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September 10, 2021

Futebol

Por que é preciso ser moderado com as análises no futebol?

By David J.T. Sumpter.

Este é o primeiro de uma série de artigos relativos às análises do futebol moderno. Está direcionado às pessoas que trabalham no futebol – treinadores, analistas e jogadores- para aqueles que procuram aplicar os números no futebol- os cientistas de dados e estatísticos – e para os torcedores que querem entender como é que os números influenciam o jogo. Foi escrito para você.

Vamos começar com um ponto fundamental que será utilizado como base destes artigos.

Futebol não é beisebol. Futebol não é basquete. Futebol não é futebol americano. E, com certeza, o futebol não é críquete. Ele é diferente de qualquer outro esporte coletivo porque, sem intenção de ofender os fãs desses outros esportes, o futebol é o mais complexo dos esportes.

O que é que eu quero dizer com complexo? Justamente essa é a definição que vamos revisar neste artigo, porque não é possível achar um jeito de entender o jogo, antes de reconhecermos a verdadeira complexidade do futebol (e como isso o diferencia de outros esportes).

A complexidade é importante para continuar porque, independentemente de ser o diretor técnico de um grande clube, treinar numa equipe de futebol de base ou ser um torcedor que conhece perfeitamente o seu clube, muitas empresas e especialistas vão dizer que podem achar soluções para o futebol. Falam que o produto deles, que mede os objetivos esperados ou a transferência de redes ou dados de treinamento etc., consegue fornecer as informações que você precisa. 

Muitas vezes você pode sentir a inquietude de saber se realmente pode ser tão simples quanto dizem. Quando você pensa em futebol, o sentimento vem do mais profundo do seu ser. É possível sentir os movimentos, visualizar como é um bom futebol, como é ver ou fazer um passe perfeito. O futebol é intuitivo para você, para a sua maneira de pensar e se mover. Você pode ver uma história no jogo. Esse sentimento é futebol.

Sem dúvida esse sentimento não pode ser encerrado por uma medida estatística, por um aplicativo, por uma visualização, por indicadores-chave de desempenho ou por uma equação matemática.

Existe uma concepção moderna de que as ideias pessoais estão erradas e que o certo está nos números. Ao longo da minha carreira no futebol, tenho ouvido frequentemente discursos e apresentações que começam com citações do livro Thinking Slow and Fast (Pensar devagar e rápido), de Daniel Kahneman. A pesquisa dele é excelente: junto com outras pessoas identificaram e documentaram tendências humanas, só que o jeito com que os outros apresentam suas pesquisas geralmente sugere que é nas estatísticas e na lógica (pensamento do tipo 2) que você deve confiar (particularmente nas estatísticas usadas pela pessoa que cita Kahneman), e que precisa ver como parcial ou incompleta a sua intuição e ‘instinto’ (pensamento tipo 1).

Acontece que isso não é o que Kahneman realmente afirma, nem está perto da verdade. De fato, às vezes é o pensamento do tipo 2 que funciona melhor, e outras o pensamento do tipo 1. Vamos ver, por exemplo, o que é conhecido como “mito da mão quente” no basquete, segundo o qual um jogador que acabou de marcar tem mais probabilidade de fazê-lo novamente. A pesquisa inicial sugeriu que essa intuição, compartilhada por fãs, treinadores e jogadores, era um mito: que havia pouca ou nenhuma correlação entre o sucesso de um tiro e o seguinte. Mas a investigação do psicólogo Markus Raab indica um quadro mais sutil: estudos mais amplos identificam uma “mão quente” nos esportes, assim as defesas poderiam se adaptar à mão quente do seu oponente, tornando difícil uma nova marcação para o jogador “quente”. A crença da mão quente é um mito em si mesma! Um mito que surge de excesso de fé no raciocínio analítico e no pensamento tipo 2. 

O trabalho de Raab e do seu colega Gerd Gigerenzer mostra que é nas situações complexas que nosso entendimento heurístico dos acontecimentos torna-se mais útil. Nesses casos, seus sentimentos e intuições podem ser o melhor guia. Por exemplo, a heurística de “pegar o primeiro”, que sugere que os jogadores devem lançar ou dar um passe baseados na primeira escolha aparece na cabeça deles, é amplamente utilizada pelos melhores e mais experientes jogadores profissionais de basquete e handebol. É intuitivo, mas funciona.

E é por isso que precisamos definir a complexidade, porque há uma conexão entre a melhor forma de abordar o estudo de um esporte e a complexidade dele. Quanto mais complexo é um esporte, menos devemos confiar em métodos puramente estatísticos. Isso não significa que devemos seguir nossa intuição, mas sim que é preciso começar sabendo o que queremos dizer ao falar que o futebol é complexo.

Na hora de descrever a complexidade, geralmente fala-se em várias características diferentes. Uma delas é que um sistema complexo não é linear. No futebol, as equipes são mais do que a soma de suas partes; pressionar, por exemplo, só funciona se todos no time pressionam. Outra característica é que os sistemas complexos são abertos, não se fecham para o mundo exterior. Um exemplo são as multidões, que estão retornando aos jogos, representam um fator externo em constante mudança que influencia como os jogadores se sentem e atuam. Pense em algumas das grandes mudanças na fase eliminatória da Liga dos Campeões. Os jogadores não são robôs, são pessoas cujos sentimentos estão interligados com seu desempenho. Outra característica é que os sistemas complexos são históricos. O Barcelona tem um estilo e um jeito de jogar que evoluíram ao longo de décadas e não podem ser simplesmente resumidos em termos de como um determinado passe é feito atualmente.

Mais importante ainda, os sistemas complexos são dinâmicos. Natalia Balagué, professora da Universidade de Barcelona e precursora na ideia de sistemas complexos no esporte, escreve que os exercícios de treinamento para esportes coletivos não devem “informar o atleta sobre uma potência motora teoricamente ideal, mas sim criar tarefas em que a habilidade possa resolver situações em constante mudança”. Balagué cita um importante treinador espanhol que falou da sua equipe: “Quando vejo eles se movendo como um bando de pássaros, sei que eles estão jogando bem.” Sistemas complexos, sejam bandos de pássaros até times de futebol, nunca ficam parados, sempre mudam de forma, mas ao mesmo tempo parecem manter uma estrutura subjacente. 

Imagem 1. Ilustração de como os bandos de pássaros adaptam a sua disposição em forma de V (A) e de grupo (B) levando em conta a aerodinâmica. Obtida de Portugal, S (2020) Current Biology.

Não linear, aberto, histórico e dinâmico… tenta comparar com outros esportes levando em conta esses aspectos: futebol é o esporte mais complexo. 

O cientista cognitivo Abeba Birhane fala que as ferramentas de aprendizado através de máquinas e estatísticas modernas tentam “impor ordem, equilíbrio e estabilidade à natureza ativa, fluida, desajeitada e imprevisível do comportamento humano”. Birhane propõe que essa tentativa acaba fracassando e as consequências muitas vezes podem ser negativas para as pessoas que a aplicam. Aquela ideia do autor vem de uma tradição filosófica que apoia que nunca há uma maneira verdadeira de entender um sistema complexo. Essa mesma percepção, que muitos de nós sentimos, mas achamos difícil expressar, é que faz com que a gente esteja incômodo quando uma empresa ou um indivíduo afirma ter uma solução abrangente para o jogo que amamos. O futebol é muito complexo para ser entendido com um único modelo.

Partindo dos argumentos já expostos, estabelecemos duas coisas: (1) é preciso (em parte) confiar em nossa intuição ao estudar um esporte complexo como o futebol e (2) o futebol é tão complexo que nunca iremos realmente entendê-lo. Daí, como é possível utilizar modelos matemáticos e analíticos para melhorar nossa compreensão do jogo? 

Birhane escreveu recentemente umas threads no Twitter revisando o trabalho de dois filósofos importantes em sistemas complexos, Alicia Juarrero e Paul Cilliers. Esses pensadores complexos enfatizam a moderação que empregamos ao usar modelos matemáticos. Seguindo seus conselhos, precisamos começar por admitir que não existe uma maneira única de entender o futebol (ou qualquer outro sistema complexo) que resolva todos os nossos problemas. Em vez disso, existem diferentes maneiras de ver o jogo: diferentes modelos, diferentes conceitos e diferentes ideias. Não deveríamos argumentar que tudo o resto está errado, mas pelo contrário identificar diversas maneiras de estar certo, em parte, às vezes.

É isso precisamente o que farei nos artigos desta série. Vou descobrir jeitos em que possamos ter parte da razão, às vezes, sobre o complexo jogo de futebol. Isso vai nos levar aos modelos de desempenho de equipe, recrutamento de jogadores, movimentos sem a bola, formações, tiros livres e pênaltis. Veremos o impacto que Billy Beane, de Moneyball, tem sobre o time do campeonato inglês Barnsley, os últimos avanços na coleta de dados, e vamos descobrir quando é que o futebol é caótico (e quando não é). Além disso, analisaremos se o Google pode ou não “encontrar soluções para o futebol” conforme declarou Go and Chess, como é o trabalho de um cientista de dados de futebol nos clubes (e como devia ser) e muitas outras questões.

Isto não vai ser apenas uma visão, senão muitas visões do jogo: o jogo complexo, o mais complexo de todos.

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