26 February, 2019

PODERÃO AS CAPACIDADES MENTAIS DO FUTEBOLISTA INFLUENCIAR O RISCO DE LESÃO?

Rendimento Desportivo
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Johan Cruyff dizia que “o futebol é um desporto que se joga com o cérebro”. Durante um jogo, ocorrem diversos tipos de situações e estímulos que a mente do futebolista tem de processar. A sua resposta dependerá, em boa parte, do seu rendimento, o que explica porque é que os melhores jogadores não são só os que têm mais talento e conhecimento tático do jogo, mas também são aqueles que possuem capacidades mentais suficientes para superar o resto.

Apesar de ainda não merecerem o devido valor, essas capacidades já são consideradas uma parte relevante do rendimento. Mas a sua importância poderia estender-se ainda mais: será que não afetam também o risco de lesão e de recorrência de lesão quando o jogador volta a jogar? É essa a ideia que defende um editorial publicado na revista Apunts. Medicina de l´Esport, em que participaram Ricard Pruna, diretor dos serviços médicos do F.C. Barcelona.

 

Estratégias de capacidade mental

A inteligência no jogo engloba muitos parâmetros. Por exemplo: o tempo de reação, a memória, a perceção do tempo e do espaço, a atenção ou a capacidade de tomada de decisões. Muitos desses parâmetros — especialmente o último — sofrem alterações em situações de stress continuado, que, segundo observaram vários estudos, aumenta consideravelmente o risco de lesão. Com efeito, uma diminuição no rendimento cognitivo pode levar a mudanças na biomecânica e na correta execução das ações necessárias durante um desafio.

 “Quando falamos de capacidades mentais, referimo-nos tanto às capacidades de perceção de estímulos (visuais, sonoros) como às capacidades cognitivas que implicam um processo mais integrado de formação de padrões a partir desses estímulos”, explica Pruna. Para as potenciar e, assim, aumentar o rendimento e diminuir o risco de lesão, o editorial apresenta diferentes estratégias a distintos níveis.

É importante treinar não só a capacidade de prestar atenção, mas também a capacidade de mudar o enfoque da atenção. Num jogo, em certas situações, os jogadores devem dirigir a sua atenção para zonas muito amplas e, noutras, devem concentrá-la  em parcelas muito mais delimitadas. Também é preciso ter especial cuidado com o estado emocional, dentro e fora do campo. A probabilidade de lesão é maior nos jogadores que se sentem deprimidos, que estão zangados ou, até, que sofrem de nostalgia. No momento do jogo, podem utilizar-se ferramentas de diálogo interno — utilizando palavras ou frases “gatilho”, por exemplo — que permitam afastar os pensamentos negativos ou criar períodos de descanso mental.

Também pode ser vantajoso implementar estratégias de visualização e relaxamento. As primeiras contribuem para a formação de memórias de padrões corporais. As segundas podem ser úteis em diversos contextos, tanto relacionados com o jogo como durante a recuperação de lesões. Até pode ser vantajoso prestar atenção à dor. Há a visão tradicional de que jogar com dores é positivo, e a verdade é que direcionar a atenção para a dor, tanto na recuperação como no próprio jogo, pode melhorar a autocalibração do risco.

Não se dispõe de provas sólidas sobre a utilidade dessas técnicas, só de indícios. Um deles é referido num estudo sueco que se propôs a avaliar vários princípios. Selecionaram-se 32 jogadores de alto nível cujo estado psicossocial poderia aumentar o risco de lesão. Metade participou num programa de intervenção para treinar seis capacidades mentais (incluindo a atenção, o relaxamento e a gestão do stress), em 6-8 sessões distribuídas por 4-5 meses. Durante esse período, só se produziram três lesões em três jogadores, comparando com as 21 lesões de 13 dos jogadores que não participaram no programa.

 

No F.C. Barcelona

Os serviços médicos do clube estão a aplicar vários desses princípios, especialmente durante a recuperação de lesões. “Utilizamos circuitos de luzes aleatórias, que produzem uma sobrecarga ou uma sucessão de estímulos para treinar a atenção”, explica Pruna. “Também utilizamos técnicas de visualização, trabalhos de proprioceção ou de estímulos anímicos positivos.” Para estudar o stress fisiológico, “medimos não só a carga externa aplicada com dispositivos GPS, mas também a carga interna através do método de avaliação de esforço percebido aprovado pela UEFA ou através de marcadores sanguíneos de fadiga, como a ferritina e a interleucina-1, entre outros”.

Na aplicação dessas ferramentas também se tem em conta o perfil do jogador. “Há jogadores a que chamamos campo-independentes”, comenta Pruna. “São muito criativos e têm uma grande capacidade de gerar padrões de ação. Por outro lado, também há os campo-dependentes, que são menos criativos e tendem a copiar os padrões dos outros jogadores. Esses necessitam de treinar mais a atenção e a visualização durante a recuperação, para não perderem capacidades e para se reduzir o risco de lesão quando voltarem a jogar.”

“No clube, registamos muito poucas lesões recorrentes e pensamos que um dos motivos possa ser a atenção que prestamos a essas capacidades. A incorporação dessas técnicas no processo de recuperação dá força à ideia de que elas influenciam realmente o risco de lesão. Além disso, permitem que os jogadores se reintegrem e apresentem logo um alto rendimento”, conclui Pruna.

 

 

A equipa do Barça Innovation Hub

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