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12 February, 2021

Torcedores internacionais: o novo ativo dos clubes não tem um papel passivo

Fan Engagement e Big Data
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Alguns estudiosos descreveram o futebol atual como um dos “motores e/ou espelhos” da globalização. Não só é um agente de expansão da economia e dos mercados no mundo, mas sim são mudanças em um ecossistema que podem ser observadas na própria sociedade geral. Já é um fato consolidado a existência de torcedores deste esporte que se popularizou em todo o mundo. Inicialmente, um fator importante desta expansão foram as migrações internacionais. Os torcedores de futebol foram uma forma de conservar vínculos com as origens dos trabalhadores estrangeiros ou com refugiados de qualquer natureza. Entretanto, a ampliação das transmissões esportivas fez com que os clubes começassem a formar nexos cada vez mais internacionais que aprimorasse a paixão de milhares de torcedores sem motivos suficientes para que estejam relacionados com a cidade ou com os países de origem da sua equipe de base.

Com um empurrão destes torcedores, os clubes se reergueram de maneira expressiva não só nas comunidades, de acordo com o conceito de Émile Durkheim, que descreve que os membros do grupo devem admirar os símbolos que os representam e reivindicarem para si. Os torcedores são identificados pelos desejos de exclusividade, de singularidade, atos de amor-próprio e elementos que os diferenciam entre clubes de futebol, os quais têm um papel importante de destaque quando estes torcedores são de fora da cidade. Este fenômeno pode ter se focalizado em teorias pós-modernas e transformações digitais contemporâneas, expandindo fronteiras, classes sociais e gêneros, assim como o surgimento de culturas que envolvem desde o clássico ao moderno e a configuração de novas identidades em espaços virtuais. De acordo com essas premissas, os torcedores de um clube de futebol se tornaram valores e exigências internacionais.

Paixões híbridas

Entretanto, a consolidação dos torcemos de um clube de futebol como identidade que não permite subornos, que acontece desde a segunda metade do século XX e XXI com diferentes identidades em função da economia global e o escopo dos meios digitais. Os novos torcedores são fiéis a diferentes clubes e podem até mesmo mudarem de clube. Podemos identificar melhor esse comportamento com as seleções, pois muitos torcedores passavam a torcer de acordo com suas preferências. O Facebook descobriu, durante a Copa do Mundo do Brasil, que muitos torcedores passavam a torcer para outras seleções de acordo com o avanço delas dentro da competição, caso suas seleções fossem eliminadas. Alguns estudos nomeiam esse comportamento como torcedores híbridos. A dinâmica para novos torcedores internacionais de futebol é de difícil compreensão. Entretanto, é possível de identificar as complexas relações culturais de cada torcedor.

Em função da globalização, ainda contamos com polos de atração altamente identificados. As ligas europeias desenvolveram conexões entre os principais clubes que contam com atletas e talentos internacionais. Isso leva a estes clubes contarem com atletas de diferentes origens e podem perder qualidade de jogo nos campeonatos nacionais. Daniel Evans e Glen Norcliffe comentaram sobre a espiral de sucesso, um fenômeno muito comum em esportes mediáticos, não somente para o futebol. Para sermos competitivos e vencermos uma competição necessitamos de investimentos, assim como sustentar uma sobrevivência financeira o que está diretamente vinculado a bons resultados. Necessitamos de excelentes atletas, que sejam ativos, independentemente de onde sejam. Aos poucos as barreiras foram sendo eliminadas com a inclusão de mais lugares para estrangeiros em função da Lei Bosman, como o restante das relações econômicas de livre mercado. Desta forma, é possível obter bons resultados, objetivos que sejam traduzidos com melhores audiências e mais dividendos com os que possamos retomar o processo de crescimento. Esta dinâmica formalizou a consolidação de uma elite europeia de clubes e isso também é assim em todo o mundo.

Detestar a “modernidade no futebol”

Quando um clube crescer e se estabelecer nestes padrões, a estratégia de conduzir ele a um lugar mais seguro, terá como consequência imediata a desnaturalização da equipe, o que antes era associado a atletas de bairros, cidades ou regiões do clube. Às vezes, podemos até mesmo receber investimentos iniciais feitos por empresas internacional torcedora do clube. Pelo menos, a área comercial do clube terá que abrir-se a novos horizontes e tentar captar novos torcedores, inclusive de outros países, continentes e turistas de todos os lugares. Uma situação que gera determinada resistência interna. Em primeiro lugar estão os torcedores locais que reclamam que o clube pode perder sua essência e raiz. Um claro exemplo disso é o desconforto de muitos torcedores em função de “detestar à modernização no futebol”. Em seguida uma determinada dificuldade para aceitar naturalmente novos mercados. A crescente influência dos clubes principais chegou a ser interpretada como um ato de colonização cultural. Entretanto, alguns estudos acadêmicos coincidem que o fenômeno gera movimentos em ambas as direções. Não tem um só significado ou sentido. Os novos torcedores não são “colonizados”, porque a torcida é um ativo que pertence ao clube, transformando-o em algo novo que não mais pertence exclusivamente à cultura local. Portanto, um torcedor internacional não é um fã satelital, mas sim um participante que necessita de novas dinâmicas dentro do esporte.

Entre os torcedores tradicionais o importante nestas alterações são o aumento do valor das entradas, a elitização dos estádios com a chegada de novos turistas às arquibancadas. Evans e Norcliffe citam o caso do Liverpool; Everton, o Derbi de Merseyside, em que os torcedores do Everton cantaram para os torcedores “You’re not from here, you’re not from here, go back to Norway, you’re not from here”. (Você não é daqui, não é nativo, retorne para a Noruega, pois não é daqui [livre tradução]), e alguns responderam “Como sabem que somos da Noruega?”

Uma forte negação dos torcedores ingleses, que dificilmente poderá ser vista e escutada quando quase um terço de todo o turismo da cidade está diretamente ligado ao futebol. Mais precisamente, 68,3% dos torcedores noruegueses são torcedores de futebol inglês e viajam, pelo menos uma vez, para a Inglaterra para assistir a um jogo do seu clube de coração. Entretanto, muitos torcedores de todo o mundo, que acompanham seus clubes de casa, contribuem com entradas necessárias para que o clube possa ter ingressos de acordo com o nível esperado para se manter na elite europeia.

A outra cara da moeda, ou seja 60% dos torcedores de futebol norueguês tiveram que escolher quem era mais fiel aos clubes ingleses em vez de clubes da Noruega. A perspectiva, a paixão pela Premier League neste país podem ter sido o motor que impulsiona os clubes locais, pois a audiência nos estádios cresce de forma paralela às audiências do futebol inglês na Noruega. Entre 1991 e 2006 as equipes como a Rosenborg duplicaram a quantidade de torcedores.

Citamos como pioneiro da globalização comercial o Manchester United. Peter Kenyon foi diretor executivo desde 1997, assinou o acordo com os New York Yankees e concedeu o direito a transmissão dos jogos do Manchester nos Estados Unidos através da YES, uma rede de televisão por assinatura e através da Terra Lycos que criava conteúdos para Internet direcionados ao público britânico. Se o período entre 1995 e 1996 o Barça passou de 58 milhões e o clube britânico com 62 milhões, depois de consolidar esta estratégia. Com o exercício de 2002 e 2003 o Barça declarou ingressos por 123 milhões e o Manchester por 251 milhões. O clube inglês foi o primeiro a ver o índice de torcedores internacionais que hoje é condição sine qua non para um clube que concorre com clubes realmente grandes.

Um dos critérios de escolha incerta

As verificações sobre este tipo de seguidores ainda estão nas fases iniciais, mas os países escandinavos, como é o caso da Noruega, foram sim objetivo de estudos e pesquisas. Estas pesquisas coincidem que torcedores estimularam este culto há muitos anos e a imprensa local fez esse acompanhamento através da liga inglesa e a transmissão dos jogos. Durante anos o encontro entre os ingleses era a única alternativa televisiva para os sábados à noite, mas que com muito trabalho foi internacionalizada com o objetivo de conquistar novos horizontes tornando possível que os torcedores pudessem assistir e torcer por clubes de outros países. Em muitos casos, se trata de jogos que ficaram na memória ou um atleta que era adorado, mas sem retorno expressivo, os torcedores escolheram seu clube favorito por causa das cores, pelo design do escudo ou por serem fãs de algum astro do rock. Inclusive existem histórias surreais, como o Norwich City da Noruega ou o caso de um torcedor do Derby Country porque quando ele era pequeno tinha uma bicicleta da marca Derby.

Este tipo de critério e decisão pode se tornar um obstáculo ou então sucesso total na expansão internacional de um clube de futebol e sua formação. O próprio Manchester United enfrentou problemas com os países islâmicos quando clérigos sinalizaram que a figura vermelha com um tridente poderia sugerir um escudo de Satanás e que a sua comunidade não deveria acompanhar o clube em função do símbolo. Os estudos sobre marketing de preferências da geração Z ou millenials como consumidores de uma marca de sucesso, com estratégias a longo prazo. Os novos torcedores globais são jovens e podem perder o interesse pelos clubes com os quais compartam valores humanos, inclusão e compromissos ecológicos.

Ao mesmo tempo, a saída de torcedores é mais expressiva caso observam diferentes comportamentos mundiais. Por exemplo, na Ásia existe uma forte tendência em seguir a atletas e não a clubes. O principal motivo é que muitos clubes contam com a participação atletas asiáticos que chamam a atenção deste mercado de torcedores. Ao mesmo tempo, quando David Beckham, o atleta mais seguindo naquela época, saiu do Manchester United, assinou contrato com a Audi e a Siemens com o claro objetivo de ampliar sua base de clientes na Ásia.

Além disso, com o aumento da comercialização, o futebol também foi potencializado por novas tecnologias. Richard Giulianotti se referiu ao horror vacui deste esporte. O rechaço ao nada e ao mesmo tempo ao jogo improdutivo e sem magia. Por isso é frequente que os meios preencham esses “espaços” com diferentes polêmicas, mesmo que não sejam reais, pois isso aumenta expectativas quando não existem incidentes significativos. A revolução tecnológica, especialmente a verificação de dados gerou e ainda gera notícias constantes o que não acontecia antes.

Vemos um aprimoramento dos produtos comerciais vinculados ao futebol. Ao chegar aos consumidores são convertidos em produtores com mais informações e as reações são publicadas em redes sociais pessoais, que contam com milhares de seguidores o que chamamos de segunda tela. O espetáculo agora é o mosaico de constantes estímulos. Uma experiência intensa em diferentes níveis que garante um relacionamento com diferentes valores culturais e identidades personalizadas de consumidores, com interesses táticos e até mesmo científico-técnico que pode ser aprendido através de uma disciplina esportiva. Os clubes assim, convertidos em multinacionais do setor de entretenimento, direcionam suas estratégias para o objetivo global para que todos os torcedores internacionais possam demonstrar seu amor e paixão aos clubes em todas as suas facetas de vida e, inevitavelmente, redefinir a identidade com equipes próprias.

 

Álvaro González

 

FONTES:

Football events, memories and globalization. Richard Giulianotti

The impact of international football events on local, national and transnational fan cultures: a critical overview. Mark Doidge, Robert Claus, Jonas Gabler, Richard Irving, Peter Millward& Jorge Silvério

Local identities in a global game: the social production of football space in Liverpool. Daniel Evans and Glen Norcliffe

The Global Football League: Transnational Networks, Social Movements and Sport in the New Media Age. Dr Beth Fielding-Lloyd

Global football in the US market. The internationalization of FC Barcelona and its media coverage. Xavier Ginesta, Jordi de San Eugenio, Pau Bonet & Martí Ferrer

Transnational Passions: A Statistical Study of Norwegian Football Supporters. Hans K. Hognestad

Transglobal Scandinavian? Globalization and the contestation of identities in football. Hans Hognestad*

 The Premier League-globalization nexus: notes on current trends, pressing issues and inter-linked “-ization” processes. Jan Andre Lee Ludvigsen

(Dis)locating nations in the World Cup: football fandom and the global geopolitics of affect. Mel Stanfill & Angharad N. Valdivia

European club capitalism and FIFA redistribution models: an analysis of development patterns in globalized football. Rasmus K. Storma,b and Harry Arne Solbergb

The global football league. P. Millward

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