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23 September, 2020

Quais os fatores que influenciam nas lesões dos isqueosurais?

Saúde e Bem-Estar

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As lesões nos isqueosurais são lesões musculares bem frequentes nos esportes que necessitam de sprints, tais como futebol,1 rugby2 e o futebol americano.3 Por exemplo, no futebol elas representam 37% das lesões musculares.4 E, além disso, representam um dos principais problemas, de reincidências, pois de 12 a 33% dos atletas tiveram uma lesão dos isqueosurais e terão reincidências.5 Apesar de que nos últimos anos tivemos um crescimento no número de pesquisas e também de recursos financeiros para desenvolvê-la, as incidências no futebol tiveram um aumento (4% ao ano) como demonstrou o estudo que esteve com 36 clubes europeus durante 13 temporadas.6

Por isso, em função do tempo de recuperação que um atleta lesionado necessita seja ele esportivo ou econômico, recentemente foi publicado uma revisão narrativa5 na qual participou entre outros Marc Guitart, membro do departamento de desempenho do F.C. Barcelona, além de reconhecidos especialistas como o Dr. Julio Calleja e o Dr. Pedro E. Alcaraz. Eles verificaram possíveis mecanismos que determinam lesões nos isqueosurais.

Em qual das fases existem mais riscos de lesões em uma mecânica de corrida?

Na primeira parte da revisão, os autores aprofundaram os padrões biomecânicos dos sprints submáximos e máximos, destacando os requisitos da cabeça do bíceps femoral, pois é o principal músculo que sofre com as lesões dos isqueosurais.7

Assim como podemos observar na Figura 1, o ciclo da corrida inclui duas fases: a de apoio (stance) e a de sprint (swing). Ao longo de uma corrida, os músculos isqueosurais são submetidos a um ciclo de alongamento-contração e a maioria dos pesquisadores sugerem que é no final da fase de sprint o momento no qual os isqueosurais estão mais suscetíveis à lesões.8,9 Isso pode ser considerado que, assim como foram analisados em diferentes estudos, a máxima atividade muscular acontece na fase final do sprint.10,11 Por outro lado, outro ponto crítico parece ser a atividade que não requer dos isqueosurais durante sprints com máxima velocidade, pois no final da fase a atividade do bíceps femoral aumenta em média 67%, enquanto que o semi-tendinoso e o semimembranoso aumentam cerca de 37%.12 Neste aspecto os pesquisadores especulam que “o aumento desproporcional da exigência do bíceps femoral em velocidades de sprint máximo podem aumentar a tendência de lesões com mais incidências que em outros isqueosurais”.

Figura 1: Fases do ciclo de corrida. Adaptado por Kenneally‐Dabrowski, C. J., et al 2019

Mesmo depois destas evidências, os autores sinalizam que a maioria dos estudos que investigam a mecânica dos isqueosurais foram realizados sob fadiga, apesar de que é um dos principais fatores de risco de lesões nos isqueosurais.13,14 Por isso, estes estudos não relevam os principais mecanismos que incrementam os riscos de lesões: as alterações musculares e funcionais que induzem a fadiga muscular em função das ações com elevadas cargas mecânicas, tais como as desacelerações e ações excêntricas.

Desta forma, parece ser que é durante a fase final do sprint quando existem maiores possibilidades de riscos de lesões, os pesquisadores destacam “que esta suposição foi estabelecida sem contexto geral que uma situação real requer”. Além disso, outras pesquisas indicam fatores que poderiam aumentar os riscos de lesões também durante a primeira fase da corrida, pois existem extensões máximas da pélvis e um pico de força do bíceps femoral durante esta fase.15,16 Por isso, os autores sugerem que em ambas as fases é importante intervir com elementos críticos para a musculatura posterior da coxa. Inclusive um dos estudos publicados em 2017 por Lui e colaboradores17 sugere que estas duas fases poderiam se consideradas como uma só, pois seria reconhecida como período de transição de apoio ao sprint (Figura 2), já que os isqueosurais são fundamentais durante o processo de extensão da pélvis e da flexão dos joelhos durante toda a fase. Com tudo isso, já seja na fase final ou inicial do sprint aumentamos a carga sobre o bíceps femoral o que indica possíveis riscos de lesões.

Figura 2. Características de ativação mecânica e muscular nas principais fases nas que podem existir lesões isqueosurais. Adaptado por Huygaerts S, et al. 2020

Como relacionamos a fadiga e a função de ativação muscular?

Durante uma corrida a velocidade se eleva em um contexto de fadiga e se existir um desequilíbrio entre a velocidade de ativação muscular, os músculos que são ativados com maior intensidade que antes existiria um maior gasto metabólico e levaria a uma maior fadiga. Neste sentido observamos que a medida aumenta a velocidade da corrida, o bíceps femoral é ativado antes que o semitendinoso,10 o que cria padrões complexos para a coordenação neuromuscular que pode aumentar as possibilidades de lesões.

Por outro lado, diferentes padrões de ativação muscular em função da fadiga parecem produzir alterações biomecânicas. Por exemplo, observamos que ao realizar um sprint em condições de fadiga existe a redução do ângulo de flexão da pélvis e dos joelhos no final desta fase. Isso produz uma maior inclinação pélvica,18 alongando o bíceps femoral durante a corrida, expondo-o a possíveis lesões. Outra consequência da fadiga seria a adoção de um padrão de corrida “Groucho running” que é caracterizado pela corrida na qual os joelhos sempre estarão flexionados ao longo do percurso.19 Isto provocaria, de acordo com os especialistas, um aumento do consumo energético durante a corrida, o que reduziria a eficiência do movimento e uma maior carga das unidades musculares que se contraem, sejam músculos isqueosurais ou estruturas adjacentes (ex.: glúteo médio) o que aumentaria os riscos de lesões. Esta alteração na estrutura lombo-pélvica levaria a uma inclinação da pélvis para frente, o que também foi observado como um fator de risco (Figura 3).18

Figura 3. Interações entre a fadiga, a ativação e a função dos músculos isqueosurais. Adaptado por Huygaerts S, et al. 2020

Conclusão

Para finalizar, as alterações nos padrões de ativação muscular podem aumentar o consumo energético nos músculos que recebem mais ativação, como é o caso do bíceps femoral, ao realizar sprints a grande velocidade, o que aceleraria a fadiga muscular. Por outro lado, parece que a fadiga condiciona a biomecânica dos membros inferiores, ao adotar um estilo de corrida com menos eficiência e que com instabilidade lombo-pélvica pode aumentar o comprimento do bíceps femoral, tornando-o mais vulnerável.

Com base em todas as informações expostas, os pesquisadores expuseram que deveríamos desenvolver modelos de pesquisa que possam elucidar esse comprimento das estruturas tendinosas e musculares sob condições de fadiga, pois como já foi estudado, isso é um fator determinante no desenvolvimento dos padrões assincrônicos de ativação muscular e biomecânica. Por isso, destacamos que é importante definir mais precisamente a influência das duas fases do ciclo de corrida para ter um melhor entendimento sobre os mecanismos envolvidos em uma lesão.

 

BIHUB team

 

Referências:

  1. Ekstrand J, Hägglund M, Waldén M. Injury incidence and injury patterns in professional football: the UEFA injury study. Br J Sports Med. 2011
  2. Brooks JHM, Fuller CW, Kemp SPT, Reddin DB. Epidemiology of injuries in English professional rugby union: part 1 match injuries. Br J Sports Med. 2005
  3. Feeley BT, Kennelly S, Barnes RP, Muller MS, Kelly BT, Rodeo SA, et al. Epidemiology of National Football League Training Camp Injuries from 1998 to 2007. Am J Sports Med. 2008
  4. Ekstrand J, Hägglund M, Waldén M. Epidemiology of Muscle Injuries in Professional Football (Soccer). Am J Sports Med. 2011
  5. Huygaerts S, Cos F, Cohen DD, Calleja-González J, Guitart M, Blazevich AJ, et al. Mechanisms of Hamstring Strain Injury: Interactions between Fatigue, Muscle Activation and Function. Sports. 2020;
  6. Ekstrand J, Waldén M, Hägglund M. Hamstring injuries have increased by 4% annually in men’s professional football, since 2001: a 13-year longitudinal analysis of the UEFA Elite Club injury study. Br J Sports Med. 2016;
  7. Askling CM, Tengvar M, Saartok T, Thorstensson A. Acute First-Time Hamstring Strains during High-Speed Running: A Longitudinal Study Including Clinical and Magnetic Resonance Imaging Findings. Am J Sports Med. 2007 Feb 1;35(2):197–206.
  8. Kenneally-Dabrowski CJB, Brown NAT, Lai AKM, Perriman D, Spratford W, Serpell BG. Late swing or early stance? A narrative review of hamstring injury mechanisms during high-speed running. Scand J Med Sci Sports. 2019
  9. Howard RM, Conway R, Harrison AJ. Muscle activity in sprinting: a review. Sport Biomech. 2018
  10. Higashihara A, Ono T, Kubota J, Okuwaki T, Fukubayashi T. Functional differences in the activity of the hamstring muscles with increasing running speed. J Sports Sci. 2010
  11. Higashihara A, Nagano Y, Ono T, Fukubayashi T. Relationship between the peak time of hamstring stretch and activation during sprinting. Eur J Sport Sci. 2016
  12. Silder A, Thelen DG, Heiderscheit BC. Effects of prior hamstring strain injury on strength, flexibility, and running mechanics. Clin Biomech. 2010
  13. Opar DA, Williams MD, Shield AJ. Hamstring Strain Injuries. Sport Med. 2012;42(3):209–26.
  14. Marshall PWM, Lovell R, Jeppesen GK, Andersen K, Siegler JC. Hamstring muscle fatigue and central motor output during a simulated soccer match. PLoS One. 2014;
  15. Mann R, Sprague P. A Kinetic Analysis of the Ground Leg During Sprint Running. Res Q Exerc Sport. 1980
  16. SCHACHE AG, DORN TIMW, BLANCH PD, BROWN NAT, PANDY MG. Mechanics of the Human Hamstring Muscles during Sprinting. Med Sci Sport Exerc. 2012;44(4).
  17. Liu Y, Sun Y, Zhu W, Yu J. The late swing and early stance of sprinting are most hazardous for hamstring injuries. J Sport Heal Sci. 2017;
  18. Small K, McNaughton LR, Greig M, Lohkamp M, Lovell R. Soccer fatigue, sprinting and hamstring injury risk. Int J Sports Med. 2009
  19. Cormack SJ, Mooney MG, Morgan W, McGuigan MR. Influence of Neuromuscular Fatigue on Accelerometer Load in Elite Australian Football Players. Int J Sports Physiol Perform. 2013

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