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9 December, 2020

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“Treinar o cérebro não consiste em desconectá-lo de suas emoções, mas em tê-las no momento certo”

A professora Dehra Harris mediou um debate entre Tara Swart Doutora em medicina e neurocientista; Aureli Soria-Frisch, diretora de neurociência da Startlab, em Barcelona; e Riccardo Ceccarelli, médico da Fórmula 1, sobre as particularidades do cérebro dos atletas e a possibilidade de treiná-lo para atingir objetivos mais elevados.

Swart iniciou sua explicação com o conceito de neuroplasticidade, essencial para entender o que acontece no cérebro dos atletas. Trata-se sobre a capacidade do cérebro humano de crescer e se adaptar ao longo da vida. Todas as emoções que experimentamos, o que gravamos em nossa memória e o que aprendemos é como ele se forma e continua se desenvolvendo, no decorrer dos anos.

Esta médica trabalha com executivos e atletas para ajudá-los nessa adaptação. Estar ciente pelos que não têm essa consciência e necessitam ter para seguir em frente na vida. “A maior barreira que alguém pode ter é não saber o que o limita”, explicou. O problema para um atleta é que, enquanto esse processo de conscientização está em construção, o cérebro negligencia outras funções e pode prejudicar seu desempenho em outros aspectos. Para um empresário não seria um problema sério, mas para um atleta pode ser a diferença entre a vitória e a derrota.

Existem diversas ferramentas para se intervir diretamente no cérebro, disse Soria-Frisch, e normalmente são usadas para tratamentos como epilepsia ou depressão. Alguns desses métodos já foram implementados no esporte. Em equipes como Milan ou Manchester United, foram usados sistemas de indução de ondas cerebrais para aumentar a atenção cognitiva e a estabilidade emocional.

A tecnologia ECG pode ler os sinais que nosso cérebro emite e transformá-los em um código digital que nos permite medir o desempenho cognitivo. Com esses dados, podemos perceber que o cérebro dos atletas é diferente. O esporte é baseado em ciclos de percepção, onde o sentido cognitivo desempenha um papel muito importante, explicou. Os atletas têm uma maior capacidade de prever as situações. Na verdade, por meio de uma análise cerebral, é possível ver quais atletas serão melhores.

Neste ponto, Swart interveio e comentou que, durante uma temporada, não recomendamos que um atleta aprenda coisas novas, pois pode afetar seu desempenho. Mas a neuroplasticidade deve ser treinada durante os intervalos para que esteja na condição ideal no início da nova temporada. Por exemplo, tentar aprender um novo idioma ou tocar um instrumento. Isso tornará mais fácil o aprendizado de uma nova técnica quando o atleta retornar os treinamentos.

Finalmente, Ceccarelli mostrou os resultados das análises cerebrais dos pilotos de Fórmula 1. A principal diferença entre os melhores é uma baixa atividade no lobo frontal se comparado com as pessoas comuns. Eles melhoram o funcionamento do cérebro ao máximo e tendem a fazer tudo de maneira automática. Se a atividade for comparada com a de um estudante, é possível verificar que este tem maior probabilidade de gerar pensamentos negativos: medo, ansiedade; que aumentam suas chances de cometer erros. Está comprovado que os pilotos podem passar pelas mesmas experiências que os estudantes. Por exemplo, em medições realizadas em um determinado circuito, descobriram que, no meio da jornada, se o piloto vai bem e começa a pensar que tem que continuar indo bem, fica tenso e sua preocupação o leva a cometer erros. O melhor piloto é aquele que trabalhou sua concentração ou domina sua mente a ponto de abstrair-se e executar todas as suas funções automaticamente, sem pensar ou sem deixar que outros pensamentos interfiram.

Até agora, essas medições serviram para analisar jovens que querem se dedicar à Fórmula 1. Os managers podem decidir em quem investir, de acordo com o relatório do funcionamento de seu cérebro, pois é possível prever se ele será capaz ou não de controlar suas funções. No entanto, Soria-Frisch esclarece, “não se trata de desconectar as emoções, mas de tê-las no momento certo”.

“Pode-se investir em um jogador, mas ele vai acabar se aposentando, mas a marca do clube tem que ficar lá para sempre”

Mario Leo moderou um encontro entre Uri Fleming, da Amazon Studios; Guillem Graell, diretor da área de marca e marketing do FC Barcelona; e Darren Pearce, da Tennis Austrália. O assunto abordado por eles marcará o futuro das organizações esportivas e da mídia do futuro. Com o desenvolvimento das novas tecnologias, quais as possibilidades das entidades esportivas de se tornarem as novas mídias?

Graell apresentou a situação do FC Barcelona neste contexto. No clube existe o paradoxo entre ter o maior estádio do mundo, mas que a maioria seus torcedores nunca irão conhecer. Outra situação que se contrapõe à lógica ordinária do mercado é o comportamento desses torcedores: O clube não cria produtos para atraí-los, são eles que buscam produtos do clube.

Conforme informado por Grael, o segredo deste sucesso deve-se ao fato de o Barça ter alcançado a sua fase desportiva mais frutífera nos últimos vinte e cinco anos, coincidindo com o surgimento da Internet, das novas tecnologias e das redes sociais. Se tivesse tido seu auge na década de 1950, teria um impacto local; no início deste século, tornou-se um fenômeno mundial devido ao boom digital.

Isso significou estabelecer canais e plataformas de comunicação próprios, que buscam preencher as lacunas de conteúdo que acontecem nos períodos sem jogos. Esta maior visibilidade criou valor para o clube e para seus patrocinadores, explicou ele. No entanto, toda a estratégia foi submetida a intermediários. Alguns, como o YouTube, compartilham os lucros com os criadores de conteúdo. Em outros casos, você tem que pagar para atingir os torcedores.

A estratégia mundial do clube enfrenta uma realidade inquestionável. Não existe um perfil definido de torcedores e nem todos estão localizados no mesmo lugar. Era preciso estabelecer os alicerces para que todos tivessem o sentimento de pertencer a uma comunidade que compartilha uma paixão.

Na tomada de decisões de longo prazo, foi levado em consideração que é possível investir em um jogador, mas que um dia ele vai se aposentar ou deixar o clube. No entanto, a marca FC Barcelona tem que ficar aí para sempre. De fato, diante dos novos cenários, com a nova oferta de entretenimento que tende ao infinito, a marca pode ser o melhor jogador, pois: “Já não competimos mais apenas contra o Real Madrid ou o Manchester United, competimos também pela atenção do público”, alertou.

Do ponto de vista das plataformas de conteúdo, Fleming garante que a Amazon funciona como se todos os dias fossem o primeiro. Elas têm o cliente no centro de sua estratégia e cada inovação é considerada com eles em mente. E completou: “Se algo é constante na Amazon, é a mudança no modelo de negócios”. Mas algumas evoluções são naturais. A empresa começou vendendo livros, depois também DVDs e, no final, chegou ao streaming, que trouxe por si só as transmissões esportivas ao vivo. Sobre esse ponto, se as entidades esportivas se tornassem os novos meios de comunicação, na sua opinião, teriam menos margem para divulgar o seu conteúdo do que com as plataformas existentes. O risco que correriam caso dessem esse passo seria estagnação e a perda da possibilidade de atrair novos torcedores.

Um caso de centralização das transmissões é o da Tennis Austrália, entidade estadual detentora dos direitos do Austrália Open, que entre outros esportes, tenha 90% de sua receita advinda desta competição. Pearce disse que seu desafio diário é transformar as cinco semanas do torneio em conteúdos para o ano todo. Por enquanto, eles dobraram os benefícios, mas o problema é que eles não têm um conceito de comunidade como o Barça e nem mesmo possuem contrato com grandes jogadores, como Federer, Nadal ou Serena Williams, que são entidades independentes. A margem de ação que têm é almejar ser o grande palco que reúna torcedores e os melhores atletas em um mesmo espaço.

Como é possível ensinar a um computador a medir o domínio no futebol?

Pesquisador associado do Grupo de Análise e Visualização de Dados da Universidade de Konstanz, Manuel Stein expôs a situação em que a análise de dados está no futebol, e quais os desafios os esperam para o futuro. Uma apresentação que intitulou ’28 papers después’ e abrange sete anos de compilação e análise visual deste esporte.

Quando começou a investigar o maior problema que teve era como coletar os dados, ele disse. Os equipamentos para isso são caros ou inacessíveis, e as grandes equipes não os compartilham. Por isso se viu obrigado a fazer sua própria análise, tomando como fonte os vídeos dos jogos que passavam na televisão.

Seu objetivo era o mesmo que têm os profissionais. Encontrar nos dados as respostas para o que não pode ser visto a olho nu e fazer com que essas análises sejam automáticas. Porque um jogador se moveu ou se deslocou, como o fez, se ele responde a um planejamento ou é sua própria iniciativa e, acima de tudo, porque uma equipe predomina sobre outra. No entanto, a questão mais importante era: como é possível ensinar a um computador a medir o domínio no futebol?

Sem o apoio dos clubes, Stein configurou seu computador para extrair dados dos vídeos. A primeira coisa era que o programa conseguia detectar os jogadores pela cor da camiseta, embora aí houvesse um problema para os jogos que foram disputados no final do dia, que ocasionavam mudanças devido a iluminação. Então, ele realizou um escaneamento da estrutura física de esqueleto de cada jogador para que pudesse acompanhar sua orientação em relação à bola. Finalmente, realizou um tracking da bola.

Outro problema que surgiu para ele foi que nos jogos televisionados nem todos os jogadores são vistos no mesmo plano, às vezes nem mesmo a bola. Para isso, ele projetou no computador uma vista panorâmica de todo o campo e indexou frame por frame o plano da televisão.

Porém, para a análise, o computador não é suficiente para poder acompanhar o movimento da bola e dos jogadores; para obter respostas automáticas de mais variáveis, é necessário introduzir o contexto. “Temos que ensinar ao computador o que é óbvio para nós”, disse antes de citar Johan Cruyff, quando disse que quem move a bola não é o jogador que a conduz, mas sim aquele que não a tem.

Stein revelou como programou a detecção de um espaço de interação com base na posição dos jogadores, a distância que até outras áreas do campo e a velocidade com que se deslocam. Um sistema usado para medir os espaços livres ou, como se costuma dizer na gíria do futebol, a lacuna. Seu método de análise calcula qual jogador tem mais vantagem para chegar a esse ponto. Desta forma, conseguiu estabelecer quais são as regiões dominantes que cada jogador controla em campo. Aquelas que um adversário não conseguiu atingir com um passe direto ou, segundo os seus parâmetros, aquelas que três jogadores da mesma equipe podem atingir de forma simultânea. Medindo o perigo de aproximações do gol ou da defesa, esta é a forma de calcular o posicionamento ideal de um jogador de futebol.

Uma vez alcançada a interpretação do jogo pelo programa, Stein considera que é necessário integrar a medição dos dados com os vídeos reais dos jogos. Ao contrário da preferência das retransmissões e dos fãs, para os analistas a tela dupla é um problema. A estes dados, também deverão ser adicionadas as constantes biométricas para poder medir a fadiga dos jogadores. Se puderem ser acrescentados ao resultado os casos hipotéticos, um ‘what if’, permitiria aos treinadores especular o que poderia ter acontecido e, ao mesmo tempo, alimentar mais dados do programa. Assim, estaremos diante da revolução iminente na análise de jogos de futebol.

“Os treinadores devem criar contextos em que os atletas possam se sentir livres e desenvolver o que tem dentro de si”

Pablo Franco, treinador do Al-Qadsia SC Kuwait e ex-analista de Julen Lopetegui no Real Madrid, falou com Isaac Guerrero sobre a criatividade dos jogadores e o papel do treinador entre a organização coletiva e individual. Franco se mostrou a favor do respeito pelo jogador e suas características particulares.

Sua maneira de trabalhar é baseada na observação, revelou. Tentar entender o que cada jogador tem dentro de si e depois interagir com ele e para que tudo finalmente se encaixe. O papel do treinador é decidir quando atrair, mobilizar ou avançar, assumindo riscos e, neste contexto, o jogador é quem toma as decisões em última instância.

Uma equipe pode nunca responder às características que um treinador impõe. Conforme explicou, a identidade é parte de princípios gerais e depois a interação dos jogadores faz com que consigam alcançar os detalhes diferenciados.

Para ele, a auto-organização de um time de futebol passa pela intencionalidade, não é possível falar desse conceito como um sistema de jogo. É um arranjo que depende sempre do que o adversário faz, do movimento, da bola, de modo que não tem começo, nem fim, nem fases intermediárias.

Para manter a coesão e a iniciativa do elenco, Franco acredita que é preciso colocar o foco menos na bola e mais no lado pessoal. “Foi demonstrado que os times de futebol são capazes de ter um desempenho melhor se forem unidos em um grupo humano”, disse ele. Ele defende o fortalecimento das relações com e entre os jogadores de futebol, estabelecendo laços de confiança, compartilhando valores, pois eles se desenvolverão ainda mais no campo.

No entanto, ele não considera que a criatividade pertença à esfera individual do jogador de futebol. A maioria das situações que são reproduzidas no campo exige uma participação coletiva, desde que não haja um craque nato presente, no final a criatividade é resultado da interação dos jogadores.

O que o treinador pode fazer para encorajar essas situações é eliminar proibições ou discursos unilaterais. A tendência, geralmente, é de restringir os movimentos no espaço ou tomar decisões por eles. “É preciso deixar o ego de lado”, proclamou, “gerar tarefas e contextos nos quais o jogador possa se sentir livre e dar tudo de si”.

Sobre a sua atuação como treinador internacional, ele alertou que é fundamental mergulhar na cultura e no contexto social dos locais. Às vezes, não basta conhecer o país, só entre cidades já pode haver grandes diferenças culturais e futebolísticas. Seu conselho é deixar claro que um treinador não pode mudar a cultura de um país, então ele deve se adaptar a ela ou estará fadado ao fracasso. “Se como treinadores acreditamos que não vamos nos enquadrar num contexto, o melhor é nos afastarmos”, concluiu.

“As jogadoras de futebol estão ficando mais fortes, mais altas e mais rápidas”

Em uma apresentação tripla, a Dra. Maria Antonia Lizarraga, a Dra. Eva Ferrer e a nutricionista Mireia Porta mostraram as mudanças fisiológicas e físicas que as jogadoras do FC Barcelona estão apresentando.

A Dra. Lizarraga analisou as alterações na menstruação entre as atletas. Devido à alta prevalência de problemas no ciclo menstrual que existe entre as atletas de alto rendimento devido à baixa disponibilidade energética, os serviços médicos do clube têm estudado esse possível impacto nas jogadoras de futebol. Ao contrário do que acontece com as atletas, que têm um perfil catabólico caracterizado pela perda de peso pronunciada, a Dra. Lizarraga explicou que as jogadoras de futebol apresentam um perfil anabólico, representado pelo aumento da massa muscular, densidade óssea ou níveis de androgênios. Portanto, a estratégia nutricional nessas jogadoras deve ser completamente diferente daquela utilizada em um estado de baixa disponibilidade energética.

De acordo com a Dra. Lizarraga, esse caráter hiperandrogênico poderia dar a elas uma vantagem competitiva. Sugere-se ainda que exista uma seleção natural que provoca uma alta prevalência desse perfil entre atletas de alto rendimento. Por exemplo, no FC Barcelona estima-se que cerca de 70% têm um perfil hiperandrogênico. Conforme explicado, há uma maneira simples de avaliá-lo, medindo o comprimento do segundo e do quarto dedo da mão direita. De acordo com diversos estudos, ter o quarto dedo do pé mais comprido está associado a esse perfil.

Na segunda parte da apresentação, a Dra. Eva Ferrer mostrou as avaliações às quais são submetidas as jogadoras para controlar sua saúde menstrual. Além de uma avaliação ginecológica anual, todas as jogadoras possuem um aplicativo denominado “E-Keep”, que devem preencher todos os dias de acordo com o solicitado pelos serviços médicos e monitoram a duração e o número de ciclos das jogadoras. Assim, podem controlar certos fatores em cada ciclo. Com estes dados tentam reduzir o risco de lesões, conforme explicado pela Dra. Ferrer, um maior número de lesões musculares ocorre na fase folicular.

Por sua vez, Mireia Porta analisou a evolução da composição corporal das jogadoras do FC Barcelona, destacando que, em média, em um período de 5 anos perderam 5% da massa gorda e ganharam 3% da massa muscular. Nas palavras da nutricionista, “as jogadoras de futebol estão ficando mais fortes, mais altas e mais rápidas”. Esta alteração deve-se, principalmente, a uma melhoria nos processos de treinamento, onde se constatou que a carga de trabalho no campo e na academia aumentou consideravelmente, além de melhores hábitos nutricionais.

Um aspecto importante do departamento médico é adequar a alimentação ao treinamento das jogadoras, de forma que, por meio de uma escala de cores, como um semáforo, os jogadores recebam indicações baseadas nas necessidades energéticas de sua carga de treinamento. Concluindo, “a alimentação deixou de ser o treinamento invisível para se tornar um treinamento visível e fundamental para o seu rendimento”.

“O fator mais importante para explicar a diferença de rendimento entre os sexos é a testosterona”

A Dra. Angelica Lindén Hirschberg, professora e pesquisadora do Instituto Karolinska, na Suécia, fez uma extraordinária apresentação sobre as diferentes alterações fisiológicas que podem ocorrer nas mulheres, analisando o impacto que elas têm na saúde e no rendimento.

Para colocar essas condições em contexto, a Dra. Lindén começou explicando as diferenças de desempenho entre homens e mulheres. Segundo ela, “embora não seja reconhecido, o fator mais importante que explica as diferenças de sexo no rendimento é o nível de testosterona”. Um nível mais alto de testosterona está relacionado a um aumento da massa e força muscular, bem como a uma melhor capacidade aeróbica. Tudo isso confere uma vantagem competitiva a homens e mulheres com níveis de testosterona acima da média.

A pesquisadora detalhou uma alteração, conhecida como amenorreia atlética, sofrida por um percentual significativo de atletas mulheres – que varia entre 6 e 69% dependendo da modalidade esportiva – e se caracteriza pela ausência da menstruação. A Dra. Lindén analisou detalhadamente os mecanismos subjacentes a este estado endócrino, onde a deficiência energética desempenha um papel crucial no seu desenvolvimento. A disfunção hipotalâmica do eixo reprodutivo (hipotálamo-hipófise-gônadas) produz perda de peso acelerada, disfunção metabólica e diminuição dos níveis de hormônios femininos e de testosterona. Tudo isso leva a um estado disfuncional da mulher que, portanto, afeta seu rendimento.

Existe também um estado contrário, denominado Síndrome dos Ovários Policísticos, conhecido como SOP, que atinge cerca de 10% das mulheres em idade fértil e se caracteriza por um aumento na produção de androgênios, testosterona e principalmente, causando distúrbios na menstruação e diminuição da capacidade reprodutiva. Nesse caso, essa alteração não é causada pelo exercício, mas sim pelo seu caráter anabólico. De acordo com a Dra. Lindén, isso pode melhorar o desempenho esportivo. Os atletas com SOP têm, em média, mais massa muscular e apresentam melhor desempenho, algo que a pesquisadora em grande parte associada ao aumento dos níveis de testosterona.

Devido a interação que esse hormônio pode ter no rendimento, ela analisou os dados do estudo que conduziu, no qual o efeito do aumento da testosterona no rendimento das mulheres é demonstrado, pela primeira vez, em um ensaio clínico duplo-cego randomizado. Assim, aquelas que tiveram incremento exógeno de testosterona por 10 semanas, melhoraram sua capacidade aeróbica em mais de 8%, o que indica a importância desse hormônio para o rendimento. Por isso, a Dra. Lindén afirmou que “a crescente evidência sugere que o hiperandrogenismo endógeno melhora o rendimento físico e pode desempenhar um papel na decisivo na seleção de mulheres na hora de competir”.

Monitoramento da carga de trabalho: o que sabemos até agora?

Dr. Maurizio Franchini, chefe de Rendimento da A.S. Roma, destaca a importância do monitoramento das cargas de trabalho no rendimento esportivo. A palestra começa apresentando a variedade de marcadores de carga (tanto interna e externa) que podemos medir. Por exemplo, existem vários marcadores de carga de trabalho externa (por exemplo: player load, distância total, distância em alta intensidade ou acelerações/desacelerações) que podem ser avaliados com dispositivos GPS e acelerômetros. No entanto, não conhecemos com detalhe a validade ou a confiabilidade dessas medidas. Da mesma forma, temos à nossa disposição diferentes variáveis de carga interna (por exemplo: lactato, frequência cardíaca etc.), mas nem sempre são viáveis do ponto de vista prático, ou não são úteis em determinados exercícios como os de velocidade ou os intermitentes. Portanto, algo tão “simples” como a relação do esforço percebido pode ser considerado o marcador mais útil e confiável de carga interna.

O Dr. Franchini também mostra, com base em dados de uma pesquisa realizada por ele mesmo, como a maioria dos atletas de alto rendimento do futebol consideram que vários marcadores de carga externa (por exemplo: distância em alta velocidade, acelerações/desacelerações) são os mais úteis para monitorar seus jogadores, e que são importantes para prevenir lesões. Dr. Franchini afirma que, apesar desse pensamento generalizado, as evidências científicas que sustentam a relação entre essas variáveis de carga e o risco de lesão é fraco metodologicamente (devido em parte à natureza multifatorial das lesões, e à ausência de evidência de causa-efeito). Além disso, a associação entre os marcadores de carga interna e externa depende do tipo de trabalho realizado, portanto, uma variável de carga interna pode ser útil para um determinado tipo de treinamento, mas não para outros (por exemplo: a taxa de percepção de esforço não seria útil para sessões predominantemente técnicas). Por isso, o Dr. Franchini conclui recomendando o monitoramento de cargas como método para verificar o processo de treinamento e se o jogador está cumprindo o trabalho prescrito, mas este não deve ser considerado um método para prever lesões.

Quais tratamentos são eficazes para as tendinopatias?

O Dr. Robert-Jan de Vos, médico e pesquisador do Centro Médico da Universidade Erasmus e na equipe FC Excelsior de Rotterdam, fez uma apresentação sobre os tratamentos adjuvantes no manejo das tendinopatias dos membros inferiores. O Dr. de Vos explicou por que em alguns casos podem ser necessários estes tratamentos, seus efeitos potenciais, os diferentes tratamentos existem e, finalmente, resumiu a evidência disponível.

Na opinião do pesquisador, “a pedra angular da terapia deveria ser a educação, o controle de carga e do exercício”. O problema é que, apesar de na maioria das vezes os atletas poderem ser ajudados com esses tratamentos, eles têm uma eficácia reduzida, com efeitos em 50-60% dos pacientes. Outro problema a ser considerado é o limitado tempo disponível para tratar os atletas de alto rendimento. Por isso, é comum que os especialistas utilizem outras técnicas com o objetivo de acelerar os processos de recuperação. Os mais usados são os medicamentos anti-inflamatórios não esteroides, as ondas de choque ou as injeções de corticosteroides e de plasma rico em plaquetas (PRP).

Depois de explicar em que consiste cada método, o pesquisador falou que na maioria dos casos há um nível de evidência contraditório ou baixo para a eficácia desses tratamentos. Um caso notável é o das injeções de PRP, em que apenas foram realizados 10 ensaios clínicos controlados randomizados e, em compensação, existem publicadas 400 revisões. Além disso, sendo uma técnica amplamente utilizada hoje, na maioria destes ensaios o resultado com PRP não é superior ao do grupo placebo. Portanto, de acordo com essa evidência, concluiu-se que “no caso de considerar o uso de algum tratamento adjuvante, não devemos nos esquecer de fazer exercícios progressivos, controlar a carga e educar o paciente, já que a combinação dessas terapias é mais benéfica que o tratamento adjuvante sozinho”.

Por sua parte, a Dra. Karin Grävare Silbernagel, professora associada da Universidade de Delaware, analisou em sua apresentação as tendinopatias como as rupturas do tendão de Aquiles. A pesquisadora explicou que a ruptura de Aquiles ocorre repentinamente, tem uma incidência cumulativa entre os atletas com menos de 45 anos de 5,4% e raramente apresenta sintomas prévios. Se observarmos o gênero, ela explica que em 80% dos casos essa lesão ocorre em homens, enquanto apenas 20% atinge mulheres. Uma das consequências dessa lesão é o medo criado nos atletas em relação a retornar à prática esportiva. Em relação à tendinopatia, explicou que ela é causada por uso excessivo e que tem incidência de até 18,2% em atletas com menos de 45 anos. Em contraste com as rupturas de Aquiles, a incidência é semelhante entre homens e mulheres.

Um aspecto importante apontado pela Dra. Grävare em sua apresentação sobre a tendinopatia é que “a recuperação sintomática não garante a recuperação completa da função músculo-tendinosa em pacientes com tendinopatia de Aquiles. Por exemplo, as pessoas que têm estrutura tendinosa alterada, mas são assintomáticas, apresentam uma alteração na biomecânica de funcionamento com adaptações neuromecânicas”.

No caso das rupturas do tendão de Aquiles, a pesquisadora reiterou que o tendão deve ser exposto a uma carga suficiente durante a cicatrização para melhorar sua estrutura. Além disso, ele apresentou estudos nos quais demonstrou que os maiores níveis de atividade física estavam associados a uma melhor reparação do tecido. Por esse motivo, concluiu que “a reabilitação/mobilização precoce pode reduzir o risco de uma nova ruptura, mas devemos fazer o correto para não aumentar o risco de um alongamento excessivo do tendão”

Tendinopatia dos adutores: O que fazem as equipes profissionais?

Yon Álvarez, fisioterapeuta da segunda equipe de futebol do FC Barcelona, explicou o modelo usado pelo clube no tratamento de lesões tendinosas dos adutores. Embora essa lesão não seja a mais comum no futebol, é muito desconfortável quando os jogadores têm que treinar ou jogar com ela. De acordo com os últimos estudos realizados em todas as modalidades coletivas do clube, essa tendinopatia representa 7,4% de todas as lesões. Um fato relevante é que o return to play desta lesão é o mais longo.

 

Uma peculiaridade das tendinopatias é que apenas 30% dos jogadores interrompem sua atividade, de forma que a maioria continua jogando e treinando com a doença. Por isso, Álvarez explicou que os programas de recuperação visam atenuar os mecanismos subjacentes as lesões, muitos dos quais ligados à própria ação do jogo (por exemplo: mudanças de direção, batidas ou altas cargas de corrida).

Seguindo essa premissa, e após ter indicado que a redução da faixa de movimento da articulação de ambos os quadris é um importante fator de risco, grande parte do trabalho visa melhorar a amplitude da mobilidade articular. Este trabalho é desenvolvido com treinamento de força e estabilização da zona CORE. Tudo isso é realizado de forma progressiva e usando diferentes tipos de exercícios (por exemplo: isométrico, excêntrico, concêntrico, funcional dinâmico) e superfícies (por exemplo: superfícies instáveis ou areia). Já na última etapa da recuperação, Álvarez explicou que valorizam a reincorporação dos jogadores ao treinamento com exercícios que exijam uma maior carga no tendão e demanda cognitiva.

Em uma segunda fase do dia, Oriol Balaña, fisioterapeuta do Girona FC, mostrou o seu modelo de reabilitação de lesões. Dividido em 5 fases, a reabilitação proposta é uma sequência de tarefas com um grau de progressivo de dificuldade, tanto física como cognitiva, onde o jogador é exposto a diferentes cargas para melhorar os sintomas e a função da zona lesionada. Por exemplo, em uma primeira fase, antes de o jogador poder participar de uma corrida regular, ele realiza exercícios de “antigravidade” na água, na bicicleta ou nas esteiras AlterG. À medida que o jogador ganha confiança e suporta uma carga maior, são incorporados movimentos intervalados lineares e multidirecionais no campo ou na areia com uma intensidade próxima à do jogo real.

Ressaltando ainda que é fundamental ter um sistema de avaliação que permita repetir os testes de forma sistemática. Apresentando um sistema de avaliação que classifica os jogadores após terem sido submetidos aos respectivos testes com bandeiras de diferentes cores. Isso ajuda a categorizar o estado do jogador e estabelecer exercícios e progressões.

Uma extensão do modelo de medição OBSO de Spearman

Hugo Ríos, da Universidade Federal de Minas Gerais, apresentou sua proposta para melhorar o modelo de Off-ball scoring opportunity (OBSO) – oportunidade de gol sem bola – de William Spearman. Com base na análise de duas dezenas de gols do Liverpool, em 2019, e com os dados obtidos do Friends of Tracking Initaitive, concebeu um modelo que permite aprofundar a análise das estratégias de ataque de uma equipe.

O modelo original de OBSO funcionava apenas nas ocasiões de gol, Ríos entende que desta forma nós perdemos a análise dos jogadores que estão livres para receber um passe durante o resto do tempo e medir a possibilidade de passes que poderiam ter alcançado seu destino se tivessem sido feitos, por exemplo, um segundo antes. Além disso, o OBSO inicial contava os passes, mas Ríos também introduziu a possibilidade de autopasses.

Da mesma forma, no OBSO de Spearman era necessário que várias condições fossem atendidas. Para extrair seu coeficiente, devia ser produzido um passe, um atacante tinha que controlar a bola e um jogador fazer o gol. Ríos abriu essas possibilidades adicionando as variáveis que geram a tomada de dados com os passes que ocorrem em qualquer parte do campo, para poder medir a probabilidade de atingir o gol de todo o campo, em qualquer lançamento.

Como resultado, Ríos traduz os dados em um gráfico de controle ou domínio do campo por equipe em cada transição. Se somarmos a probabilidade de marcar, levando em conta o ângulo e a distância, os dados permitem definir o tipo de ataque de cada equipe e o perigo envolvido com muito mais profundidade. Isto não só seria útil para os treinadores obterem mais informações durante a temporada ou em treinamento sobre seus modelos de jogo, como também teria uma função muito importante para que os scouters e olheiros que façam relatórios sobre clubes rivais.

 

 

 

 

 

 

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