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November 24, 2021

Medicina

Estratégias para reduzir os efeitos negativos das viagens nos atletas

By Pedro L. Valenzuela.

Viajar faz parte do dia a dia de muitos atletas, principalmente entre aqueles de elite. É comum que os atletas façam viagens curtas frequentemente todas as semanas, e até mesmo algumas viagens longas (>3 horas). As viagens, embora necessárias em muitas ocasiões, podem ter efeitos negativos na saúde e no desempenho dos atletas. Por exemplo, além da própria fadiga associada ao estresse e às horas de permanecer sentado, viajar frequentemente envolve mudanças nos fusos horários com consequentes alterações nos ritmos circadianos (um estado conhecido como ‘jet lag’), ligadas ao aumento da incidência de problemas gastrointestinais. É importante observar que a fadiga associada à viagem não está necessariamente ligada ao jet lag, e pode haver fadiga em qualquer tipo de viagem devido a vários fatores além da mudança de fuso horário (inatividade física, mudanças térmicas, estresse, etc.). Ainda assim, o jet lag é um estado mais grave e prolongado, e ocorre principalmente ao cruzar vários fusos horários (mais de 3).

Efeitos das viagens nos atletas

Existem numerosos estudos que demonstraram efeitos negativos das viagens no desempenho dos atletas. Por exemplo, um estudo com jogadores de rúgbi descobriu que em jogos fora de casa (sem mudança do fuso horário) os atletas sentiam mais fadiga nas pernas e dormência geral1. No entanto, os efeitos no desempenho físico são muitas vezes questionáveis devido à possível interferência da motivação para competir em casa ou num estádio alheio. Para evitar esse possível viés da motivação, outro estudo simulou as condições de viagens internacionais (24 horas) e domésticas (5 horas), produzindo, através de uma câmara hipobárica, um estado de hipóxia moderada como a causada num avião, e comparou esses efeitos com uma condição de controle. Os resultados mostraram que o voo internacional (simulado) provocou uma pior qualidade e quantidade de sono, bem como uma piora no desempenho físico em um teste de sprints intermitentes em comparação com a viagem doméstica e a condição de controle. Além disso, a fadiga percebida foi maior após o voo internacional2. Mas a viagem, além de ter implicações no desempenho, também pode afetar a saúde. De fato, um estudo publicado no prestigioso British Journal of Sports Medicine analisou 259 jogadores de rúgbi durante um período de competição de 16 semanas, e os resultados mostraram que a incidência de doenças aumentava após uma viagem internacional (> 5 horas de diferença horária)3. Portanto, é necessário projetar estratégias que minimizem os efeitos adversos das viagens nos atletas.

Ainda assim, as evidências científicas sobre a eficácia das intervenções destinadas a reduzir o jet lag em atletas são bastante limitadas ou de baixa qualidade. Por exemplo, uma revisão sistemática foi publicada recentemente que procurou avaliar os efeitos de diferentes estratégias tanto farmacológicas (por exemplo, melatonina, calmantes, estimulantes, etc.) e não farmacológicas (por exemplo, exercícios, sono, nutrição, luz) nos esportistas. Após analisar um total de 22 pesquisas, os autores concluíram que, embora existam alguns estudos preliminares que suportam os benefícios de algumas estratégias, a evidência é geralmente de baixa qualidade e com alto risco de viés4. Considerando a falta de evidência, um painel de especialistas internacionais incluindo médicos, cientistas, nutricionistas e fisioterapeutas publicou recentemente um artigo de consenso na prestigiada revista Sports Medicine, no qual definem algumas recomendações para reduzir os efeitos negativos das viagens e do jet lag.5

Estratégias para evitar os efeitos negativos das viagens

No tocante à fadiga associada a viagens sem jet lag (geralmente com duração de três horas ou menos), os especialistas recomendam que o objetivo principal seja promover o descanso e, dentro do possível, deixar um período de recuperação antes da competição. Para isso, são recomendadas estratégias como chegar descansado à viagem, aproveitar uma soneca após a viagem se possível, garantir a hidratação adequada e evitar a ingestão de bebidas cafeinadas, carbonatadas ou alcoólicas. Além disso, é aconselhável movimentar-se com frequência e alongar-se durante o voo, assim como reduzir a carga de treinamento ao chegar no destino.

Mais complicadas, no entanto, são as viagens que cruzam vários fusos horários, resultando em jet lag. Após esse tipo de viagens, o corpo sofre uma assincronia entre os relógios “periféricos” (guiados por fatores como luz e ruído) e os centrais, e estima-se uma demora de meio dia por cada fuso horário atravessado, para recuperar a sincronia total, se a viagem for feita para o oeste, e um dia para cada fuso horário se for feita para o leste. Durante esse processo é comum que os atletas apresentem fadiga física, problemas gastrointestinais, sonolência diurna e problemas para dormir à noite, sendo esses problemas maiores quanto mais zonas horárias são cruzadas. Para evitar esses problemas, recomenda-se ajustar os horários de sono e luz progressivamente antes de iniciar a viagem, para isso a modificação artificial da luz e o consumo de melatonina podem ser favoráveis. Por exemplo, se o atleta for viajar para o leste (onde terá que ir para a cama “antes”), é recomendado que ele receba a luz do sol o mais cedo possível naquela manhã, bem como evitar a luz do sol nas últimas horas do dia. Realmente a aplicação de intervenções que visam a promoção do sono (por exemplo, usar máscara, capacete e travesseiro durante a viagem e evitar o uso de aparelhos eletrônicos nas horas que antecedem o sono) e que modificam a exposição à luz artificial de acordo com o momento do dia, têm demonstrado que produzem uma melhora na quantidade de sono durante a viagem e nos dias seguintes, bem como reduzir os efeitos negativos do jet lag em alguns marcadores de desempenho físico, fadiga e sintomas de jet lag.6,7 Essas estratégias devem ser combinadas com outras, como as mencionadas acima, incluindo hidratação adequada, evitando bebidas alcoólicas ou carbonatadas, assim como alimentos muito calóricos, ou movendo-se assiduamente durante a viagem (por exemplo, a cada duas horas) nas horas em que o atleta não esteja dormindo. Além disso, em algumas ocasiões, a ingestão de hipnóticos como o Zolpidem ou o consumo de cafeína pode ser recomendável se o desejado for permanecer ativo.

Tabela 1. Resumo de algumas dicas para evitar os efeitos negativos dos voos nos atletas.

Conclusões

As viagens podem ter consequências importantes no desempenho e saúde dos atletas, especialmente no caso das viagens que cruzam vários fusos horários. Para evitar esses efeitos, principalmente o jet lag, é recomendado que os atletas adaptem progressivamente seus horários de sono e exposição à luz nos dias anteriores ao voo, embora isso nem sempre seja possível em esportes de elite. Além disso, outras estratégias como promover o descanso durante e após o voo – tentando sincronizar o horário de sono com a “noite” do horário de destino – e a hidratação adequada também ajudarão a minimizar os efeitos negativos dessas viagens. 

 Referências

  1.   McGuckin TA, Sinclair WH, Sealey RM, Bowman P. The effects of air travel on performance measures of elite Australian rugby league players. Eur J Sport Sci. 2014;14(SUPPL.1):37-41. doi:10.1080/17461391.2011.654270
  2.   Fowler P, Duffield R, Vaile J. Effects of simulated domestic and international air travel on sleep, performance, and recovery for team sports. Scand J Med Sci Sport. 2015;25(3):441-451. doi:10.1111/sms.12227
  3.   Schwellnus MP, Derman WE, Jordaan E, et al. Elite athletes travelling to international destinations >5 time zone differences from their home country have a 2-3-fold increased risk of illness. Br J Sports Med. 2012;46(11):816-821. doi:10.1136/bjsports-2012-091395
  4.   Janse Van Rensburg DCC, Jansen Van Rensburg A, Fowler P, et al. How to manage travel fatigue and jet lag in athletes? A systematic review of interventions. Br J Sports Med. 2020;54(16):960-968. doi:10.1136/bjsports-2019-101635
  5.   Janse van Rensburg DC, Jansen van Rensburg A, Fowler PM, et al. Managing Travel Fatigue and Jet Lag in Athletes: A Review and Consensus Statement. Sport Med. 2021;51(10):2029-2050. doi:10.1007/s40279-021-01502-0
  6.   Fowler P, Duffield R, Morrow I, Roach G, Vaile J. Effects of sleep hygiene and artificial bright light interventions on recovery from simulated international air travel. Eur J Appl Physiol. 2015;115(3):541-553.
  7.   Fowler P, Knez W, Thornton H, et al. Sleep Hygiene and Light Exposure Can Improve Performance Following Long-Haul Air Travel. Int J Sport Physiol Perform. 2020;16(4):517-526.

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