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November 19, 2021

Futebol

Jogos sem público: será que a vantagem de ser mandante nos jogos de futebol sumiu?

By Carlos Lago Peñas.

A crise sanitária causada pelo COVID-19 mudou a vida diária de milhões de pessoas no mundo todo. E o futebol não ficou imune a essa paralisação. Depois de vários meses sem jogos, o retorno à competição chegou com algumas mudanças nas regras: o número de jogadores que as equipes podem convocar para cada partida foi aumentado, assim como o número máximo de substituições, que passou para 5. Porém, a novidade mais importante é que os jogos têm de ser disputados sem público nas arquibancadas. Qual foi o efeito de jogar de portas fechadas? O fator campo perde importância quando não há torcedores encorajando os times mandantes?

Existem evidências científicas claras que sustentam a vantagem que significa jogar em casa para os times mandantes1,2. Por exemplo, nas 5 ligas mais importantes da Europa (Premier League inglesa, Bundesliga alemã, Serie A italiana, LaLiga espanhola e Ligue 1 francesa) as equipes mandantes vencem em 44-46% dos jogos e marcam entre 0,3 e 0,4 gols mais do que os visitantes. A vantagem de sediar o jogo (a porcentagem de pontos ganhos pelas equipes feitos no próprio clube sobre o total de pontos alcançados) é de 60%3,4.  

Os fatores que explicam este efeito positivo são diversos, mas talvez os dois mais importantes sejam a tendência dos árbitros e o efeito estimulante do público sobre o comportamento dos jogadores. Algumas pesquisas em laboratório mostraram como o barulho dos torcedores faz com que 15% das faltas sejam erroneamente assinaladas pelos árbitros a favor das equipes da casa5,6. Ao tirar o ruído ambiente, esse viés dos árbitros desaparece. Também foi demonstrado como o tempo de extensão das partidas é maior do que deveria quando a equipe que joga em casa está perdendo por um gol, e menos quando está vencendo pela mesma diferença. Sabemos também que o incentivo do público aumenta os níveis de testosterona e cortisol nos jogadores da equipe mandante em relação ao que acontece nos rivais. O mesmo efeito foi identificado na comparação entre os jogos oficiais e amistosos.

De acordo com dados do CIES Football Observatory (relatório nº 304, https://football-observatory.com/IMG/sites/b5wp/2020/wp304/en/) o fator campo viu-se reduzido com a ausência do público. Os autores da pesquisa estudaram 63 ligas em todo o mundo, nas quais pelo menos 40 jogos foram disputados de portas fechadas como resultado da crise do COVID-19. O percentual de jogos vencidos por times mandantes passou de 44,3% para 42,2% e a diferença de gols mudou de 0,32 para 0,24. Ou seja, jogar sem público reduziu em 2,1% o percentual de vitórias para os clubes da casa e em 0,08 pontos a diferença de gols entre os times que se enfrentam. A maior queda ocorreu na Superliga Grega, onde as vitórias em casa caíram 15,1%. No lado oposto, a Super League suíça viu as vitórias dos mandantes aumentarem em 8,5%. A porcentagem de vitórias em casa caiu em 41 das 63 ligas estudadas. De acordo com os dados do site www.besoccer.com, nas 11 ligas europeias sob análise (Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Áustria, Dinamarca, Rússia, Portugal, Turquia, Grécia e Suíça), fazer os jogos sem torcida trouxe as seguintes alterações: as vitórias dos mandantes diminuíram 2,5% e as dos visitantes aumentaram 2,15%. Além disso, os gols das equipes que jogam na sua sede caíram 2,20%. No entanto, os gols fora de casa aumentaram 6,79%. Também foi registrada uma equiparação no número de faltas e cartões recebidos pelas equipes mandantes e visitantes nos jogos sem audiência. Por exemplo, nas partidas disputadas antes do fechamento dos estádios na Bundesliga Alemã, os times locais foram penalizados com 44,85% (405) dos cartões amarelos e 33% (14) dos cartões vermelhos; após a retomada da competição passaram a receber 51,1% (178) e 66% (8), respectivamente.

Em La Liga, o percentual de vitórias dos mandantes, empates e vitórias dos visitantes nos 270 jogos disputados antes do fechamento da competição na temporada 2019/2020 foi o seguinte: 47,7% (129 jogos), 24,4% (66 jogos) e 21,7% (75 jogos), respectivamente. Nos 110 jogos realizados sem público, os valores passaram a ser os seguintes: 40% (44 partidas), 28,2% (31 partidas) e 31,2% (35 partidas). Ou seja, o percentual de vitórias dos times da casa caiu mais de 7% e o das equipes visitantes cresceu quase 10%. A quantidade de pênaltis aplicados contra os times mandantes diminuiu 15,4%, enquanto aumentou 46% a favor dos visitantes. O número de gols dos mandantes passou de uma média de 1,51 por jogo para 1,26, enquanto para os visitantes passou de 1,03 para 1,07. A vantagem de jogar em casa caiu 4,54%, passando de 63,17% para 58,63%.

Em síntese, a maioria das pesquisas acadêmicas que analisaram o efeito de jogar sem público sugere: (1) a vantagem de jogar em casa foi ligeiramente reduzida; (2) o impacto varia muito dependendo dos países e as competições; (3) também diminuiu o benefício das decisões dos árbitros (faltas e cartões amarelos) para os times mandantes; (4) a vantagem de sediar o jogo continua a depender fortemente da diferença entre as equipes e do equilíbrio competitivo da competição; (5) se observa certa adaptação do desempenho das equipes quando jogam sem público. À medida que mais jogos eram disputados de portas fechadas, a vantagem de jogar em casa foi recuperada.

 

Referências

1 Lago Peñas, C. & Gómez, M. (2020). El jugador número 12. La ventaja de jugar en casa en el fútbol. Edición de los autores.

2 Gómez, M., Pollard, R. & Lago-Peñas, C. (2021). Home Advantage in Sport. Causes and the Effect on Performance. London: Routledge.

3 Pollard, R., & Gómez, M.A. (2014). Components of home advantage in 157 national soccer leagues worldwide. International Journal of Sport and Exercise Psychology, 12, 218-233.

4 Sánchez, P.A., García-Calvo, T., Leo, F., Pollard, R., & Gómez, M.A. (2009). An analysis of home advantage in the top two spanish professional football leagues. Perceptual and Motors Skills, 108, 789-797.

5 Nevill, A. M., Balmer, N. J., & Williams, A. M. (2002). The influence of crowd noise and experience upon refereeing decisions in football. Psychology of Sport and Exercise, 3(4), 261-272.

6 Unkelbach, C., & Memmert, D. (2010). Crowd noise as a cue in referee decisions contributes to the home advantage. Journal of Sport and Exercise Psychology, 32(4), 483-498.

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