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24 December, 2019

MEMÓRIA E CONFLITO: COMO A “TRÉGUA DE NATAL” DE 1914 AFETA AS INICIATIVAS MODERNAS PARA A CONSOLIDAÇÃO DA PAZ

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Em um dia frio e de muito vento no meio de um campo, dois grupos de homens, com histórias e crenças muito diferentes, se enfileiraram, um ao lado do outro. Despercebidos, a não ser por alguns poucos no mundo exterior, esses homens compartilharam um vínculo comum, que resistiu ao teste do tempo. Mais de 90 anos depois, um grupo semelhante de 22 homens se reuniu no mesmo campo nos arredores de Ypres, Bélgica, para comemorar o local onde as tropas britânicas e alemãs depuseram suas armas e jogaram futebol para celebrar o Natal longe de casa.[1] Assim como os soldados de várias gerações antes deles, esses guerreiros modernos deixaram de lado suas diferenças e jogaram uma partida simbólica, onde a maior conquista não era o placar final, mas as memórias contínuas de como inimigos mortais puderam se unir no meio de uma guerra.

Esta publicação apresenta a pergunta: como a memória de eventos esportivos significativos, como a Trégua de Natal de 1914 desperta iniciativas contemporâneas para a consolidação da paz relacionadas ao esporte através da memória e do conflito?

Para entender como a memória pode ser uma variável integral em iniciativas de consolidação da paz através do esporte, podemos olhar para uma das primeiras ocorrências registradas do uso do futebol em um esforço de base orgânica, que criou uma pequena janela de paz durante uma era de conflito. A Trégua de Natal de 1914[2], é um dos poucos momentos na história militar moderna em que ambos os lados de um conflito depuseram armas e se reuniram em “terra de ninguém” para celebrar um evento em comum.

Ao tomar conhecimento do “armistício extra oficial”, o alto comando de ambos os lados ficou enfurecido pelas ações dos seus oficiais não comissionados (NCOs) e procurou encerrar “essa situação elisiana [quase divina]”.[3] A trégua começou na véspera do Natal, quando os soldados alemães “começaram a cantar canções e hinos conhecidos nos dois países… Compreensivelmente, [de acordo com um soldado britânico] uma onda de nostalgia contagiou a todos”.[4] Frank e Michael Wary, dois membros da 1ª Brigada de Londres, que estavam presentes nas trincheiras na noite, relataram:

Um batalhão da 10ª Divisão no nosso [flanco] esquerdo organizou um jogo de futebol contra um time alemão, sendo que um deles encontrou no time adversário um colega do clube de futebol local de Liverpool, que também era seu barbeiro! Foram trocados muitos presentes… Um grupo de trabalho conjunto foi formado para enterrar os homens e animais mortos… Uma melhora aparente na atmosfera foi percebida, sendo que permanecemos ali até a Páscoa.[5]

Embora a paz passageira que surgiu no meio da guerra durante o Natal não tenha se repetido desde 1914, as organizações devotas a fomentar a paz e, até certo ponto, pesquisadores, têm procurado entender como a memória de eventos pacíficos afeta sociedades divididas.

Memória e conflito

Inspirado na definição de Bell da memória coletiva como “percepções amplamente compartilhadas do passado, vinculando o passado-presente-futuro a uma narrativa coletiva simplificada”.[6] É por meio da memória coletiva de um grupo que conseguimos usar eventos passados para ajudar a formular políticas e desenvolver ferramentas para a consolidação da paz. A última seção apresentou uma observação dos dois irmãos quanto a um evento monumental. Infelizmente, como o evento foi espontâneo e conduzido por NCOs, nunca foi adequadamente documentado e os eventos do dia foram coletados por meio de relatos de soldados feridos que foram retirados das linhas de frente.[7]

Considerando os relatos do evento, conforme recordado por outros soldados e escrito por historiadores, a memória coletiva do evento permitiu aos pesquisadores reunir os eventos da Trégua de Natal.[8] Em outras palavras, neste caso, o grande número de relatos de soldados valida esse evento histórico.

Ao lidar com memória e conflito, é importante abordar o papel do trauma e da experiência traumática compartilhada. Alexander afirma que o trauma ocorre “quando indivíduos e grupos sentem que estiveram sujeitos a um evento horrível que deixa marcas indeléveis na consciência, porque elas marcarão suas memórias para sempre e mudarão o futuro deles de maneira fundamentalmente irrevogável.”[9] Aplicando isso à Trégua de Natal, pode-se argumentar que aquele trauma da guerra de trincheiras afetou quase igualmente os soldados dos dois lados. A experiência compartilhada, ocorreu em um feriado comum e permitiu que os dois lados se unissem em torno de um esporte, enquanto era humanizado o outro lado. Conforme reportado pelos irmãos Wary, o auge da situação ocorreu quando os soldados britânicos e alemães perceberam que se conheciam de um período anterior à guerra e como, mesmo depois que foram forçados a retomar a luta, “o ânimo nas trincheiras mudou nos meses seguintes” ao evento.[10]

Ao examinar mais detalhadamente o caso dos irmãos Wary, pode-se perceber que a janela para engajar o trauma como ferramenta para unificação pode se perder tão facilmente como quando foi estabelecido. No final do relatório, ficou claro que a brigada dos irmãos foi “retirada da linha de frente pelo restante do período, mas, infelizmente, depois de uma semana, já estávamos envolvidos na 2ª Batalha de Ypres, durante a qual a maioria do batalhão foi vitimada”.[11]

A Trégua de Natal, organicamente criada, foi uma oportunidade para uma consolidação oficial de paz perdida pelo alto comando, embora fosse inatingível no contexto mais amplo dessa guerra. É nesses momentos perfeitos que os modernos pacificadores precisam trabalhar com mais empenho para encontrar soluções para conflitos, para que oportunidades possam ser atingidas. Embora a perda do momento perfeito apresentado em um trauma coletivo possa significar a negação de oportunidades para a consolidação da paz, a memória coletiva não se perde facilmente. Isso fica evidente pela comemoração da Trégua de Natal muitos anos depois: nenhum dos lados se esqueceu da importância da trégua. O trauma compartilhado, quando introduzido no momento certo, e a memória coletiva de um evento, são duas ferramentas poderosas que os pacificadores começaram a usar ao desenvolver iniciativas relacionadas com o esporte em sociedades divididas.

Conclusão

Para comemorar a Trégua de Natal de 1914, os militares britânicos e alemães organizaram um jogo de futebol em 11 de novembro de 2008 entre os soldados modernos dos regimentos que constaram como tendo jogado a partida original.[12] Quase refletindo o resultado final (Alemanha 3 x 2), o jogo terminou 2 x 1, com a vitória da Alemanha, novamente.[13] O resultado mais importante do jogo comemorativo não foi o placar final, mas o relacionamento e a compreensão que foi reanimada entre as duas potências, historicamente inimigas. A Trégua foi comemorada não apenas para lembrar aqueles que perderam suas vidas na Grande Guerra, mas também aqueles poucos homens corajosos que estavam dispostos a desafiar limites físicos e metafóricos e derrubar barreiras que foram construídas para desumanizar as pessoas do outro lado.

Infelizmente, precisa ser mencionado que o uso do esporte em áreas de conflito não se apresenta sem potenciais riscos ou falhas. Praticantes e acadêmicos estão aprendendo a minimizar os elementos tóxicos potenciais (por exemplo, racismo, sensibilidade cultural e entrincheiramento de rivalidades) que estão associados à introdução do esporte em uma sociedade dividida. Para que as iniciativas esportivas sejam realmente bem-sucedidas, não apenas o povo comum e os movimentos individuais precisam estar engajados, mas a sociedade política precisa entender a importância dos objetivos da consolidação da paz.

Darnell salienta que o ‘esporte não diminui a importância de um compromisso político para com a paz. Na melhor das hipóteses, o esporte oferece uma porta de entrada para conversações sobre a consolidação da paz e das lutas direcionadas a isso.[14] Essa noção é o coração do debate sobre o papel do esporte como uma ferramenta de consolidação da paz em sociedades divididas. Isso não significa que as pessoas não devam tentar introduzir novas iniciativas relacionadas ao esporte em uma sociedade dividida sem um compromisso para com a paz da sociedade política.

Assim como a Trégua de Natal de 1914 exemplificou a efetividade do esporte como a melhor forma de divisão entre culturas relativamente semelhantes, o esporte pode produzir uma força unificadora mais poderosa do que a guerra. É a memória do evento, como um simples jogo unificou inimigos, que persistiu muito depois do falecimento do último membro sobrevivente. Quando soldados do serviço ativo, tanto da Grã-Bretanha quanto da Alemanha, participaram do jogo comemorativo 94 anos depois, o legado e a coragem daqueles bravos soldados de 1914 estava solidificada como uma iniciativa de consolidação da paz. O ato de ter dois inimigos historicamente opostos se enfrentando no mesmo campo de batalha com soldados do serviço ativo é raramente visto no contexto moderno em um evento de grande destaque.

No final, usar o esporte como uma ferramenta de consolidação da paz é não apenas a resposta ao tentar unir sociedades divididas. Porém, apesar do uso do esporte em iniciativas de consolidação da paz tenha enfrentado obstáculos, os sucessos superam os desafios. São esses sucessos que precisam ser construídos pelos praticantes e estudados por acadêmicos para encontrar os usos mais efetivos das iniciativas esportivas em sociedades divididas.

 

Mason Robbins

 

Bibliografia

Fontes principais:

Arquivos:

Carta: Vice-Almirante B. B. Schofield, Londres, 13 de março de 1968. Central de Arquivos Militares de Liddell Hart, King’s College London. (LH 15/2/50).

“Soldados participam de um jogo de futebol comemorativo”, Ministério da Defesa, 14 de novembro de 2008.

Fontes secundárias:

Alexander, Jeffrey, ‘Towards a Theory of Cultural Trauma’ in Jeffrey Alexander, Ron Eyerman, Bernhard Giesen, Neil J. Smelser, and Piotr Sztompka, Cultural Trauma and Collective Identity, (Berkeley, CA: University of California Press, 2004).

Bell, Duncan, Memory, Trauma and World Politics: Reflections on the Relationship between Past and Present, (New York: Pelgrave Macmillan, 2006).

Darnell, Simon C., ‘Conflict, Education, and Sport: Responses, Causes and Questions’, Conflict and Education, 1(1), 2011.

Weintraub, Stanley, Silent Night: The Story of the WWI Christmas Day Truce, (New York: The Free Press, 2001).

*A publicação no blog apareceu pela primeira vez em: https://www.blogs.hss.ed.ac.uk/sport-matters/2017/12/19/football-1914-xmas-day-truce/

[1] “Soldados participam de um jogo de futebol comemorativo”, Ministério da Defesa, 14 de novembro de 2008. Recuperado: 15 de fevereiro de 2012

[2] O relato a seguir foi feito por dois membros da 1ª Brigada de Rifles de Londres, os irmãos Frank e Michael Wary, em uma carta escrita por Vice Adrimal BB Schofield.

[3] Carta: Vice-Almirante B. B. Schofield, Londres, 13 de março de 1968. Central de Arquivos Militares de Liddell Hart, King’s College London. (LH 15/2/50).

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Duncan Bell, ‘Memory, Trauma and World Politics: Reflections on the Relationship between Past and Present’, (New York: Pelgrave Macmillan, 2006), p 2.

[7] Ibid. p. 2.

[8] Stanley Weintraub, Silent Night: The Story of the WWI Christmas Day Truce, (New York: The Free Press, 2001).

[9] Jeffrey Alexander, ‘Towards a Theory of Cultural Trauma’ in Jeffrey Alexander, Ron Eyerman, Bernhard Giesen, Neil J. Smelser, and Piotr Sztompka, Cultural Trauma and Collective Identity, (Berkeley, CA: University of California Press, 2004), p. 1; Duncan Bell, ‘Memory, Trauma and World Politics: Reflections on the Relationship Between Past and Present’, (New York: Pelgrave Macmillan, 2006), p 2.

[10] Carta: Vice-Almirante B. B. Schofield, Londres, 13 de março de 1968. (LH 15/2/50).

[11] Ibid.

[12] “Soldados participam de um jogo de futebol comemorativo”, Ministério da Defesa, 14 de novembro de 2008. Recuperado: 15 de fevereiro de 2012

[13] Ibid.

[14] Simon C. Darnell, ‘Conflict, Education, and Sport: Responses, Causes and Questions’, Conflict and Education, 1(1), 2011.

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