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5 March, 2020

NO FUTEBOL JOGA-SE MELHOR COM 10 OU COM 11 ATLETAS? A INFLUÊNCIA DE UMA EXPULSÃO NO RENDIMENTO DAS EQUIPES

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Há algumas décadas, um reconhecido treinador disse uma frase que se popularizou em meio ao mundo do futebol: No futebol joga-se melhor com 10 do que com 11. A expulsão de um jogador nos passa a impressão de ocasionar um efeito psicológico na equipe penalizada, o que levaria a um maior esforço por parte dos demais atletas dentro de campo. Trata-se de envolver-se ainda mais no jogo contrariando assim uma situação tão desfavorável.

Entretanto, os resultados de algumas pesquisas científicas parecem descartar este efeito benéfico de se jogar com um menor número de atletas. Ficou demonstrado que, a distância total percorrida pelas equipes que foram penalizadas com a expulsão de um atleta foi maior nas situações de 11 versus 11, especialmente em ações de intensidade moderada, sendo os intervalos para recuperação entre os esforços de alta intensidade mais curtos.1 Além disso, ficou comprovado que, as equipes que jogaram com um atleta a menos, sofreram mais gols do que antes da expulsão.2

Em uma recente pesquisa3 também foi estudado em quais indicadores técnico-táticos do jogo se constata um impacto maior ao jogar com um atleta a menos. O estudo, publicado pela revista International Journal of Performance Analysis in Sport, em 2016, baseou-se na análise de 75 partidas da Premier Leagle inglesa (n=9), a Ligue 1 francesa (n=16), a Liga espanhola (n=19), a Serie A italiana (n=21) e a Bundesliga alemã (n=10) durante a temporada de 2014/2015 onde ocorreu uma expulsão. Os jogos que apresentaram expulsão nos primeiros 5 minutos ou nos últimos 5 minutos de cada tempo não foram incluídos, assim como também aqueles que foram penalizados com mais de uma expulsão. O rendimento das equipes que jogaram com um atleta a mais ou a menos foi comparado antes e depois da expulsão. As equipes que, logo após terem sido penalizadas com a expulsão, passaram a contar com um atleta a mais (11 versus 10), apresentaram as seguintes alterações em seu rendimento:

  • a posse de bola aumentou em 7% (51,07 % antes da expulsão e 58,28 % depois);
  • o número de passes curtos e o total de passes em geral foi 20 % e 14 % maior, respectivamente;
  • o percentual de passes bem-sucedidos foi 6 % maior após a expulsão;
  • o número de lançamentos realizados aumentou em 30 %;
  • houveram 9 % a mais de contatos com a bola e, finalmente
  • o número de ações defensivas (escanteios, faltas, interceptações e ataques) foi reduzido a 8 %.

As equipes que passaram a jogar com 10 versus 11 tiveram um rendimento menor durante o tempo de posse da bola, no número de passes curtos, no número total de passes em geral, no percentual de passes com sucesso, no número de lançamentos e de contatos com a bola de 7, 20, 18, 3, 10 e 19 % respectivamente.

 

Parece-nos então que, com 10 atletas não se tem um melhor rendimento que com 11. Na verdade, é ao contrário. E o efeito disso é significativo. As aplicações práticas sugerem que os treinadores deveriam evitar a expulsão sempre que possível, controlando o nível de motivação dos seus atletas antes das partidas ou nas trocas quando recebem um cartão amarelo ou ainda quando demonstram uma atividade excessiva durante o jogo. Além disso, identificar quais aspectos do jogo e quais valores concretos podem modificar o rendimento das equipes, assim como proporcionar um treinamento mais eficaz aos atletas, nestes dois cenários tão diferentes de superioridade ou inferioridade numérica.

 

 

Carlos Lago Peñas

 

Referências

1 Carling, C. y Bloomfield, J. (2010). The effect of an early dismissal on player work rate in a professional soccer match, Journal of Science Medicine in Sport, 13, 126–128

2 Bar-Eli, M., Tenenbaum, G. y Geister, S. (2006). Consequences of players’ dismissal in professional soccer: A crisis-related analysis of group size effects, Journal of Sports Sciences, 24, 1083-1094.

3 Lago-Peñas, C., Gómez-Ruano, M.A., Owen, A.L. y Jaime Sampaio (2016) The effects of a player dismissal on competitive technical match performance, International Journal of Performance Analysis in Sport, 16, 792-800.

 

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