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26 February, 2019

CONTRA A PSEUDOCIÊNCIA DO DESPORTO

Análise e Tecnologia Desportiva
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Seria perfeitamente impensável que a formação ou a prática profissional em Medicina, em Biologia ou em Engenharia não se baseasse em evidências científicas. Apesar disso, e ainda que paradoxal, é muito comum encontrar conteúdos que estão longe de serem fundamentados, nomeadamente, nas ciências da atividade física e do desporto. Foi isso que revelou, efetivamente, um estudo recente sobre as ideias e práticas que circulam entre os instrutores do Reino Unido, um dos países à cabeça das ciências do desporto. Soou o alarme e, para que se tome consciência do problema, vai-se publicar um artigo de opinião na revista Apunts. Educación Física y Deportes, a expor as cinco suposições que favorecem estas práticas, bem como algumas possíveis soluções. Nesse artigo participaram Isaac Guerrero, membro da Área de Conhecimento do F.C. Barcelona, Natalia Balagué e Rafel Pol, membros do Grupo de Investigação em Sistemas Complexos e Desporto do Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha e participantes do Master de Treinadores de Futebol Profissional do clube.   Um problema vulgar com diversas causas “Trata-se de um problema muito abrangente de que talvez tenhamos muito pouca consciência”, explica Balagué. “Curiosamente, parece que aumentou a par da maior facilidade de acesso à informação (científica e não tão científica) através da Internet, muito embora um paradoxo.” Nos últimos anos, a prática profissional evoluiu de uma forma um pouco anárquica, “retocando-se muitas vezes a fachada sem se rever as fundações”, denuncia. Estas são as cinco principais suposições ou crenças que os autores instam combater:

  • O desporto é um fenómeno demasiado complexo para ser estudado cientificamente: tradicionalmente, as ciências do desporto eram dominadas pela ciência biológica mais clássica. No entanto, a visão mais moderna abraça essa complexidade e propõe que se “encare o atleta, a equipa e o jogo sob uma nova perspetiva, com base em princípios dinâmicos. Uma perspetiva que revoluciona a biologia, envolvendo especialmente a física e as matemáticas da complexidade”, explica Balagué. Essa perspetiva permite sintetizar os princípios subjacentes ao comportamento desportivo, melhorando a compreensão da sua evolução e fornecendo critérios de intervenção eficazes. Apesar da sua lenta implantação, fruto da resistência das práticas tradicionais, é uma aposta de futuro promissora para abordar o fenómeno desportivo.

 

  • Subestima-se o papel da ciência básica não só no desporto, como, até, na ciência em geral: contudo, a ciência tanto pode ser básica como aplicada, quando associada a cada disciplina da atividade física, seja a nível da bioquímica, da psicologia, da física ou da sociologia. Com efeito, o desporto “é um banco de provas excecional para a ciência, porque permite estudar diferentes dimensões (fisiológica, psicológica, sociológica, etc.) do comportamento humano e social, num espaço temporal e físico bem delimitado. Em condições naturais, seria muito mais lento e laborioso explorar os referidos comportamentos, especialmente sob condições de máxima pressão. O desporto é essencialmente uma manifestação dos processos de cooperação e competição que ocorrem na natureza; a vida submetida a pressão”, define Balagué. Para o desporto, a ciência básica e a ciência aplicada são igualmente fundamentais, tendo em conta que a primeira não se pode restringir à física ou à bioquímica. Por exemplo, não podemos compreender fenómenos como a fadiga ou a tomada de decisões apenas com base em processos bioquímicos e eletrofisiológicos. É necessário desenvolver teorias a nível comportamental que ajudem a compreender melhor os referidos processos. As novas teorias dão lugar a novas metodologias de treino, que, por sua vez, inspiram novas linhas de investigação aplicada.

 

  • No desporto, a prática e a experiência são mais importantes do que a teoria: a prática proporciona um conhecimento riquíssimo mas subjetivo — um conhecimento não científico que não permite formular teorias. Desta forma, não há episódio ou testemunho que possa substituir as provas sistemáticas. Teoria e prática andam de mãos dadas, para permitir uma revisão e renovação constante de uma e outra. É indispensável atualizar a compreensão teórica dos fenómenos relacionados com o desporto, porque, como dizia o matemático e filósofo inglês K. Lewin, “não há nada mais prático do que uma boa teoria.”

 

  • Todas as teorias têm uma parte de verdade e são igualmente aceitáveis: esta crença permite a coexistência de teorias por vezes incompatíveis entre si nas ciências do desporto e leva a que os profissionais confundam suposições e fundamentos contraditórios. Os modelos e teorias científicos — incluindo os que parecem intocáveis — evoluem e vão sendo substituídos por outros que explicam ou prevêem melhor a realidade. No entanto, para se promoverem práticas mais coerentes, é preciso abdicar de umas e adotar outras.

 

  • Há ciências “duras” (as biológicas) e “brandas” (as sociais): a superioridade das ciências biológicas sobre as sociais é um preconceito infundado e generalizado. Pensa-se que a ciência só pode ser feita em laboratórios com instrumentos de medida de alta precisão, mas a verdade é que a ciência não se caracteriza por esses estereótipos, mas pelo contraste dos dados da realidade com as teorias. O problema é encontrar formas de medida adequadas. Os conceitos relacionados com o comportamento acabaram por ser desvalorizados, uma vez que é muito mais difícil analisá-los em laboratório do que, por exemplo, a atividade de uma fibra muscular. “Além disso, assiste-se a uma banalização das questões das ciências sociais (ou do desporto) de certa forma promovida pela proliferação de opiniões sem quaisquer fundamentos científicos”, explica Balagué. “Mas é um erro. Na verdade, os valores pessoais ou a motivação, cuja evolução se faz mais lentamente, ou seja, que se mantêm mais constantes no tempo do que muitos parâmetros biológicos (como os níveis de lactato no sangue), têm um efeito mais duradouro e, nesse sentido, mais relevante, sobre o organismo.”

    Alguns conselhos e propostas Entre as recomendações sugeridas no artigo, encontram-se algumas, como estas: rever adequadamente os programas de formação com base em critérios de qualidade científica; fomentar a colaboração entre disciplinas com uma mente cientificamente exigente e, ao mesmo tempo, aberta ao progresso do conhecimento; ajudar os alunos a distinguir ciência de pseudociência; e valorizar o desporto como fenómeno útil para a ciência em geral. Para Balagué, a recomendação geral é: “descartar as receitas gerais descontextualizadas e compreender melhor os fenómenos relacionados com o desporto. Alunos e instrutores devem ter consciência de que a ciência é um contínuo e que devemos prestar atenção à sua evolução. A experiência profissional é importante, mas os perfis profissionais prático-científicos têm mais probabilidades de êxito.”   A equipa do Barça Innovation Hub

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