futebol atraem o equivalente ao tão cobiçado turismo de eventos, concluiu a pesquisa. Na Espanha também existem instalações similares, como o Marbella Football Center, que só em 2019 registrou 227 estadias de clubes de futebol com uma permanência média de oito dias.

Um exemplo desta correlação entre as instalações esportivas e a visita de clubes importantes para o valor turístico de um vilarejo é a escola de futebol que o FC Barcelona instalou em Haikou, na China, com capacidade para matricular mil crianças por ano. Esta cidade na ilha de Hainan é difundida como um dos maiores destinos para o turismo de verão e, seus campos de jogos, além de representarem a casa dos membros do corpo técnico do Barça, também são muito comumente usados pelas seleções nacionais chinesas para suas concentrações. Em um jogo entre o grupo de antigas estrelas do FC Barcelona contra uma equipe de lendas locais, que aconteceu em Uganda, na África, uma pesquisa da Universidade Kyambogo, na capital Kampala, descobriu que, a presença dos ex-atletas profissionais do Barça e seus tweets sobre os gorilas do Parque Nacional Bwindi atraíram mais atenção internacional do que qualquer outra campanha turística.

O uso inteligente de jogos de futebol ou instalações esportivas para profissionais geram formas eficazes de mídia para o turismo e sua prática tradicional. Prova disso são as campanhas que têm sido realizadas com clubes de futebol em destinos turísticos não convencionais, como o Azerbaijão com o Atlético de Madri ou o Ruanda com o Arsenal. Até mesmo uma equipe inglesa da sexta divisão, a Blyth Spartans A.F.C., chegou a ter um outdoor de “Visite a Coréia do Norte” em sua arena.

A mera existência de um clube de futebol da primeira divisão nacional apresenta um efeito positivo sobre o turismo que uma cidade pode receber. O estudo da Universidade de Zaragoza estimou que Huesca, com a participação de seu clube na primeira divisão, tinha recebido visitas anuais de 15.000 pessoas entre torcedores, profissionais e imprensa, enquanto o cálculo geral anual de visitantes à cidade era de cerca de 100.000 turistas. Por outro lado, há pesquisas semelhantes que apresentam uma análise de supostas perdas para a capital aragonesa, como o rebaixamento do Real Zaragoza para a segunda divisão ou a passagem do Deportivo de La Coruña pela Champions League, uma cidade que se tornou conhecida em todo o mundo graças a passagem de atletas profissionais de futebol como o campeão mundial Bebeto ou o lendário brasileiro Djalminha, pelos corredores de seu clube.

No entanto, muito além do papel de craque, o valor mais importante que um único atleta profissional de futebol com projeção midiática pôde desenvolver em um clube, refere-se ao seu país de origem não ser uma potência no mundo do futebol. Um outro exemplo de objeto de estudo do turismo relacionado ao futebol que gostaríamos de citar é o “efeito Nakata”. Quando o atleta profissional de futebol japonês Hidoteshi Nakata assinou pelo Perugia, em 1998, na primeira divisão italiana na época, cinco mil turistas japoneses assistiram sua estreia. Durante aquele ano, houve uma média de 300 japoneses na arena. Quando, mais adiante, este atleta integrou a equipe do Parma, a cidade da Itália tornou-se o segundo destino turístico para os visitantes japoneses, ocupando um lugar à frente de cidades como Veneza ou Florença.

Agora, não há dúvida de que o caso mais bem sucedido do binômio turismo e futebol ocorreu na Grã-Bretanha. Dois em cada cinco turistas que chegam às ilhas querem ver um espetáculo esportivo e 73% procuram o futebol. A Premier League é uma exigência de primeira instância para o turista que chega às ilhas. Na verdade, em cidades com atrações mais limitadas, como Manchester, a arena Old Trafford é um dos pontos mais procurados pelos turistas que visitam todo o país.

Um caso muito comentado foi o do Leicester, quando este clube venceu a liga 2015 e 2016 ocupando um lugar à frente das equipes com um maior orçamento, a façanha teve tal impacto mundial, que a chegada de turistas aumentou em um milhão de pessoas comparado ao ano anterior. O prefeito da cidade, Sir Peter Soulsby, associou o aumento de turistas à vitória de sua equipe e a realização do sorteio da fase de grupos da Champions League nesta cidade.

Assim como há aquela parcela de turistas que complementam sua programação de viagem com um jogo de futebol ou a visita a um estádio, também existe aquele turista em especial que só vai única e exclusivamente assistir ao jogo. A Irlanda, os países escandinavos, os Estados Unidos e os Países Baixos são, nesta ordem, os locais de origem deste perfil de turista esportivo que, devido à fraca competitividade dos seus campeonatos nacionais, tenta assistir aos jogos da Premier League. Há jogos do Liverpool em Anfield que registraram até 1.500 turistas provenientes da Noruega, os mais valorizados porque são os que mais consomem durante suas estadias.

O problema está no efeito que esses turistas causam no ambiente dos estádios. Recentemente, em reportagem da revista GQ foi questionado se este fenômeno de turistas nas arquibancadas, que olham “boquiabertos” para os torcedores fanáticos das equipes “em vez de unir-se aos seus hinos”, não se tornariam prejudiciais a longo prazo, apesar de sua rentabilidade, ao desanimar a atmosfera do ambiente.

Na Argentina temos como exemplo claro de como é este movimento. O clima em suas arquibancadas valeu a Buenos Aires o título de capital mundial do futebol. Há numerosas empresas que oferecem Tours de futebol e participação nos jogos, embora com recomendações rigorosas e arenas proibidas aos turistas por razões de segurança. No entanto, é esta atmosfera que vem se perdendo nas arenas europeias, atraindo assim turistas para Buenos Aires, onde eles também existem ofertas adicionais aos tours de futebol no bairro do Boca, um “Paseo de la Gloria” com estátuas dos mais bem-sucedidos atletas argentinos ou uma homenagem à seleção nacional com estátuas de Maradona, Messi e Batistuta na Plaza de Francia.

Há pesquisadores que nomearam este fenômeno que acontece na Europa de “a gentrificação do futebol”. É algo que vem ocorrendo gradativamente desde que se proibiram o acesso aos locais onde ocorreram as trágicas avalanches mortais dos anos 80. Atualmente, as arenas não recebem apenas turistas, mas também empresários e executivos em viagens de negócios, sendo que suas instalações também funcionam como centros de consumo, com uma variedade de setores, tais como hotelaria, moda entre outras ofertas de lazer. Existem riscos de que a perda da tradição deste esporte acabe banindo o atrativo e o encanto que o fizeram tão popular…

Contudo, tudo isso é compensador. É preciso compreender a faceta menos estimulante das mudanças no contexto da revolução que o futebol está atravessando. A realidade é que as arenas estão ultrapassando os limiares de tudo o que foram no passado. Agora, são meras peças arquitetônicas únicas que anseiam transformar-se em símbolos de suas cidades, pois elas se tornaram espaços com tecnologia de ponta que oferecem a melhor experiência possível aos seus frequentadores, criando alicerces para receber as novas gerações, que são torcedores muito mais participativos, que utilizam de Big Data, enquanto assistem os jogos e que carregam uma gama diferente de valores no que concerne ao amor dedicado às suas equipes e de seus pais e avós. [link gen zeta]

Naturalmente, este processo de mudança gerou um fenômeno conhecido como turismo do futebol de massa. Isso, conforme já explicado, foi altamente enriquecedor para setor econômico que opera com forte competitividade entre destinos ao redor do mundo. Na década de 90, a macro cobertura midiática que impulsionou este esporte como sendo um fenômeno global, com jogos que eram acompanhados por 200 milhões de espectadores, trouxe um segmento de consumidores com alto poder aquisitivo que, inevitavelmente, se juntou ao circuito de consumo de futebol e, agora, as grandes arenas já fazem parte da cultura de um povo. Elas são mais uma atração na oferta cultural de um destino turístico, ao ponto de haver casos como o Museu FC Barcelona, que está entre os cinco mais visitados da Espanha, atrás do Museu do Prado e do Museu Rainha Sofia em Madri. Em outros casos, como o do Manchester, é o estádio que agrega valor ao modesto potencial turístico da cidade.

Uma mudança que não pode ser compreendida sem levar em consideração o “boom” do turismo urbano que, por sua vez, respondeu à revolução dos transportes. Enquanto isso, o torcedor fanático tradicional também se beneficiou de toda essa evolução de uma forma que ele nunca poderia ter sonhado. O exemplo mais explícito da mudança de paradigma é a diversificação do Olympique Lyonnais, de Lyon, que foi pioneiro na criação de sua própria agência de viagens, a OL Voyages, com pacotes completos para acompanhar sua equipe pela França e por toda a Europa, assim como ofertas especiais de férias para destinos como Ibiza, mar Adriático etc. O Liverpool, na Inglaterra, também estabeleceu uma parceria com a agência Thomas Cook, que incluiu o Liverpool FC Holiday Club, para obter melhores preços em destinos diferentes daqueles relacionados às viagens da equipe. Os clubes começaram a transformarem-se em verdadeiros prestadores de serviços para seus torcedores que, na verdade, foram os precursores para que tudo isso valesse a pena.

No entanto, é importante admitir que, se existe um desafio quanto à modernização do negócio do turismo de futebol, é o cuidado com o torcedor tradicional. Hoje, eles são viajantes autossuficientes que planejam suas próprias viagens e não precisam de assistência externa para chegar aos seus locais de “devoção”. O estudo publicado no jornal APTA (Asia Pacific Tourism Association) analisou o perfil deste turista movido pela nostalgia. Muitos deles, sinalizaram, repetiam viagens onde tiveram a oportunidade de vivenciar experiências como espectadores, mas a pesquisa mostrou que não era uma condição essencial sine qua non deixasse de assistir a um jogo com o objetivo de desenvolver certa nostalgia além de planejar uma viagem ao lugar onde este jogo aconteceu.

Os acadêmicos que realizaram esta pesquisa recomendavam determinados cuidados com todos os vestígios tradicionais que pudessem representar um significado especial para os torcedores ou ainda reviver fatos históricos do futebol que tivessem um grande peso. Isso representava um verdadeiro ato de preservação do patrimônio cultural esportivo que demandaria a implementação de novas tecnologias. Tudo isto torna-se um desafio para este esporte que precisa continuar encantando frente a um futuro transformador e sofisticado assim como manter sua essência que o tornou tão popular. Uma aposta na originalidade e na vanguarda ao mesmo tempo.

 

Álvaro González

 

 

 

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