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Atualmente, uma das maiores preocupações dos treinadores e dos técnicos, principalmente numa altura em que se procede aos devidos ajustes ao banco, é a rápida construção do modelo de jogo, permitindo a rápida assimilação de certos comportamentos por parte dos jogadores. Os modelos de jogo tratam de definir os comportamentos ou soluções que os jogadores e a equipa devem por em prática, para que consigam cumprir os objetivos principais do futebol: marcar golo e evitar sofrê-lo. Neste sentido, assume-se que através de instruções e/ou tarefas de treino, os jogadores sejam capazes de agir de forma eficaz em situações de jogo concretas. Por exemplo, quando a equipa contrária pressiona grandemente ou quando ocorre a perda de bola numa determinada zona do campo. No entanto, surgem várias questões a este respeito: existem soluções ideais para certos contextos de jogo as quais, apesar das suas semelhanças, nunca poderão ser iguais? Devemos automatizar ou estabilizar comportamentos concretos, ou devemos preparar o jogador para que saiba enfrentar situações imprevisíveis? Entre as equipas que são treinadas para a execução e repetição de determinados comportamentos e as que são preparadas para se adaptarem a ambientes competitivos em mudança,  quem tem o melhor rendimento? Uma das premissas que deve ficar clara, para ser possível responder a estas questões, é que os desportos coletivos consistem de processos de cooperação e oposição, onde o comportamento dos jogadores de uma equipa deve ser suficientemente previsível para os seus companheiros e imprevisível para os oponentes (Hristovski, 2017) para que sejam cumpridos os objetivos locais (por exemplo, ganhar no um contra um) e o jogo global (ganhar o jogo). Se nos fixarmos nos painéis superiores da figura 1, vemos uma situação em que o médio da primeira equipa do F. C. Barcelona, Sergi Busquets, trata de dar continuidade ao jogo, evitando a pressão de um oponente. Concretamente, no painel superior esquerdo, parece que Busquets vai passar a bola ao lateral direito da sua equipa. No entanto, se observarmos o segundo posterior, vemos como o posicionamento da perna foi simplesmente um recurso para transmitir uma informação enganosa ao oponente direto. Assim, evitou-se que o drible anterior tivesse sido previsto pelo seu adversário, superando, assim, a sua perseguição, conseguindo progredir com um passe até ao campo contrário. Os painéis inferiores correspondem a uma situação de jogo onde o F. C. Barcelona pretende sair a jogar em passes curtos, recorrendo ao guarda-redes. No painel inferior esquerdo, vemos como a equipa se posiciona como habitualmente para que o guarda-redes possa jogar com alguns dos companheiros mais próximos de si. Perante esta disposição comum dos jogadores, é imprevisível a situação posterior apresentada no painel inferior direito, onde o guarda-redes Cillessen faz um passe longo para o campo contrário nas costas da defensiva adversária, algo que não é muito frequente no Barça, resultando numa resposta mais previsível para alguns dos companheiros do que para os adversários.

Figura 1. Situações de jogo onde se aumenta o grau de diversidade/imprevisibilidade de respostas individuais e coletivas.

Estes exemplos anteriores mostram-nos que os jogadores e as equipas se auto-organizam, mediante alterações que lhes permitam adaptar o seu próprio comportamento, em função das alterações de comportamento dos adversários, as quais não têm que ser proporcionais. Portanto, esta auto-organização é fruto da não-linearidade. Isto significa que grandes alterações ao contexto podem não alterar nada e que pequenas alterações ao contexto podem levar a grandes alterações qualitativas no comportamento de uma equipa.  A não-linearidade possibilita a existência de uma diversidade de soluções para uma tarefa ou contexto concreto. Portanto, um jogador ou uma equipa, como qualquer sistema não-linear, tem a capacidade de responder com um grande, mas finito, leque de comportamentos em vez de encontrar uma única solução para alcançar o mesmo objetivo (por exemplo, superar a grande pressão dos adversários). Esta diversidade de comportamento resulta numa dinâmica metaestável, onde existem curtos períodos de estabilidade local, juntamente com a instabilidade global a longo-prazo, provocada pela transição entre a diversidade das soluções exploradas (Bovier y Den Hollander, 2016). É importante que os treinadores compreendam esta questão, já que o grau de metaestabilidade (coexistência de estabilidade ou instabilidade) do sistema (equipa ou jogador) irá produzir um comportamento mais ou menos previsível (imprevisível), o que poderá ter grandes implicações no rendimento individual ou coletivo. O treino, portanto, deveria favorecer a criação de situações com grande informação, permitindo aumentar a diversidade de possibilidades para agir e, assim, explorar uma maior quantidade de soluções que sejam imprevisíveis para o adversário, sem o ser para os membros da própria equipa. Num trabalho anterior (Ric et al., 2016), foi demonstrado como determinados contextos de jogo podem modificar a quantidade de comportamentos estáveis e instáveis (grau de metaestabilidade) do conjunto de ações que os jogadores realizavam em zonas concretas do campo (ver figura 2). Isto permitiu concluir que o aumento de oponentes (situações de inferioridade numérica) alterava significativamente o grau de estabilidade dos padrões de comportamento individual, aumentando, talvez em excesso, a rigidez de certos comportamentos individuais (defensivos) e diminuindo, assim, a imprevisibilidade face aos oponentes. Por outro lado, a situação em superioridade numérica provocou nos jogadores uma maior diversidade de comportamentos e a diminuição das barreiras que separam certos padrões mais estáveis, permitindo que o comportamento individual dos jogadores fosse mais flexível e adaptativo.

Figura 2. Paisagem metaestável de ações em situações de desequilíbrio numérico (adaptada de Ric et al., 2016).

Assim, os treinadores, mais do que como instrutores, devem ser vistos como “criadores de contextos”. Contextos nos quais existe uma diversidade de soluções para o objetivo da tarefa. Em geral, existe imensa literatura que investiga o efeito das diferentes tarefas de treino a nível físico e fisiológico. No entanto, ainda se desconhecem os efeitos de certas situações de jogo sobre o comportamento individual e coletivo. É aqui que os investigadores desportivos, guiados pelos treinadores, preparadores e metodologistas deveriam trabalhar em conjunto para conhecerem os efeitos das suas propostas de tarefas e de treinos, assim como para evidenciarem as que maximizam a diversidade funcional que permite um comportamento mais imprevisível durante a competição.  

 

Ángel Ric, Área de Análise e Tecnologia Desportiva e Professor do INEFC    

 

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REFERÊNCIAS Bovier, A., & Den Hollander, F. (2016). Metastability: a potential-theoretic approach (Vol. 351). Springer. Hristovski, R. (2017). Unpredictability in competitive environments. In Torrents, C., Passos, P. & Cos, F. (Eds.) Book of Abstracts. Complex Systems in Sport, International Congress: Linking Theory and Practice (pp. 9-12). Lausanne, Switzerland: Frontiers Media SA. doi: 10.3389/978-2-88945-310-8 Ric, A., Hristovski, R., Gonçalves, B., Torres, L., Sampaio, J., & Torrents, C. (2016). Time scales for exploratory tactical behaviour in football small-sided games. Journal of Sports Sciences 34(18): 1723-1730. doi: 10.1080/02640414.2015.1136068

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