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17 February, 2021

Mitos sobre carga de trabalho, lesões e desempenho

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O controle da carga de trabalho (TL, conforme a sigla em inglês) tornou-se um elemento fundamental no processo de melhorias do desempenho e formas de prevenção contra os riscos de lesões. A TL, nos últimos anos é pesquisada de forma significativa, entre outras razões pela sua estreita relação com a incidência de lesões.1 Por muitos anos, imaginávamos que uma TL elevada poderia aumentar riscos de lesões, sendo este o principal limitador do desempenho. Longe disso, para conseguir um elevado desempenho esportivo é importante realizar uma evolução gradativa na TL. Por isso, o monitoramento da TL atualmente é um dos principais interesses de técnicos e profissionais responsáveis pela preparação física dos atletas, com o objetivo comum de encontrar o equilíbrio necessário entre cargas de trabalho, que melhorarão o desempenho esportivo ao provocarem menores índices de lesões. Isto significou um aumento nas evidências no intuito de reduzir lesões associadas à TL, ao fomentar o surgimento de mitos ou conceitos equivocados em torno da relação entre TL, lesões e desempenho.

Os 5 mitos sobre carga de trabalho, lesões e desempenho

Tim Gabbett, especialista em Ciências do esporte com uma longa trajetória no trabalho com atletas e técnicos de uma ampla gama de modalidades esportivas, apresentou um artigo científico publicado em 2018, na conceituada British Journal of Sports Medicine, sobre mitos ou conceitos equivocados associados a relação entre TL, lesões e desempenho.2

Mito 1: a carga de treinamento explica todas as lesões.

As lesões ocorrem principalmente quando a TL excede a capacidade adaptativa do tecido, ou seja, quando ela é maior que a capacidade do tecido de suportá-la. As TL altas são geralmente associadas ao melhor desempenho, enquanto que sua aplicabilidade inadequada é um fator importante quanto ao risco de lesões.3–5 Ainda que exista um equilíbrio entre determinadas TL que melhoram o desempenho e minimizam os risos de lesões, seria elementar pensar que os riscos de lesões estivessem condicionados única e exclusivamente a TL. De fato, fatores como os biomecânicos, emocionais ou de estilo de vida influenciam no risco de lesões dos atletas, independentemente da TL. Definitivamente, a relação entre treinamento, desempenho esportivo e riscos de lesões são complexos e multifatoriais.

Mito 2: a regra de 10%.

Há um mito popular de que o aumento da TL não deveria exceder o índice semanal de 10%. A regra de 10% tem sua origem nos anos 2000 quando este método foi empregado com o objetivo de diminuir riscos de lesões prescrevendo aumentos gradativos de 10% na TL.6,7 Embora grandes mudanças semanais na TL aumentam os riscos de lesões,8,9 pois não existem regras de 10% para preveni-las. Assim, em alguns casos, verificou-se que, certos atletas conseguem suportar uma TL entre 20% e 25%, pelo menos por curtos períodos de tempo.10 Por outro lado, mudanças superiores a 30% mostram um aumento do risco de lesões.10

Embora exista um consenso de que grandes mudanças semanais na TL elevem os riscos de se lesionarem, estas mesmas mudanças devem ser interpretadas em relação à experiência de treinamentos anteriores. Uma grande mudança na TL após um período de cargas baixas elevaria o risco de lesões, enquanto uma elevação semanal (>10%) em uma TL alta após um período de TL crônica alta seria mais indicado.

Mito 3: é preciso evitar picos e reduções nas cargas de trabalho.

Dentre os métodos para desenvolver a TL, como elevações de 10 % na TL de uma semana para outra, como informado, um método de controle de TL baseado na análise de indicadores médios de carga aguda e crônica (ACWR conforme sua sigla em inglês) ganhou recentemente grande popularidade,8 onde cargas agudas se referem à TL da própria semana e cargas crônicas se referem à TL a longo prazo, a TL média de um período de 4 semanas. Neste caso, quando cargas agudas são superiores às crônicas, isto indica que a fadiga suportada é superior ao estado físico do atleta, aumentando os riscos de lesões. Além disso, o estado físico desempenha um papel importante na prevenção de lesões, onde observamos que atletas que se submetem a cargas crônicas elevadas e cargas agudas moderadas tendem a sofrer menos lesões que os atletas com cargas crônicas menos expressivas.11

Diferentes pesquisas realizadas em diferentes modalidades de esporte4,12–15 demonstraram que os picos na TL (cargas crônicas baixas em comparação com as agudas) aumentam consideravelmente os riscos de lesões. Quando o aumento na TL é muito rápido, chamamos de pico na TL, a capacidade do tecido em tolerar este nível de tensão é excedida, ocasionando lesões. Por outro lado, as quedas na TL, o que significa um pequeno aumento nas cargas agudas em relação às cargas crônicas, resultam em menores riscos de lesões. É importante notar que, enquanto os grandes picos na TL aumentam a probabilidade de lesões, é provável que reduções também possam aumentarem as probabilidades de lesões. Isto é, não apenas o excesso de treinamento, mas também o aquele realizado com menor intensidade pode ser um fator de risco de lesões.

Quando olhamos para o ACWR, ou seja, quando levamos em conta a intensidade de uma TL em comparação com as TL das semanas anteriores, se estiver entre 0,8 e 1,3, onde a carga aguda é aproximadamente igual à carga crônica, podemos dizer que os riscos de lesões são relativamente baixos, devido a fatores relacionados à TL. Entretanto, quando o ACWR for ≥1.5, onde cargas agudas são superiores as cargas crônicas, os riscos de lesões aumentam consideravelmente. Assim, os risco de lesões parecem se intensificar quando os atletas são submetidos a um ACWR entre 1,5 e 2, ou seja, quando a TL de uma semana (cargas agudas) é de 50 a 100% superior as cargas médias das últimas 4 semanas (cargas crônicas).11

Mito 4: 1,5 é o indicador médio de cargas agudas e crônicas “mágico”.

Embora as probabilidades de lesões pareçam aumentar com um ACWR ≥1,5, é preciso ter em mente que na ciência do esporte 1+1 raramente é 2. Neste caso, o valor de 1,5 não é um “número mágico” reduzindo assim os riscos de lesões. Isto seria parcialmente explicado pela natureza multifatorial das lesões e, enquanto alguns atletas podem sofrer lesões com ACWR abaixo dos 1,5, outros suportariam ACWR superior a 1,5.

Mito 5: tudo isto está relacionado com os indicadores médios de cargas agudas e crônicas.

Embora os picos na TL que resultam em um elevado ACWR aumentem os riscos de lesões, não podemos esquecer a importância das cargas crônicas e suas funções em manter os atletas protegidos das lesões. Assim, Hulin e colaboradores observaram que os picos na TL tendem a elevar os riscos de lesões, pois os atletas submetidos a maiores cargas crônicas teriam probabilidades cinco vezes menores de se lesionar ao comparar-se com aqueles que apresentam baixas cargas de trabalho crônicas.12 Há duas explicações possíveis para este efeito protetor de treinamento: 1) a exposição à carga permite que o organismo a suporte e 2) o treinamento desenvolve as qualidades físicas, por exemplo, força ou capacidade cardiorrespiratória, que estão associadas a menores probabilidades de lesões.

Conclusões

O controle da TL é um elemento fundamental por onde percorrem tanto a melhoria do rendimento como a prevenção de lesões. No entanto, notamos que ainda existem alguns mitos ou equívocos em torno da relação que se estabelece entre treino, desempenho esportivo e lesões. Assim, neste artigo abordamos e fornecemos evidências no intuito de permitir que o leitor tire suas próprias conclusões em torno deste assunto.

 

Javier S. Morales

 

REFERÊNCIAS:

  1. Drew MK, Finch CF. The Relationship Between Training Load and Injury, Illness and Soreness: A Systematic and Literature Review. Sports Med 2016;46:861–83.
  2. Gabbett TJ. Debunking the myths about training load, injury, and performance: empirical evidence, hot topics, and recommendations for practitioners. Br J Sports Med 2020;54:58–66.
  3. Jaspers A, Kuyvenhoven JP, Staes F, Frencken WGP, Helsen WF, Brink MS. Examination of the external and internal load indicators’ association with overuse injuries in professional soccer players. J Sci Med Sport 2018;21:579–85.
  4. Malone S, Owen A, Mendes B, Hughes B, Collins K, Gabbett TJ. High-speed running and sprinting as an injury risk factor in soccer: Can well-developed physical qualities reduce the risk? J Sci Med Sport 2018;21:257–62.
  5. Bacon CS, Mauger AR. Prediction of overuse injuries in professional U18-U21 footballers using metrics of training distance and intensity. J Strength Cond Res 2017;31:3067–76.
  6. Johnston CAM, Taunton JE, Lloyd-Smith DR, McKenzie DC. Preventing running injuries. Practical approach for family doctors. Can Fam Physician 2003;49:1101–9.
  7. Buist I, Bredeweg SW, Lemmink KAPM, Pepping GJ, Zwerver J, Van Mechelen W, et al. The GRONORUN study: Is a graded training program for novice runners effective in preventing running related injuries? Design of a Randomized Controlled Trial. BMC Musculoskelet Disord 2007;8.
  8. Gabbett TJ. The training-injury prevention paradox: Should athletes be training smarter and harder? Br J Sports Med 2016;50:273–80.
  9. Piggott B, Newton M, Mcguigan M. The relationship between training load and incidence of injury and illness over a pre-season at an Australian Football League Club. J Aust Strength Cond 2009;17.
  10. Nielsen RO, Cederholm P, Buist I, Sørensen H, Lind M, Rasmussen S. Can GPS be used to detect deleterious progression in training volume among runners? J Strength Cond Res 2013;27:1471–8.
  11. Hulin BT, Gabbett TJ, Lawson DW, Caputi P, Sampson JA. The acute: Chronic workload ratio predicts injury: High chronic workload may decrease injury risk in elite rugby league players. Br J Sports Med 2016;50:231–6.
  12. Hulin BT, Gabbett TJ, Blanch P, Chapman P, Bailey D, Orchard JW. Spikes in acute workload are associated with increased injury risk in elite cricket fast bowlers. Br J Sports Med 2014;48:708–12.
  13. Murray NB, Gabbett TJ, Townshend AD, Hulin BT, McLellan CP. Individual, and combined effects of acute and chronic running loads on injury risk in elite Australian footballers. Scand J Med Sci Sport 2017;27:990–8.
  14. Weiss KJ, Allen S V., McGuigan MR, Whatman CS. The relationship between training load and injury in men’s professional basketball. Int J Sports Physiol Perform 2017;12:1238–42.
  15. Møller M, Nielsen RO, Attermann J, Wedderkopp N, Lind M, Sørensen H, et al. Handball load and shoulder injury rate: A 31-week cohort study of 679 elite youth handball players. Br J Sports Med 2017;51:231–7.

 

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