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December 9, 2020

Gil Rodas: “No departamento médico do Barça devemos ser prudentes, mas jamais conservadores”

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Sua missão dentro do Barça é trabalhar fora do imediatismo diário. Não ter olhos para o próximo jogo nem para a próxima temporada, e sim usando o método científico de se ver mais além, o que acontecerá em uma década. Gil Rodas, é médico responsável do Barça Innovation Hub, e lançou as bases para um modelo de gestão no âmbito I+D+i da medicina esportiva pioneira no mundo e estabeleceu pautas para a conservação da saúde dos atletas e a otimização de seu desempenho. Dr. Rodas (em conjunto com sua equipe) tenta responder as perguntas sobre medicina do esporte que foram levantadas há décadas e ajuda a abordar e a refletir sobre problemas que elucidarão os que vierem dentro de vinte anos.

Quando ocorreu essa mudança de mentalidade tradicional, em se tratando de uma abordagem do esporte a partir de métodos científicos dentro do FC Barcelona?

A grande mudança aconteceu durante as temporadas de 2003 e 2004. Desde esse momento, a pedra fundamental foi a de se criar uma equipe multidisciplinar tanto dentro como fora da esfera de jogos e que fosse acompanhada constantemente com evidências científicas. Como médico do FC Barcelona, estive durante quatro anos no topo da equipe de futebol e nove anos na equipe de basquetebol. Mas foi em 2016, quando surgiu a oportunidade de criar um projeto de que há tempos falávamos a respeito. A ideia era unir experiências do gramado com especialistas da área.

No mundo dos esportes existem dois fenômenos ou realidades. O profissional, não pode levantar a cabeça no dia a dia, e, os especialistas conhecem a ciência, mas desconhecem a prática diária e o que se é exigido. Quisemos aproveitar as pessoas que haviam estado no banco, que conheciam essa problemática do clube e, em conjunto com a ajuda de especialistas, levar seu trabalho ao campo científico.

Os cientistas estão nos laboratórios. Para darem respostas necessitam de boas perguntas e assim se aproximarem mais da realidade. Por isso, é importante aproximar a ciência dos profissionais que vivem essa pressão diária do banco. Um âmbito diferente da ciência, mas que pode ser complementado. A partir daí criaremos difundidas para o mundo todo. Depois de um determinado tempo, vimos como a NBA não só contratou atletas, mas também cadastrou todos os profissionais do clube (médicos, preparadores físicos, entre outros) que desenvolveram essa mentalidade científico-prática, unificando novos conhecimentos.

O que motivou essa mudança?

Em nosso trabalho do dia a dia observamos que existiam problemas reincidentes de maneira assustadora: as lesões musculares e tendinopatias. Estivemos muitos especialistas em fisiologia e tendinopatia no mundo. Não tinham suficiente conhecimento assim como nós, pois não contavam com tecnologias para o desenvolvimento da medicina aplicada ao esporte.

Percebemos que buscávamos especialistas em todo o mundo e, nessa situação, chegamos à conclusão de que os melhores especialistas provavelmente éramos nós mesmos, pois lidamos com esse problema e o respectivo tratamento há anos. Assim, surge a ideia de se criar um Hub de conhecimento sobre lesões musculares e tendinopatias dentro do Barça, parte integrante do Barcelona, para os nossos companheiros locais e ambos, FC Barcelona e Barcelona, agora são um centro de referência internacional, para o tratamento e gestão destas lesões. Precisamos de mais de doze anos para celebrar o Medicine e nos reunimos com os especialistas mais renomados no Camp Nou, para que houvesse um intercâmbio de opiniões e novas práticas na área. Este ano, em função da pandemia o encontro será realizado de maneira virtual, o que permitirá a que mais profissionais possam participar e aprender com os especialistas do clube, colaboradores e convidados que também são especialistas na área.

Assim, as perguntas que, por exemplo, eu me fiz quando estive nos bancos, agora estou tentando responder. Da mesma forma, o trabalho que hoje realizo servirá provavelmente para os que chegarem ao clube nos próximos de dez anos. Por exemplo, recopilaremos amostras dos nossos atletas em um biobanco. Acreditamos que dentro de uma década haverá tecnologia e conhecimento suficiente para poder interpretar com maior precisão o que está acontecendo hoje.

Em que consiste o monitoramento das equipes?

Uma das estratégias preventivas mais importantes é o monitoramento. Controle da carga externa, exercícios realizados e carga interna, como tudo isso afeta diretamente o corpo humano. Monitoramos nossos atletas com tecnologia de tracking e o que conhecemos como “Sportsomics”: genômica, epigenômica, transcriptômica, proteômica e metabolômica. Uma corrente que estuda desde os genes até como se recebe influências dos fatores ambientais, tais como o que você come, como treina, onde e como dorme etc., e como isso provoca alterações nas proteínas e nas enzimas. Tudo isso afeta seus músculos, tendões ou qualquer outra parte do seu corpo. Assim, conforme a relação entre carta externa e interna, podemos oferecer alternativas para os técnicos e ainda nos adiantar quanto à fadiga dos nossos jogadores, evitando que eles se cansem ou se lesionem.

O trabalho está focado em controlar toda a rede de tratamento de uma lesão, desde a prevenção até o pico?

Na época, a primeira coisa que vimos foi a amplitude do problema. As lesões mais frequentes são as musculares e em seguida as tendinopatias. A partir daí, nos concentramos em buscar a etiologia das lesões, seus possíveis fatores de risco e os mecanismos lesionais. Fazemos isto, através de equipes multidisciplinares que envolvem não só clínicos, mas também epidemiologistas e especialistas em bioestatística, e bioinformática. Quanto mais informações tivermos melhores serão as chances de cura e prevenção, conseguindo assim, diminuir a magnitude dessas lesões.

No entanto, há anos estamos trabalhando nessa linha, tentando estabelecer protocolos mais avançados e conseguimos prevenir alguma lesão? Não. As lesões continuam aumentando. A cadeia é satisfatória, mas há algo que foge do nosso alcance.

E o que é?

A densidade e a intensidade. Isso não está sob controle. Cada vez há mais partidas e interesses. Quanto mais nos preparamos e corremos com uma maior intensidade, mais nos lesionamos e, em meio a tudo isso, precisamos encontrar um equilíbrio. Por mais que existam estratégias preventivas, acompanhadas de trabalhos analíticos, recomendações de uma alimentação adequada e sono regrado assim como cuidados com aspectos da vida em geral, o atleta acaba disputando três jogos em uma mesma semana e qual estratégia preventiva suporta isso? O primeiro passo para a prevenção é refletir sobre a direção que estamos indo dentro do futebol profissional.

Além do calendário, seria necessária uma mudança nas regras?

O futebol é um esporte tão clássico que ninguém quer tocá-lo, mas esportes como rugby e hóquei sobre grama mudaram as regras, permitindo alterações ilimitadas, por exemplo. No futebol não há vontade de se liberar tanto o regulamento, é um espetáculo que funciona por si só, mas faz que os atletas se lesionem cada vez mais.

É no futebol onde há uma incidência maior de lesões, tanto em homens quanto em mulheres. Por que não está permitido realizar oito alterações ao invés de cinco? Deveríamos exigir que os gramados estivessem sempre perfeitos em todos as partidas. Há condicionamentos por temperatura, não podemos jogar com 35 graus, por exemplo. Por mais que possamos fazer, há causas maiores que aumentam consideravelmente as lesões.

Na NBA quiseram realizar a liga de seis meses em apenas três, e com isso o resultado foi um aumentando exponencial de lesões. Se isso acontecesse, o espetáculo ficaria comprometido. Devemos ser mais cuidadosos. Na liga europeia de basquetebol há uma quantidade significativa de lesões.

Como se administra o retorno às atividades após uma lesão, o return to play?

Cientificamente falando, temos poucos indícios para poder afirmar se um atleta está pronto para retornar em um determinado dia. Essa precisão alcançaremos com o tempo e com a experiência. É necessária mais ciência para poder acertar 90% já que 100% é impossível. Então existirão mais condições. Se um atleta está parado há seis semanas, na quinta existe uma partida muito importante. O que acontece? Geralmente temos que acelerar tudo o que tivermos que fazer para atender esse prazo. Com estas margens, o atleta pensará que está bem e que pode jogar, o técnico dirá para ele ir adiante e nós teremos que ser prudentes, mas jamais conservadores. Se há um bem superior que o justifique, ele joga, mesmo aumentando o risco de reincidência de lesões.

Podemos afirmar que, sem este modelo de gestão, os clubes de elite já não poderão funcionar no futuro?

Todos já seguem essa linha, estabelecendo equipes multidisciplinares onde se consegue uma melhor gestão assim como decisões mais acertadas, com o objetivo de otimizar o desempenho. Se pudéssemos traçar uma analogia a faríamos com a Fórmula 1. No entanto, não podemos comparar todos os clubes. Existem outros que treinam a metade que o Barça e os atletas podem jogar mais lesionados, porque não há tanta pressão. Também estamos obrigados a ser grandes gestores do estresse, porque também é nocivo por si só. Uma partida com cem mil espectadores é um risco de lesão extremamente alto. Os atletas que não viveram essa experiência de crescer e jogar no Camp Nou, no primeiro ano parecem que se lesionam com mais frequência.

O que supôs o auge do futebol feminino a estes contextos?

As mulheres que praticam futebol se multiplicaram por cinco nos últimos anos, mas sobre elas ainda sabemos muito pouco. Existem poucas pesquisas sobre isso. Enfrentaremos um grande e importante desafio, porque existem grandes diferenças biofisiológicas entre homens e mulheres. Falamos sobre a mobilidade articular, sobre esqueleto, consumo metabólico, hormônios e nem por isso não devamos observar as diferenças cardiovasculares entre ambos os sexos. Todas as diferenças afetam as lesões que as atletas têm.

Ainda estamos em fase de questionamentos. As mulheres são cíclicas, os ciclos menstruais geram alterações hormonais que, por sua vez, geram alterações fisiológicas e metabólicas, influenciando no desempenho e nos índices de lesões. Muito pouco foi estudado sobre isso. No Barça trabalhamos para ter um conhecimento maior sobre as mulheres atletas nos esportes de equipe. Nos individuais, as ginastas, as corredoras etc., isso é um outro mundo e requer pesquisa e investigação.

O que estamos procurando é um atleta perfeito que sabe como se alimentar, dormir, treinar etc.?

O gênio absoluto não sabe aonde chegaremos, pode aparecer em qualquer lugar, mas estamos convencidos que daqui continuam saindo os melhores talentos. São um bem precioso do clube, porque se não seguirem conosco, que possam triunfar como atletas e como pessoas onde quer que estejam. Já está acontecendo com companheiros de outras equipes que receberam atletas formados pelo La Masía, nos comentam sobre o bom nível de preparo que se encontram, quanto aos hábitos alimentares, ao conhecimento de seu próprio organismo, às rotinas para se ter um bom descanso etc.

Isso nos orgulha imensamente porque amamos este clube, temos atletas que fazem a diferença e estão trilhando caminhos para outros clubes, em função da formação profissional e humana que receberam no clube e isso consolida a nossa visão e a maneira de ser e fazer.

 

 

 

 

 

BIHUB Team

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