2 July, 2018

O NÍVEL DE RESISTÊNCIA COMO MODERADOR DA CARGA DE TREINO

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Actualmente, os preparadores físicos e/ou corpos técnicos monitorizam e gerem a carga de treino para cumprir uma série de preceitos, na tentativa de otimizar o estado condicional sem comprometer a saúde do desportista. A carga acumulada numa determinada estrutura temporal, a mudança de carga entre semanas e o rácio de carga aguda:crónica são só alguns dos indicadores a que os técnicos dão especial atenção, nas suas monitorizações, procurando respeitar determinadas regras. A pergunta que devemos fazer é: Serão os limites dessas regras iguais para todos os nossos jogadores? Será que todos respondem da mesma forma a um rácio de carga aguda:crónica de 1,6? Serão todos os nossos jogadores igualmente sensíveis à lesão?

A gestão inadequada de cargas de treino foi considerada um dos factores de risco que mais predispõe os desportistas à lesão. No entanto, os “erros” na gestão do treino aumentam mais a probabilidade de lesão num grupo de desportistas do que noutro.  Definiram-se como moderadores, as características que permitem aos desportistas suportar/tolerar a carga de treino, minimizando os efeitos lesivos da mesma (Windt et al., 2017).

Figura 1. Rácio de carga aguda:crónica e probabilidade de lesão. Modificado de Blanch e Gabbet (2016).

A resistência cardiovascular dos desportistas surgiu como moderador do resultado da carga a que se sujeita o desportista. No caso específico do futebol, investigações recentes concluem que os jogadores com pior nível de resistência intermitente têm o dobro-triplo das probabilidades de sofrer uma lesão, em relação aos desportistas com melhor rendimento na prova 30-15 VIFT (Malone, Owen, Mendes, Hughes, Collins e Gabbett, 2017). Passa-se a descrever alguns dos resultados obtidos. Os jogadores com um nível inferior de resistência intermitente (VIFT 14,0-15,5 km·h-1) acusam maior probabilidade de lesão nas seguintes condições:

  • Cargas semanais de distância percorrida a alta velocidade, superiores a 1025 m (x3)
  • Cargas semanais de distância percorria em sprint superiores a 350 m (x5)
  • Mudanças semanais na distância percorrida a alta velocidade, de entre 300-600 m (x3)
  • Rácio de carga aguda:crónica >1,25 na distância percorrida a alta velocidade (x4)
  • Rácio de carga aguda:crónica >1,35 na distância percorrida em sprint (x4)

Os valores associados ao x referem-se ao aumento de probabilidades relativamente a desportistas com melhor nível de resistência (grupo com uma VIFT de entre 20,0 e 22,5 km·h-1). Assim sendo, por exemplo, a probabilidade de lesão é 5 vezes superior, quando a distância percorrida em sprint semanal excede os 350 m no grupo de baixo nível de resistência intermitente, relativamente ao grupo de alto nível, nesta capacidade.

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Torna-se, portanto, interessante ter em conta o nível de preparação física dos nossos desportistas na gestão da carga de treino. Deste modo, quando se avalia esta capacidade e se detetam desportistas com baixo nível de preparação física, estes devem passar a ter limiares de carga mais reduzidos, enquanto se procura superar essa limitação. Isto parece contrariar a prática mais habitual no mundo do futebol, que consiste em fazer os jogadores com pior nível de preparação física suportar ou experimentar cargas mais elevadas do que os restantes membros da equipa, dando-lhes mais trabalho, para além do treino coletivo, para que superem a referida limitação. A aplicação desses níveis de carga a jogadores de baixo nível de preparação física pode torná-los mais suscetíveis a lesões.

Em contrapartida, é possível aplicar cargas superiores de treino aos desportistas “robustos” face à lesão, com alto nível de preparação física e que não tenham sofrido lesões previamente, para se conseguirem determinados objectivos de rendimento, pois os moderadores presentes impedem que essa carga lhes aumente a propensão para a lesão. Rácios de carga aguda:crónica de 1,7 poderiam ser um pouco mais “seguros” nesses desportistas, mas aumentariam as probabilidades de lesão em desportistas com um vasto historial de lesões prévias e/ou baixo nível de preparação física e/ou baixo nível de carga crónica, pois já se encontrariam fora da zona de segurança.

 

David Casamichana Gómez, Doutor em Ciências da Atividade Física e do Esporte. Preparador físico de futebol. Professor universitário e pesquisador. Professor especialista do Certificado em Gestão da Carga de Trabalho no Futebol do Barça Innovation Hub – Universitas.

 

Referências

Blanch, P. e T.J. Gabbett (2016). “Has the athlete trained enough to return to play safely? The acute: chronic workload ratio permits clinicians to quantify a player’s risk of subsequent injury.” Br J Sports Med, 50(8): 471-475.

Malone, S., A. Owen, B. Mendes, B. Hughes, K. Collins e T. J. Gabbett (2017). “High-speed running and sprinting as an injury risk factor in soccer: Can well-developed physical qualities reduce the risk?” J Sci Med Sport, S1440-2440(17):30442-5.

Windt, J., B.D. Zumbo, B. Sporer, K. MacDonald e T.J. Gabbett (2017). “Why do workload spikes cause injuries, and which athletes are at higher risk? Mediators and moderators in workload-injury investigations.” Br J Sports Med, 51(13):993-994.

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