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May 10, 2021

O FENÔMENO EFEITO DA IDADE RELATIVA NA IDENTI IDENTIFICAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO TALENTO ESPORTIVO

Rendimento Desportivo

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A explicação de quem chega ao topo no mundo do esporte é mais complexa do que possa parecer. Muitas vezes, a fórmula do sucesso nos é apresentada como uma combinação de talento, esforço e, em uma proporção menor, estar no lugar certo no momento certo, ou seja, ter sorte. Entretanto, há um fator pouco ou dificilmente comentado e que muitas vezes faz a diferença entre o sucesso e a queda ao longo da trajetória. Por incrível que possa parecer, é exatamente o mês do ano em que você nasce.

Nos anos 80, Roger Barnsley, psicólogo canadense, percebeu que, nas principais ligas juvenis e profissionais de hóquei no gelo de seu país, 42% dos atletas haviam nascido no primeiro trimestre do ano, 30% no segundo trimestre, 19% e 9% no terceiro e quarto trimestres, respectivamente.1 Assim, descobriu-se que havia um número significativo de atletas profissionais de hóquei no gelo nascidos nos três primeiros meses do ano. Os atletas das ligas juvenis tinham 5 vezes mais chances de haver nascido no mês de janeiro do que em dezembro.1 Assim, podemos partir da princípio de que atletas nascidos no início do ano seriam mais talentosos? A resposta é obviamente não. Entretanto, há explicações para esse processo. Nesta mesma avaliação realizada no Canadá e de um modo geral, o limiar para posicionar uma categoria compreende o período de 1 de janeiro a 31 de dezembro de cada ano. Portanto, as crianças que apresentam um ano inteiro de maturação podem competir entre si. Em uma idade precoce, um ano de diferença demanda grandes variações no desenvolvimento físico, amadurecimento, social e afetivo dos jovens atletas. Esta realidade resulta em que atletas mais velhos comecem a se destacar mais cedo, assim, é muito provável que o técnico ofereça mais oportunidades a esses atletas, pois acumula mais minutos de jogo e, consequentemente, experiências, ao criar um cenário com melhores possibilidades de serem escolhidos por suas equipes nacionais, onde serão treinados pelos melhores técnicos, competindo com os melhores adversários, treinando nos melhores campos, e por fim, jogando 20, 30 ou 40 jogos a mais por temporada se comparado aos seus colegas de equipe nascidos nos últimos meses do ano.

Este fenômeno também ocorre no futebol, onde a data limite para a seleção de atletas por faixa etária foi fixada em 31 de julho. Assim, no início dos anos 90, enquanto Barnsley revisava as datas de nascimento dos atletas das equipes participantes da Copa do Mundo de 1990 e dos campeonatos mundiais sub-17 e sub-20, descobriu que os atletas das equipes envolvidas nesses campeonatos eram nascidos preferencialmente no mês de agosto, coincidindo novamente com o primeiro mês na distribuição por categorias anuais.2 Da mesma forma, se observarmos as equipes esportivas dos 3 últimos campeões mundiais de futebol, Espanha em 2010, Alemanha em 2014 e França em 2018, respectivamente, notamos que, em sua maioria, as equipes espanholas e francesas eram compostas por atletas nascidos no primeiro trimestre / quadrimestre (até 35% em ambos os casos), o que não acontece na equipe alemã, onde quase não havia diferença entre os 3 primeiros trimestres (Figura 1).

Figura 1. Quadrimestre de nascimento dos atletas que fizeram parte das equipes vencedoras das últimas 3 Copas do Mundo (Espanha em 2010, Alemanha em 2014 e França em 2018). Fonte: Autoria própria.

 

Por outro lado, se analisarmos o trimestre de nascimento dos atletas profissionais do futebol que fizeram parte das equipes da La Liga durante os últimos 10 anos, de acordo com sua nacionalidade, podemos constatar que há uma predominância entre os nascidos principalmente no primeiro trimestre / quadrimestre, seguidos pelos nascidos do segundo trimestre, sendo particularmente evidente na análise geral, sem distinção entre país de origem e nacionalidade entre os atletas espanhóis (Figura 2).

Figura 2. Quadrimestre de nascimento dos atletas profissionais do futebol que participaram da La Liga durante os últimos 10 anos com base em sua nacionalidade. Fonte: Autoria própria.

 

Efeito da idade relativa no esporte de base

Este fenômeno, definido por Roger Barnsley como Efeito da idade relativa, faz referência a diferença de idade entre indivíduos que foram agrupados para um determinado objetivo ou função.1,3 No esporte de base, as categorias são definidas por faixa etária, o que aponta a importância deste fenômeno, sendo significativamente crítico entre 15 e 18 anos.4 Nestas circunstâncias, os atletas do primeiro e segundo quadrimestre, ou seja, os nascidos entre os meses de janeiro e junho, apresentam maiores probabilidades de serem identificados como talentosos e, assim, podem ser selecionados por equipes de maior nível, em virtude das possíveis vantagens de crescimento e maturidade biológica que apresentam sobre seus colegas mais jovens.5–7 Como resultado, há uma incidência maior de desistências entre os atletas nascidos nos últimos meses do ano.5 Portanto, as implicações que o efeito da idade relativa (EIR) pode ter no esporte de base são muitas e de grande importância para o futuro esportivo dessas crianças e do esporte em geral. Esta situação não ocorre da mesma forma nos esportes individuais ou naqueles onde não há seleção, ou ainda onde a inclusão no jogo e no aprendizado é livre e ativo durante a infância e a adolescência.8

Este fenômeno contradiz especialmente um dos principais objetivos do esporte de base, que é o de permitir e estimular o desenvolvimento de atletas profissionais de futebol que sejam talentosos. O efeito da idade relativa, juntamente com a valorização excessiva da importância do resultado nestas categorias, contribui com perdas de oportunidades e de atletas talentosos, porém um tanto imaturos.7,9 Na verdade, podemos dizer, menos estimulados. Assim, parece haver uma tendência importante no processo de identificação e desenvolvimento de talentos associado ao fenômeno conhecido como efeito da idade relativa. Não significa que aqueles atletas selecionados pertencentes aos primeiros quadrimestres não sejam melhores, não é o caso, queremos dizer que o problema é, sem dúvida alguma, a perda de atletas que poderiam ser tão bons e até melhores do que aqueles selecionados, isto se tivessem aproveitado das mesmas oportunidades e experiências de alto nível.

Nesta perspectiva, o FC Barcelona é uma organização esportiva que fundamenta o processo de identificação de talentos não apenas nos aspectos físicos, mas também em elementos técnicos, psicológicos e perceptivo-cognitivos. Além disso, o FC Barcelona apresenta um modelo profissional poliesportivo, onde é possível pesquisar diversas modalidades de esportes de equipe como basquete, futebol, futsal, handebol e hóquei sob patins, assim como faixas etárias, com o objetivo de avaliar a predominância do efeito da idade relativa em um determinado contexto esportivo, como do FC Barcelona, onde condições técnicas, psicológicas, processos perceptivo-cognitivos além do aspecto físico são elementos essenciais se analisarmos do ponto de vista de identificação e desenvolvimento de talentos.

Pesquisa do efeito da idade relativa no FC Barcelona

Em uma pesquisa que envolveu membros do Departamento de ciências do esporte e saúde do FC Barcelona juntamente com cientistas internacionais, realizaram diversos estudos sobre o efeito da idade relativa em várias de suas modalidades profissionais como o futebol masculino e feminino, basquete, futsal, handebol, hóquei sob patins masculino e as categorias de faixa etária (sub-10, sub-12, sub-14, sub-16, sub-18 e sênior).10

É notável o fato de que, em todas as modalidades, exceto no futebol feminino, predomina o efeito da idade relativa, com a maior porcentagem de atletas profissionais de futebol, nascidos no primeiro trimestre/quadrimestre assim como há uma diminuição progressiva na porcentagem à medida que o ano avança. No caso do futebol feminino, as atletas nascem principalmente no segundo trimestre do ano (32,5%), em comparação com o primeiro trimestre (30,1%). Além disso, o efeito da idade relativa é mais expressivo entre os atletas profissionais do futebol do sub-10, enquanto do sub-12 ao sub-18 este efeito se mostra em menor escala, desaparecendo assim com o aumento da idade. Em resumo, notamos uma tendência contínua a favor de atletas nascidos nos primeiros meses do ano, e, particularmente, daqueles nascidos no primeiro trimestre, com maiores probabilidades de que isto ocorra entre as faixas etárias mais jovens dentro do basquete e do futebol masculino.10

Além do Efeito da idade relativa a partir dos 11 anos, é necessário avaliar o efeito da maturidade biológica e óssea que identificará ainda mais variações de aprendizado e desenvolvimento, mas isso é uma outra história.

Conclusões

Apesar do modelo de identificação e desenvolvimento de talentos do FC Barcelona priorizar, além da parte física, aspectos técnicos, psicológicos e processos perceptivo-cognitivos, o fenômeno do efeito da idade relativa também ocorre nas categorias inferiores até as de base (sub-18), demonstrando a existência de uma tendência na seleção de atletas nascidos nos primeiros meses do ano, particularmente, dentro de faixas etárias mais jovens e em esportes como o basquete e o futebol masculino. Ao considerarmos a filosofia do FC Barcelona, que prepondera fatores de aprendizagem neuromotora, estes resultados levantam a questão sobre o efeito da idade relativa, se este fenômeno tem ou não a ver com algo muito mais além do que a superioridade física atribuída à diferença de idade cronológica e se este deve ou não estabelecer um modelo para que não haja possíveis perdas de talentos aplicáveis no futuro.

 

Javier S. Morales

 

 

Referências:

  1. Barnsley, R., Thompson, A. & Barnsley, P. Hockey success and birthdate: the relative age effect. J. Can. Assoc. Heal. Phys. Educ. Recreat. 51, 23–28 (1985).
  2. Barnsley, R. H., Thompson, A. H. & Legault, P. Family Planning: Football Style. The Relative Age Effect in Football. Int. Rev. Sociol. Sport 27, 77–87 (1992).
  3. Thompson, A. H., Barnsley, R. H. & Stebelsky, G. “Born to Play Ball” The Relative Age Effect and Major League Baseball. Sociol. Sport J. 8, 146–151 (2016).
  4. Cobley, S., Baker, J., Wattie, N. & McKenna, J. Annual Age-Grouping and Athlete Development. Sport. Med. 39, 235–256 (2009).
  5. Helsen, W. F., Starkes, J. L. & Van Winckel, J. The Influence of Relative Age on Success and Dropout in Male Soccer Players. Am. J. Hum. Biol. 10, 791–798 (1998).
  6. Helsen, W. F., Van Winckel, J. & Williams, A. M. The relative age effect in youth soccer across Europe. J. Sports Sci. 23, 629–636 (2005).
  7. Bezuglov, E. N. et al. Prevalence of relative age effect in russian soccer: The role of chronological age and performance. Int. J. Environ. Res. Public Health 16, (2019).
  8. Esteva, S., Drobnic, F., Puigdellivol, J., Serratosa, L. & Chamorro, M. Fecha de nacimiento y éxito en el baloncesto profesional. Apunt. Med. l’esport 41, (2006).
  9. Figueiredo, A. J., Gonçalves, C. E., Coelho e Silva, M. J. & Malina, R. M. Characteristics of youth soccer players who drop out, persist, or move up. J. Sports Sci. 27, 883–891 (2009).
  10. Doncaster, G., Medina, D., Drobnic, F., Gómez-Díaz, A. J. & Unnithan, V. Appreciating Factors Beyond the Physical in Talent Identification and Development: Insights from the FC Barcelona Sporting Model. Front. Sport. Act. Living 2, 1–9 (2020).

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