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October 26, 2020

NEUROBIOLOGIA DAS DECISÕES NO MUNDO DOS ESPORTES

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Em 2008, o neurocientista John-Dylan Haynes liderou um conjunto de experiências no Centro de Neurociência Computacional de Bernstein, em Berlim com o objetivo de entender um pouco mais sobre os mecanismos do livre arbítrio nos seres humanos. O grupo de cientistas utilizou um scanner cerebral para sondar as reações cerebrais humanas imediatamente antes de tomar uma decisão.

Na pesquisa foi solicitado aos participantes que estivessem dentro de um aparelho de tomografia por ressonância magnética (TEM) com um botão de pressão em cada mão. As instruções eram simples, deveriam apenas pressionar o botão que quisessem no momento que desejassem. Apenas lhes foi pedido que lembrassem do momento exato em que tinham decidido pressioná-lo. Após a análise dos dados, os resultados foram surpreendentes, pois foi possível prever com até dez segundos de antecedência qual a decisão que os participantes tomariam. Seria como se o cérebro “soubesse” o que iria fazer até dez segundos antes destas pessoas tomarem consciência da sua própria decisão. Pesquisas anteriores mostraram que se podia prever as intenções de alguém a partir da sua atividade cerebral, mas nunca tinha sido demonstrado que se poderia prever uma decisão a ser tomada no futuro.

E este trabalho nos levou a questionar: será que é realmente necessário estar ciente de uma decisão para depois tomá-la? De acordo com os resultados da equipe de Haynes, a resposta seria não. Nossos atos futuros estão determinados sem que tenhamos conhecimento deles. De alguma forma, as ações são planejadas a um nível subconsciente e a nossa consciência em relação a elas pode servir mais para manter um registro ou refletir a respeito do que para fazer com que aconteçam. Mesmo assim, as limitações da experiência de Haynes eram óbvias, pois só se podia escolher entre duas alternativas, com todo o tempo do mundo à sua frente, e isso reduziu de forma significativa o leque de opções disponíveis. No entanto, as bases neuronais destes circuitos não demandam mudanças em meio a estes cenários mais abertos. Como em um campo de futebol, por exemplo.

Tomamos decisões desde o momento em nos levantamos pela manhã até a hora em que deitamos à noite, e, em cada uma delas se ativa um conjunto de sistemas que trabalham desde a avaliação das diferentes opções, seguem com o teste ou sua escolha e, por último, acabam por conduzir a própria decisão ou ação escolhida. Em alguns casos, quando há tempo disponível, é a parte racional de nosso pensamento que entra em jogo, elaborando um conjunto de projeções a longo prazo sobre o resultado das nossas decisões. Contudo, nos momentos em que uma resposta imediata é necessária, são as emoções que apresentam maior relevância. Mas, sempre sob a influência de muitas variáveis, tais como o contexto ou as regras que caracterizam o espaço onde nos deslocamos. Se eu tiver a bola aos meus pés e dois zagueiros me fecharem, o meu cérebro não considerará a possibilidade de agarrar a bola com as minhas mãos e correr para fora do estádio.

Será que isto significa encontrar melhores alternativas quanto mais tempo pensarmos nelas? Não necessariamente… A razão nem sempre é mais sábia que a emoção. Como Jonah Lehrer aborda em seu livro O momento decisivo (How we decide), o cientista Ap Dijksterhuis conduziu uma experiência na qual os participantes avaliaram uma coleção de automóveis. O objetivo era decidir pelo melhor, e, para isso, estas pessoas foram informadas sobre as qualidades objetivas de cada um dos modelos expostos. Com todas as informações necessárias, metade do grupo teve quatro minutos para pensar tranquilamente sobre qual seria o melhor modelo de automóvel, enquanto a outra metade foi entretida com outra atividade e depois solicitado que respondessem, quase sem tempo para pensar, qual seria o modelo de sua escolha. Do grupo que teve tempo para pensar, apenas 25% das pessoas acertaram na escolha do melhor modelo. Agora, e quanto ao grupo que foi guiado pela intuição? 60%.

Assim, esta é, sem dúvida, uma grande notícia para os atletas que estão expostos à necessidade de tomar decisões em questão de milésimos de segundos. Um drible, um passe ou um remate ao gol podem acabar fazendo a diferença entre se ganhar ou se perder um jogo. E parece que essa parte menos consciente do nosso cérebro se comporta relativamente bem quando se trata de tomar decisões. Lembrando o pensamento inicial deste artigo: a consciência de ter tomado uma decisão vem depois de esta decisão ter sido tomada. Mas, logicamente, o nosso cérebro deve ser treinado para consciente ou inconscientemente, escolher sempre a melhor opção entre todas as disponíveis.

Assim, a partir desta premissa surge a importância dos treinamentos ou das estratégias. Durante um jogo, toda a informação relevante não tem o porquê de ser procurada conscientemente, mas é preciso que esteja ali para que nosso cérebro tenha acesso a ela. Por exemplo, uma pessoa que nunca treinou futebol não terá este tipo de informação armazenada, sobre técnicas deste esporte ou estratégias de jogo. Em vez disso, ao treinar e ganhar experiência, o seu cérebro criará novas conexões que permitirão que você tenha acesso às informações necessárias em questões de segundos. O que devo fazer quando a zaga entra pela minha esquerda? Um drible para a direita. E se meus colegas se espalharem pela outra lateral sem marcações? Então é ali que deverei mudar a estratégia de jogo. Qualquer atleta poderá afirmar que, assim como conduzir um carro, tudo funciona automaticamente quando não se há tempo para pensar. Apesar de ter de escolher entre infinitas formas de agir ou de se mover.

Do mesmo modo, o atleta profissional de pôquer Michael Binger explica que só conseguiu se tornar um campeão nesse jogo quando deixou de se preocupar com a contagem de cartas ou com o cálculo de probabilidades e começou a se deixar levar, em parte, pelas suas emoções e intuições menos racionais. Lidar com grandes quantidades de informações, como possíveis combinações de cartas do adversário entre outras estratégias que estão por vir, pode levar a um bloqueio, devido ao excesso de informação. E isto, por sua vez, pode deixar um atleta sem escolhas ou ainda que ele faça opções erradas.

Ter a experiência de milhares de torneios, como Michael Binger, ou de jogos, como um atleta profissional do futebol, pode ser um diferencial na hora de se deixar levar por um palpite. Porque não se confia no puro acaso, mas sim em deixar o circuito neural atuar mais rápido na tomada de decisões. Uma intuição nascida de um cérebro bem treinado não significa se lançar ao vazio, mas saber, sem ter um conhecimento prévio, que tomamos a decisão correta.

 

 

 

Jose Valenzuela

 

 

 

 

Bibliografia

Dijksterhuis, A. (2006). “On Making the Right Choice: The Deliberation-Without-Attention Effect”. Science. 311(5763): 1005–1007.

Lehrer, Jonah (2011), Cómo decidimos, Barcelona: Paidós.

Soon, Chun & Brass, Marcel & Heinze, Hans-Jochen & Haynes, John-Dylan. (2008). Unconscious determinants of free decisions in the human brain. Nature neuroscience. 11. 543-5. 10.1038/nn.2112.

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