19 September, 2018

Graus de liberdade ou de escravidão?

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Qual é que seria a abordagem correta para entender cientificamente  o futebol? Aqui, propõe-se, como primeiro passo para desenvolver modelos dinâmicos mais sensíveis ao contexto do jogo, resolver o problema da escolha de “graus adequados de liberdade” (DoFs). (Krieger, 1992, pág. 36.) De acordo com Martin Krieger, os DoFs são as partes em que se decompõe um sistema, para melhor o “entender”. Ou seja, são variáveis que se podem alterar e manipular, com vista a que as mudanças induzidas no comportamento geral sejam sistemáticas e possam esclarecer a forma como o sistema funciona. É interessante constatar que, utilizando a Teoria dos Sistemas Dinâmicos (DST) como estrutura modeladora, é possível, em princípio, utilizar quaisquer DoFs à nossa escolha para descrever um sistema, mas apenas um subconjunto de todos os possíveis conjuntos de DoFs corresponderá adequadamente a variáveis que nos permitem prever e modificar o comportamento (Krieger, 1992). Essa não é uma questão irrelevante. Até certo ponto, a tarefa de descobrir os DoFs corretos pode ser tão difícil como a de projetar modelos, e parece ser esse o caso do futebol. No passado, ao estudar movimentos intencionais, como no exemplo da famosa tarefa de martelar, de Bernstein, identificaram-se claramente as medições das forças musculares ou, até, dos ângulos das articulações, como unidades puramente anatómicas, que fornecem medidas “más” (Turvey, 1986). De facto, as diversas unidades ao nível estrutural tornam extremamente desafiante dar uma explicação para tais ações. Assim, as teorias de controlo motor defenderam uma abordagem mais funcional ao movimento motor (Shaw e Turvey; Turvey e outros, 1981). As palavras de  Ghiselin (1981) são um bom exemplo do ponto de vista dos teóricos motores da época: “As estruturas que apoiam a ação não podem ser confundidas com a ação.” (Pág. 200.)

Hoje em dia, encontro o mesmo problema no futebol. Ao medirem, por exemplo, as distâncias dos jogadores em relação ao centroide da equipa, em vez de unidades funcionais que captam as relações  legítimas do sistema, essas métricas são um exemplo do nível anatómico (ou seja, estrutural) do sistema. Recorrendo à concepção de Ghiselin (1981), isso significa que as estrutura dos jogadores de futebol distribuídos a certas distâncias de um ponto estático (ou seja, o centroide) não devem ser confundidas com o comportamento de ordem superior que surge numa forma de funcionar legitimamente estruturada em contextos específicos do jogo. De facto, é verdade que o futebol gera processos emergentes, que o comportamento dos indivíduos se torna de certa forma coletivo, que alguns valores estatísticos podem esclarecer estados atuais e futuros do jogo, etc. Ainda assim, em primeiro lugar e acima de tudo, o futebol e as equipas desportivas em geral precisam de um guia de princípios estruturado para as questões fundamentais a que uma teoria do futebol deve responder. Essas questões, por sua vez, darão uma ideia dos DoFs relevantes para um modelo adequado.

Figura 1. Representa os desafios semelhantes que cientistas e técnicos têm de enfrentar para trabalhar no sistema de interesse. Em ambos os casos, a escolha incorreta dos graus de liberdade irá alterar radicalmente o resultado (ou seja, numérico ou comportamental), forçando (escravizando) o cientista ou técnico a compreender o resultado com base nas suas escolhas de DoFs e não como evidência para previsões comprováveis de um estilo de jogo ou uma  teoria assente em princípios.

Uma pessoa que jogue futebol ou treine com outros jogadores, enfrenta a mesma dificuldade em encontrar os DoFs corretos para alterar e melhorar o seu desempenho e o desempenho da equipa. E, partindo dessa abordagem bastante orientada para a prática, podem-se fazer algumas observações iniciais para direcionar a abordagem cientifica mais orientada para a teoria no sentido das questões apropriadas. Jogar futebol é uma habilidade que a pessoa vai desenvolvendo ao longo da vida. Essa variação da habilidade ao longo do tempo permite detetar o que permanece invariável, em termos dos parâmetros importantes em que melhoram e a que melhor se adaptam os jogadores de futebol. Na minha opinião, um desses parâmetros, que é imediatamente óbvio e, de facto, o mais importante, é a posição da bola. Num jogo entre crianças, a posição da bola parece ser o que direciona diretamente e quase exclusivamente os seus comportamentos. Elas pouco sabem sobre trabalho em equipa, movimentos táticos, triangulações ou, até, dribles. As crianças principiantes no futebol limitam-se a seguir sempre a bola, independentemente do que os outros jogadores estejam a fazer. Elas não demonstram ter qualquer sensibilidade em relação à estrutura da equipa ou coordenação com os outros membros da sua equipa e a equipa adversária. Em geral, quanto tem a posse da bola, a criança tentará simplesmente correr com ela para a baliza e, quanto não tem a posse da bola, a criança tentará apenas recuperá-la diretamente, indo atrás dela. Assim, a posição da bola e o jogador que tem a sua posse são os indicadores fundamentais do comportamento dos jogadores. Por outras palavras, as primeiras perguntas que devem ser feitas são: “Onde é que está a bola?”  e “quem é que tem a posse da bola?”.

Agora, consideremos o caso dos jogadores de futebol mais experientes. É evidente que os seus padrões de comportamento são significativamente mais complexos e parecem depender de bastantes parâmetros do jogo. O “onde” e “quem” da bola ainda serão os parâmetros principais que determinam os seus comportamentos?

Figura 2. Mostra a posição de certos jogadores da equipa em fase de reposicionamento, durante o desdobramento de uma jogada. Como sugerido em López-Felip e Turvey (2017), a existência de três zonas funcionais surge em função da posição dos jogadores em relação à bola. A linha curva em azul indica os jogadores numa zona imediata de intervenção, devido à curta distância que os separa da bola. A linha laranja indica uma zona de ajuda mútua, com os jogadores nas zonas de intervenção. E a linha verde indica uma zona de cooperação com as outras zonas, devido à considerável distância a que a bola se encontra.

Por mais que os meus mestres de futebol do FCB o pudessem confirmar, os seus colegas cientistas diriam sempre que o modelo serve precisamente para demonstrar em termos empíricos se esses parâmetros podem ou não ajudar a modelar o comportamento dos jogadores de futebol. Assim, independentemente de qual seja o aspeto do jogo ou do nível de análise que ele vise, qualquer modelo da dinâmica do futebol, na medida em que seja um modelo de futebol, terá de conter parâmetros que descrevam a posição da bola e quem tem a sua posse. O futebol é sem dúvida, um tipo de fenómeno coletivo, mas, ao contrário do que observamos no comportamento de, por exemplo, um bando de aves, centra-se na posição e no jogador que tem a posse de um elemento muito especial do coletivo, que, neste caso, é a bola.

Figura 3. a) Representa a sincronização geral da equipa, na fase de reposicionamento para uma jogada (~ 20 segundos) representada graficamente na Figura 1 (consulte os detalhes da análise em López-Felip e outros, 2018).  b) Mostra os padrões comportamentais da coordenação intraequipa como uma função da distância dos jogadores em relação à bola, durante a jogada da Figura 1. Resultados de análises indicam um declínio da coordenação funcional dos jogadores, que vai aumentando, à medida que eles se afastam da bola.

Em resumo, daqui se depreende que a bola e o jogador que tem a sua posse podem ser DoFs relevantes a ter em consideração quando se tenta entender (cientistas) e treinar (técnicos) o sistema em estudo (ou seja, o futebol). A mensagem a reter aqui é, portanto, que técnicos e cientistas devem estar cientes de que, se não escolherem os devidos DoFs, poderão escravizar as suas teorias sobre o jogo (cientistas) ou os seus estilos de jogo (técnicos). Por outras palavras, quando a escolha de DoFs de um cientista não parecer correta, as suas teorias tornam-se escravas da interpretação dos resultados do modelo matemático. Da mesma forma, se um técnico não manipular as variáveis corretas, em cada treino, para restringir o comportamento da equipa ao estilo de jogo desejado, o estilo torna-se escravo das más interpretações que o técnico faz das variáveis de jogo (DoFs) para conseguir o estilo de jogo desejado.

A publicação do próximo mês abordará a ontologia do futebol para responder a questões como: Que relações, de entre os DoFs, mantêm a natureza sistémica do futebol? Em primeiro lugar, o que é o sistema? e outras da mesma natureza.

 

Maurici A. López-Felip. Center for the Ecological Study of Perception and Action, USATeam Sports Department at Futbol Club Barcelona, Barça Innovation Hub, Espanha.

 

 

Referências

Ghiselin, M. T. (1981). Categories, life and thinking. The Behavioral and Brain Sciences, 4, 269-313.

López-Felip, M. A., & Turvey, M. T. (2017). Desideratum for GUT_ A functional semantics for sport. Human Movement Science, 1–0. http://doi.org/10.1016/j.humov.2017.05.002

López-Felip, M.A., Davis, T.J., Frank, T.D. & Dixon, J.A. (2018). A Cluster Phase Analysis for Collective Behavior in Team Sports. Manuscrito enviado para publicação. Human Movement Science, 59, 96-111 .

Shaw, R.& Turvey, M. T. (1981). Coalitions as models for Ecosystems: A Realist Perspective on Perceptual Organization. In M. Kubovy & J. Pomerantz, Perceptual Organization. Páginas 343 – 415. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Inc.

Turvey, M.T. (1986). Beyond anatomical specificity. Comment on Berkinblit, M. B., Feldman, A. G., & Fukson, O. I. Adaptability of innate motor patterns and motor control mechanisms. The Behavioral and Brain Sciences, 9, 624-625.

Turvey, M.T., Shaw, R.E., Reed, E.S., & Mace, W.M. (1981). Ecological laws of perceiving and acting: In reply to Fodor and Pylyshyn. Cognition, 9, 237-304.

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