9 May, 2018

Os espaços no futebol sob uma perspetiva quantitativa

Desportos Colectivos
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Nas palavras de Johan Cruyff, “os jogadores, na verdade, têm posse da bola, em média, durante 3 minutos. Portanto, o mais importante é: o que fazer durante os outros 87 minutos em que não se tem a bola? É isto que determina a qualidade do jogador.”

As equipas mais estudadas e analisadas nos últimos anos têm como premissa o desenvolvimento do jogo através da posse da bola. Para além da ideia básica de simplesmente “dominar a bola durante o maior período de tempo possível”, estas situações de jogo incluem um grande e importante conjunto de ações, com e sem posse da bola, para criar melhores oportunidades de golo, por exemplo: criar diferentes tipos de superioridades, criar desordem na defesa, através de certos deslocamentos, construir o jogo a partir do guarda-redes, etc. Estas ações implicam dois conceitos subjacentes: a criação e a ocupação de espaços.

Estes dois conceitos têm sido tema recorrente da análise tática; no entanto, esta análise sempre partiu da observação subjetiva de treinadores e analistas, sem ser explorada intensivamente sob uma perspetiva quantitativa.
Javier Fernández (Lead Data Scientist e Researcher do FC Barcelona) e Luke Bornn (da Universidade Simon Fraser, Sacramento Kings) apresentaram um artigo no “12th annual MIT Sloan Sports Analytics”, realizado entre 23 e 24 de fevereiro de 2018, em Boston, onde propõem um modelo para quantificar a ocupação e a criação de espaço de valor durante o jogo aberto.

No artigo, define-se a ocupação do espaço no campo de jogo como o posicionamento contínuo do jogador numa área específica. Em simultâneo, o valor deste espaço ocupado quantifica-se mediante a posição relativa da bola, a proximidade do objetivo do oponente e, mais concretamente, o nível de posse do espaço, em relação à densidade de adversários dentro da área determinada.

Por outro lado, a “criação de espaço” define-se como a ação de afastar os adversários de determinadas áreas para criar disponibilidade espacial em zonas do campo que antes estavam ocupadas.

Com estas duas métricas, os autores propõem uma revisão do domínio de campo de jogo, um conceito que até ao momento a literatura sempre referiu desde a divisão do espaço em polígonos de Voronoi (Voronoi Tessellations), que considera a posição de todos os jogadores em campo e calcula o jogador mais próximo de cada ponto espacial, encontrando células dominantes para cada jogador. No entanto, esta abordagem não tem em conta que a distância entre os jogadores e a bola também influencia o posicionamento relativo e o nível de domínio do espaço, especialmente em desportos de grande campo, como o futebol.

O modelo de domínio de campo apresentado por Fernández e Bornn baseia-se na definição dos diferentes níveis de influência de cada jogador no espaço em função da sua posição e velocidade em relação à bola. Quando está próximo da bola, mas a bola se afasta da sua posição, o jogador terá menos possibilidade de a alcançar. Em contrapartida, se um jogador se encontra afastado da bola, mas a bola se desloca na sua direção, o seu nível de influência será melhor. Por sua vez, a velocidade do jogador tem um papel preponderante na definição da área de influência. Um jogador capaz de alcançar altos níveis de velocidade tem mais influência em determinado espaço, comparando com jogadores que estejam a caminhar ou a correr lentamente.

Para definir o domínio de campo de cada equipa, os autores consideram as influências de cada jogador em cada ponto do espaço e oferecem um valor de controlo como resultado de todas estas influências individuais.  O domínio do espaço é um elemento fundamental para identificar a ocupação e a criação de espaços, no entanto, ainda é necessária uma parte adicional da equação: o valor do espaço. Facilmente se pode argumentar que nem todos os espaços do campo têm o mesmo valor. Um método simples para determinar o valor do espaço poderia ser a distância em relação à baliza oposta. A priori, os espaços mais próximos da baliza têm um valor superior, dada a vantagem que podem oferecer se forem dominados. No entanto, pela própria dinâmica do futebol, o valor do espaço muda constantemente, dependendo de múltiplos fatores, como a posição da bola e dos jogadores.

Vantagem por ocupação de espaços

Dada a natureza dinâmica do futebol, os jogadores estão envolvidos num processo contínuo de ganhar e perder espaço. Um pequeno ganho de espaço pode acontecer quando os defesas mais próximos seguem a bola, quando esta se afasta do jogador, dando ao jogador um melhor domínio do espaço. No entanto, o mesmo pode acontecer numa situação de corrida a alta velocidade entre o avançado e o defesa, na qual o avançado se movimente um pouco mais depressa. Por outro lado, um ganho médio ou alto de espaço pode acontecer quando o jogador se desloca para um espaço livre. Por este motivo, é necessário definir um nível de ganho espacial, a partir do qual o espaço conquistado pode ser considerado uma vantagem ocupacional real e não uma consequência dos fatores contextuais de um movimento mais lento, em determinada situação. 

Vantagem por criação de espaços

A criação de espaço para os jogadores é um conceito que envolve dois ou mais colegas de equipa durante uma situação de ataque. Entre os principais tipos de atores, estão presentes: um criador e um ou mais recetores. O criador é um jogador que se desloca na direção de um determinado espaço, arrastando os adversários nesse processo. O comportamento de arrastamento  provoca a libertação do espaço anteriormente ocupado pelo adversário arrastado. Quando esse adversário esteve, anteriormente, próximo de um ou mais colegas de equipa, dizemos que esses jogadores recebem espaço criado pelo jogador que os atrai.

Um primeiro passo para a quantificação do jogo sem bolaCriar e ocupar espaços são dois conceitos geralmente treinados no futebol moderno. Durante o processo de treino, os treinadores interrompem e reestruturam exercícios para ensinar os jogadores a orientar-se e a deslocar-se na direção dos espaços e longe das zonas de baixo valor do campo. O modelo proposto por Fernández e Bornn pode ser um primeiro passo para se quantificar estes conceitos, incorporando a contribuição de cada jogador nas suas deslocações sem bola.

Para aceder à publicação “Wide Open Spaces: A statistical technique for measuringspace creation in professional soccer” clique aqui

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