5 April, 2019

OS CENÁRIOS DE MÁXIMA EXIGÊNCIA EM JOGOS DE POSIÇÃO SÃO REPRODUZIDOS DE IGUAL MANEIRA EM TODAS AS DEMARCAÇÕES?

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Com o objetivo de descrever a resposta condicional dos jogadores em competição como, por exemplo, a distância em corrida, está sendo usado o valor médio percorrido (em metros por minuto) durante uma parte ou partida completa. Posteriormente, períodos mais curtos da partida começaram a ser tomados (por exemplo, 15 min em Robinson, O’Donoghue, Wooster, 2011 ou 5 min em Bradley e Noakes, 2013), com os quais foram revelados períodos mais intensos. Contudo, foi comprovado recentemente (Gabbet et al., 2016) que estes valores, tomados de períodos estáticos, poderiam não representar os cenários de máxima exigência, ou “EME”. Recentemente, a aplicação da técnica rodante (Varley et al., 2012) permitiu constatar a presença de cenários mais exigentes, a partir do ponto de vista condicional, que os valores médios usados até agora (Serão os jogos reduzidos a solução para todos os nossos problemas?).

Com esta técnica se transfere, segundo a segundo (ou frame a frame, em inglês, conforme a unidade de amostra), o período ou intervalo escolhido (por exemplo, 1, 3, 5 ou 10 min), detectando os valores mais altos da(s) variável(is) física(s) tomada(s) como referência (por exemplo, distância percorrida acima de 14 Km·h-1). As duas magnitudes, o período ou a janela de tempo estabelecido e a variável de rendimento físico escolhida, seguem a relação matemática representada pela lei potencial ou Power Law (Katz y Katz, 1999). À medida que a janela for maior, o valor relativo da variável condicional se reduz. No futebol, por exemplo, quando a janela é próxima dos 15 minutos, os valores na variável condicional são muito similares aos valores médios de uma parte ou da partida completa (Lacome et al., 2018).

Os cientistas do esporte, além de se afinarem na descrição dos EME (Martín-García et al., 2018), começam a mostrar interesse em saber se o processo de treino é capaz de reproduzir estes cenários. Concretamente, eles se perguntam se existem tarefas jogadas que permitem essa reprodução (Lacome et al., 2018). Neste contexto, o trabalho apresentado explora esta temática aplicando dois aspectos originais: em primeiro lugar, conectando os EME de várias variáveis simultaneamente e, em segundo lugar, os EME dos jogos posicionais foram comparados em termos relativos aos EME registrados por cada jogador em competição (por exemplo, distância percorrida em % com relação a seu EME em competição para essa mesma variável).

Os participantes foram 21 jogadores da equipe reserva do Barça durante a temporada 2015-16, que foram divididos nas demarcações habituais: defesa central (CD, n=4), defesa lateral (FB, n=6), meio de campo (MF, n=3), meio de campo ofensivo (OMF, n=3) e atacante (FW, n=5). As janelas de tempo e os jogos de posição estudados foram: 1) janelas de 5 min para os jogos reduzidos (SSG) [SSG5, jogadores por equipe = 5, goleiros = 2, dimensões = 33*40 m e duração = 6 ±1 min; SSG6, jogadores por equipe = 6, goleiros = 2, coringas = 1, dimensões = 33*40 m e duração = 6 ±1 min] e de 10 min para os jogos longos (LSG) [SSG9, jogadores por equipe = 9, goleiros = 2, dimensões = 72*65 m e duração = 12 ±3 min; SSG10, jogadores por equipe = 10, goleiros = 2, dimensões = 105*65 m e duração = 11 ±3 min] e para as partidas de competição, que tiveram uma janela temporal de 45 min. As variáveis analisadas foram representativas dos diferentes sistemas de movimento (locomotor, mecânico e energético), bem como a distância total percorrida ou a percorrida em alta velocidade, acelerações/desacelerações ou variáveis relacionadas à potência metabólica, respectivamente. Os principais resultados são mostrados nas seguintes três figuras (1, 2 e 3). Os gráficos representam a porcentagem com respeito aos períodos de máxima exigência da partida com relação a distância em metros por minuto (Figura 1), distância a mais de 25 Km·h-1 (Figura 2) e número de acelerações ou ACC (Figura 3). A linha pontilhada vermelha representa 100%, ou seja, marca o limite onde seriam reproduzidos os EME da competição.

Figura 1. Porcentagem com respeito ao EME da partida com relação à distância em metros por minuto.
Figura 2. Porcentagem com respeito ao EME da partida com relação à distância em metros em alta intensidade (>25 Km·h-1).
Figura 3: Porcentagem com respeito ao EME da partida com relação ao número de acelerações.

As principais conclusões do estudo foram as seguintes:

 

  • Os diferentes formatos de jogo reproduzem em diferente magnitude os EME de competição, sendo particular para cada uma das demarcações do jogo.
  • Em todas as variáveis, os valores médios obtidos de 45 min que uma parte dura estão abaixo nos EME (de 70% a 80%), na janela de 10 min, da competição.
  • À medida em que os formatos de jogo são maiores, as demandas de distância total percorrida e a percorrida acima de 25 Km/h aumentam. Contudo, as demandas com respeito à competição na variável ACC (e desaceleração ou DEC) aumentam quando os formatos de jogo são reduzidos.
  • Os LSG10 jogados com uma duração de 10 min reproduzem a maioria das demandas dos EME, conseguindo demandas de sprint superiores, enquanto nos formatos com menor número de jogadores são as variáveis ACC e DEC as que ficam superestimuladas de maneira importante (> 120%).
  • As demandas, em termos relativos à competição de cada jogador, relacionadas aos EME da competição, são particulares. Quando os formatos são pequenos (SSG5 e SSG6), aparecem maiores diferenças entre demarcações nas variáveis ACC e distância total.
  • Se o objetivo for atingir EME mais exigentes que os de competição, os formatos de jogo não devem ser prolongados por mais que os 15 min nas durações das partidas de treino ou LSG10.

 

É necessário mais informação sobre os EME da competição e observar se os formatos jogados são capazes de reproduzi-los. Sua aplicação está relacionada ao mitridatismo ou à autoproteção destes EME, sendo sua tolerância obtida a partir de acostumar-se a eles. É daqui que surge a necessidade de propor no processo de treino contextos em que estes cenários emerjam (por exemplo, elaborar tarefas específicas), dando a oportunidade para que o jogador fique imune e possa encarar, com garantias (por exemplo, reduzindo o risco de lesão) a este tipo de cenários de alta exigência condicional que possam surgir em competição.

 

Artigo original

Martín-García, A., Castellano, J., Gómez, A., Cos, F., e Casamichana, D. (2019). Positional demands for various-sided games with goalkeepers according to the most demanding passages of match play in football. Biology of Sport, 36(2), 171–180.

 

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Referências

  1. Bradley PS. e Noakes TD. (2013) Match running performance fluctuations in elite soccer: indicative of fatigue, pacing or situational influences? Journal of Sports Sciences 31, 1627-1638.
  2. Gabbett TJ, Kennelly S, Sheehan J, Hawkins R, Milsom J, King E, Ekstrand J. If overuse injury is a ‘training load error’, should undertraining be viewed the same way? Br J Sports Med. 2016;50:1017-1018.
  3. Katz J, Katz L. Power laws and athletic performance. J Sports Sci. 1999;17(6):467-476.
  4. Lacome M, Simpson BM, Cholley Y, Lambert P, Buchheit M. Small-Sided Games in Elite Soccer: Does One Size Fit All? Int J Sports Physiol Perform. 2017;1-24.
  5. Martín-García A, Casamichana D, Díaz, AG, Cos F, Gabbett, TJ. Positional Differences in the Most Demanding Passages of Play in Football Competition. J Sports Sci Med. 2018;17(4):563.
  6. Robinson G, O’Donoghue P, Wooster B. Path changes in the movement of English Premier League soccer players. J Sports Med Phys Fitness. 2011, 51(2):220-6.
  7. Varley, M.C., Elias, G.P. e Aughey, R.J. (2012) Current match-analysis techniques’ underestimation of intense periods of high-velocity running. International Journal of Sports Physiology and Performance 7, 183-185.

 

Julen Castellano

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