24 September, 2018

NUTRIÇÃO DE RECUPERAÇÃO PARA O FUTEBOL: CONSTRUÇÃO DE UMA EQUIPA

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Conferência sobre Nutrição Desportiva do GSSI e do FCB: “Nutrição de Recuperação para o Futebol”

Rollo, I* e van Loon, L.J.C

 

Ao longo da história do futebol, a nutrição manteve-se na base da lista de prioridades de técnicos e médicos, na preparação dos jogadores para a competição.  A expressão “construção de uma equipa” refere-se geralmente ao recrutamento de novos jogadores e pessoal e à experimentação de táticas, com vista a desempenhos vitoriosos.  Contudo, quando literalmente interpretada, sugere que o nutricionista desportivo é quem poderá ter maior influência na “construção” de uma equipa de sucesso.

As técnicas desenvolvidas para rotular intrinsecamente a proteína deram provas de que o corpo humano  utiliza os alimentos ingeridos na construção de novos tecidos(van Loon et al., 2009; Pennings et al., 2011). Desse modo, o corpo do futebolista resulta dos alimentos e nutrientes que ele ingere diariamente. Além disso, os métodos dos isótopos estáveis permitiram a quantificação direta das taxas de síntese proteica de vários tecidos corporais e o cálculo das taxas de renovação (Koopman et al., 2006). Subsequentemente, sabemos que o corpo do futebolista se encontra num constante estado de fluxo e que os tecidos vitais, como o músculo esquelético, sofrem um processo contínuo de degradação e ressintetização.

No futebol profissional, as exigências físicas dos jogos intensificaram-se(Bush et al., 2015). Além disso, a combinação da sobrecarga de jogos e de períodos curtos de recuperação entre os desafios contribui para o aumento do risco de lesão (Dellal et al., 2013) e a redução do desempenho físico (Rollo et al., 2014).  O objetivo da conferência de hoje é aliar a teoria da nutrição de recuperação à prática . Mais especificamente, a “ciência” da nutrição desportiva fornece provas e razões para fundamentar as estratégias “práticas” de nutrição de recuperação. Aqui, apresentamos as duas sessões da conferência, uma sobre proteína e outras sobre a hidratação, e debatemos a relevância da nutrição na “construção de uma equipa”.

 

A proteína

A conferência começará por abordar o tema da proteína. No corpo do jogador, as proteínas são constantemente decompostas em aminoácidos, que ficam disponíveis para a síntese de outras proteínas. Os novos aminoácidos são aportados pela nutrição, enquanto o aminoácidos em excesso são ora oxidados ora metabolizados em ácidos gordos ou glucose . Tecido importante, o músculo é responsável por 25-30% do metabolismo proteico do corpo no seu todo. A quantidade de músculo esquelético dependerá da dimensão e da composição corporais do jogador. Dois exemplos de proteína são as fibras contráteis dos músculos e as enzimas necessárias para as reações bioquímicas no corpo do jogador. Um jogador do sexo masculino, médio, com 70 kg, contém aproximadamente 12 kg de proteína e 220 g de aminoácidos livres.

Muitas das adaptações que nos interessam para promover o desempenho futebolístico ocorrem no próprio músculo. O equilíbrio do ciclo de síntese e degradação proteica dita a ocorrência da síntese proteica líquida. Se as taxas de degradação proteica forem superiores às taxas de síntese proteica, o conteúdo proteico sofre uma redução; em contrapartida, o conteúdo de proteína muscular só pode aumentar se a taxa de síntese exceder a taxa de degradação. As investigações centraram-se maioritariamente na síntese proteica, mas ambos os processos (de degradação e síntese) são importantes. Crê-se que a síntese proteica seja o principal motor do equilíbrio proteico positivo, porque a degradação proteica não sofre tantas alterações. Por outro lado, também se crê que a degradação proteica é importante, porque remove as proteínas danificadas e permite a sintetização de novas proteínas. Assim, o segredo para uma célere recuperação é aumentar a renovação proteica (tanto a síntese como a decomposição), em vez de só reduzir a decomposição (Phillips e Van Loon 2011; Phillips 2014).

O músculo esquelético tem uma taxa de renovação de cerca de 1-2% por dia. Teoricamente, portanto, os músculos das pernas que o jogador mobiliza, por exemplo, para se deslocar, passar a bola e marcar um golo, “renovar-se-iam” totalmente no espaço de seis semanas. Na época de competição, pois, o sistema muscular do jogador, no seu todo, pode ser decomposto e reconstruído aproximadamente seis vezes.  As diretrizes de consumo diário de proteína para um jogador com 70 kg variam, entre 1,3 e 1,8 g/ kg por dia (Phillips e Van Loon 2011). Isso equivale a cerca de 120 g de proteína, dividida em seis refeições de cerca de 20 g de proteína cada, a intervalos de cerca de 3 horas (Phillips e Van Loon 2011). Contudo, é possível acelerar a resposta proteico-sintética pós-exercício, otimizando a quantidade (Moore 2015), o horário (Tipton 2007; Tipton et al., 2007; Beelen et al., 2008) e a qualidade (van Loon 2012) do consumo proteico depois dos treinos e dos jogos.

 

Os tecidos tendinoso e conjuntivo

Os tendões e os tecidos conjuntivos, como os ligamentos, são vitais para o desempenho futebolístico, porque são estes tecidos que unem o sistema músculo-esquelético e estabilizam o movimento nas articulações. As distensões e os entorses dos tecidos moles (tendões e ligamentos) perfazem mais de 60 % do total das lesões reportadas na Primeira Liga Inglesa(Hawkins et al., 2001). A fisiologia tendinosa e ligamentosa é diferente da fisiologia muscular (Kjaer et al., 2009). Isso deve-se ao facto de os tendões e os ligamentos terem um fluxo sanguíneo limitado e dependerem do aporte de nutrientes que fluem em grandes volumes no sangue (Baar 2015). A renovação tendinosa é significativamente mais reduzida do que a renovação muscular.

Não obstante, há provas iniciais indicadoras de que a nutrição pode aumentar as oportunidades de reabilitação do tecido tendinoso. Isso deve-se ao facto de a proteína ingerida poder complementar os sucessivos anéis de colagénio que envolvem o núcleo, fortalecendo a estrutura. Mais concretamente, há indícios de que a ingestão de gelatina aumenta eficazmente as concentrações dos aminoácidos glicina, prolina, hidroxiprolina e hidroxilisina em circulação (Shaw et al., 2016). Em acréscimo, a ingestão de gelatina (15 g ingerida com 50 mg de vitamina C), 1 hora antes do exercício, demonstrou aumentar os marcadores sanguíneos (propeptídeo amino-terminal do colagénio tipo I) relacionados com o aumento da síntese do colagénio (Shaw et al., 2016). Embora ainda seja necessário fazer mais investigações, a ingestão de gelatina é uma intervenção nutricional promissora para melhorar a função dos tecidos conjuntivos e acelerar a recuperação das lesões músculo-esqueléticas. Esta intervenção poderá também assumir uma grande relevância para as populações que sofrem uma incidência elevada de lesões ligamentosas, como é o caso das futebolistas (Celebrini et al., 2012; Celebrini et al., 2014; De Ste Croix et al., 2015).

Dada a taxa reduzida de renovação tendinosa, os jogadores manterão provavelmente a mesma proteína tendinosa “nuclear”, entre os 17 e os 70 anos (Heinemeier et al., 2013). Isso significa que os jogadores terão os mesmos tendões, não só durante uma época, mas, até, ao longo de toda a sua carreira na competição. No entanto, os estudos que proveram a prolina de vitamina C reportaram melhorias na síntese do colagénio (Paxton et al., 2010), o que confirma a possibilidade de se estimular a reabilitação no decurso da época, com medidas adequadas de carga e nutrição(Shaw et al., 2016).

Figura 1. Reabilitação do tecido do jogador em época de competição

 

A hidratação

À tarde, a terceira sessão da conferência centra-se na hidratação e no reabastecimento. A quantidade de água que um jogador tem no corpo dependerá da sua dimensão e da sua composição corporais. Quantidades superiores de massa magra estão associadas a volumes superiores de água corporal. Desse modo, o volume de água corporal dos jogadores pode variar, aproximadamente, entre 30 l e 50 l, perfazendo 55-70 % da respetiva massa corporal  (Wang et al., 1999). O volume de água corporal dos jogadores saudáveis está bem regulado (Raman et al., 2004). Contudo, quanto maior for a sua participação em treinos e jogos, maior será a sua necessidade de renovação de líquidos. Isso deve-se ao facto de, em ambientes frios e quentes, a sudorese ser o principal mecanismo para dissipar o calor metabólico gerado em consequência da prática desportiva do futebol (Ekblom 1986; Shirreffs et al., 2005). As taxas de sudorese reportadas nos jogadores variam entre 0,5 l·h-1 e 2,5 l·h-1 (Broad et al., 1996; Maughan et al., 2005; Shirreffs et al., 2005; Da Silva et al., 2012; Baker et al., 2016; Nuccio et al., 2017).

Se partirmos de um volume total de água corporal superior, isto é, de 50 l, num ambiente fresco de treino de baixa intensidade, o corpo renovaria os níveis totais de água, após 100 horas de jogo. No entanto, em jogos que decorram em ambientes quentes, a uma modesta taxa de sudorese de 1,5 l·h-1, a renovação dos níveis totais de água ocorreria ao fim de aproximadamente 33 horas de jogo. Na prática, o volume total de água corporal teria de ser renovado em menos de quatro semanas, para um jogador que fizesse dois jogos por semana e uma sessão de treino de um hora entre os jogos. Numa época de 38 semanas, portanto, o volume total de água corporal poderá renovar-se, pelo menos, dez vezes.

Tanto a hipohidratação aguda como a crónica, equivalente a um défice de >2-3 % da massa corporal pré-exercício, poderão, durante o exercício, aumentar a tensão cardiovascular (Armstrong et al., 1997), comprometer a função cognitiva (Ganio et al., 2011; Nuccio et al., 2017) e aumentar a perceção do esforço (McGregor et al., 1999). Isso poderá traduzir-se num desempenho futebolístico técnica (Mohr e Krustrup 2013) e fisicamente reduzido (McGregor et al., 1999). Para o evitar, após o exercício, os jogadores devem procurar compensar quaisquer défices de líquidos (Maughan e Leiper 1995). Em geral, basta práticas normais de alimentação e hidratação para estabelecer a euhidratação. Durante a pré-época ou nos períodos de sobrecarga de jogos, porém, é possível conseguir uma hidratação rápida e completa, bebendo 1,5 l de um líquido contendo sódio por cada quilo de perda de massa corporal do jogador (Thomas et al., 2016). Estratégias, como a de pesar os jogadores à entrada e à saída dos treinos, permitem a elaboração de planos de hidratação personalizados e, portanto, a monitorização da renovação de líquidos (Maughan e Shirreffs 2008).

 

O cérebro

O cérebro é um órgão vital para o desempenho futebolístico, mas o seu papel tende a ser esquecido. Este artigo não visa abordar questões associadas à psicologia do jogador, mas é importante reconhecer que é o cérebro que tem de ceder espaço, tomar decisões táticas, regular os processos corporais e conduzir o recrutamento muscular para completar o movimento físico que o futebol exige.  A tomada de decisões e a capacidade para tomar as decisões corretas a alta velocidade serão, certamente, elementos fundamentais que contribuem para diferenciar os jogadores de elite dos jogadores recreativos.

São claras as razões para a falta de informação relativamente ao tecido cerebral e às taxas de síntese proteica in vivo nos seres humanos. Contudo, um estudo recente de Smeets e colegas utilizou os métodos dos isótopos estáveis para avaliar diretamente a síntese proteica do cérebro em pacientes submetidos a um lobectomia temporal (Smeets et al., 2018). É fascinante constatar que as taxas de síntese proteica do tecido cerebral eram 3 a 4 vezes superiores às do tecido músculo-esquelético, muito superiores ao que anteriormente se supunha. Assim surge a hipótese de o cérebro dos jogadores se poder regenerar completamente no espaço de duas semanas. Teoricamente, isso significa que, durante a época de competição, os jogadores teriam 20 “novos” cérebros. Esta investigação ainda é incipiente, e está por apurar o impacto que a alimentação e o exercício, por um lado, e que a atividade futebolística em si, com o cabeceamento repetitivo da bola, por outro, podem ter na renovação da síntese proteica .

A literatura atualmente disponível ainda não permite a elaboração de diretrizes nutricionais sólidas para apoiar a reabilitação das proteínas cerebrais. Um conselho prudente seria garantir que o jogador mantenha os devidos níveis de hidratação, especialmente se jogar num ambiente quente (consulte a secção sobre hidratação, mais acima) (Maughan et al., 2007) e consumo proteico (Phillips e Van Loon 2011). Pode-se igualmente ponderar a toma de vários suplementos, como ácidos gordos omega 3 e creatina, os principais compostos atualmente em estudo(Ashbaugh e McGrew 2016). A ingestão de doses superiores de ácidos gordos omega 3 poderá melhorar os resultados de curto prazo, no seguimento de lesões na cabeça, como a concussão (Lewis 2016). É o crescimento de neurites, o aumento da ramificação de neurites e a subsequente sinaptogénese que o tornam possível, pois tudo isso contribui para a melhoria da função sináptica e a reparação neuronal, após uma lesão na cabeça (Kim e Spector 2013). Além disso, há indícios de que os ácidos gordos omega 3 normalizam os níveis de proteínas associadas à função do circuito neuronal e controlo locomotor, após a ocorrência de uma concussão (Wu et al., 2011). Por outro lado, já se verificou que a suplementação com monohidrato de creatina melhora a energética cerebral(Pan e Takahashi 2007; Turner et al., 2015). Isso poderá resultar em melhorias ao nível da cognição, da comunicação, dos cuidados pessoais, da personalidade e do comportamento (Sakellaris et al., 2006), tudo fatores relevantes para o desempenho futebolístico e com potenciais propriedades de reabilitação cerebral (Sakellaris et al., 2008).

 

RESUMO

O corpo do futebolista está continuamente a renovar-se com o substrato que a alimentação lhe proporciona. Assim, em termos físicos, no início da época, o jogador poderá ser quase completamente diferente do que virá a ser, no fim da época. As observações científicas salientam a importância de adotar estratégias de nutrição práticas e adequadas, para otimizar a reabilitação tecidual e, desse modo, “recuperar” e “construir” futebolistas resistentes e capazes.

 

 

*Exoneração de responsabilidade: Ian Rollo é funcionário do Gatorade Sports Science Institute, uma divisão da PepsiCo, Inc. As opiniões expressadas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente a posição ou a política da PepsiCo, Inc.

 

 

REFERÊNCIAS

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O ESTUDO DAS ACELERAÇÕES E DESACELERAÇÕES DE ALTA INTENSIDADE NO FUTEBOL

Uma nova dimensão de análise sugere que as acelerações máximas ocorrem com uma freqüência maior que 8 vezes em ações de sprint.

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O NÍVEL DE RESISTÊNCIA COMO MODERADOR DA CARGA DE TREINO

A resistência cardiovascular surgiu como moderador do resultado da carga a que se sujeita o desportista.

CARGA DE TREINO NA PRÉ-TEMPORADA E RISCO DE LESÃO

A pré-temporada ou fase preparatória da temporada é um dos momentos da temporada onde são geralmente cometidos os maiores “erros” de gestão de carga de treino.

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Estão os jogadores bem perfilados em relação à bola?

Através da visão por computador, podemos identificar alguns défices em relação à orientação corporal dos jogadores em diferentes situações de jogo.

O exame médico do desportista: um exame essencial

Um exame de saúde deve ser capaz de detetar situações que, apesar de não apresentarem sintomas evidentes, possam pôr em perigo um desportista sujeito a um grande esforço.

Os espaços no futebol sob uma perspetiva quantitativa

Nas palavras de Johan Cruyff, “os jogadores, na verdade, têm posse da bola, em média, durante 3 minutos. Portanto, o mais importante é: o que fazer durante os outros 87 minutos em que não se tem a bola? É isto que determina a qualidade do jogador.”

O diagnóstico de imagiologia na medicina desportiva: presente e futuro

As lesões musculares representam mais de 30 % de todas as lesões sofridas em desportos como o futebol.

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