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2 January, 2021

Consequências do isolamento para atletas profissionais

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A pandemia levou muitos países a implementar várias estratégias preventivas, como o isolamento, sendo esta a mais radical. A maioria das pessoas, inclusive os atletas, se viu obrigada a ficar em casa como medida de prevenção para a propagação do vírus. Estas restrições nos deslocamentos levaram a reduções nas atividades físicas em geral, trazendo consequências fisiológicas para todas as pessoas, ou seja, a perda de massa muscular e de força, assim como comprometimentos nas capacidades cardiorrespiratória e saúde metabólica, em especial, para os atletas, mesmo já acostumados com a prática de altas cargas de treinamento.1

Efeitos do período de inatividade física nos atletas

Em diversos artigos científicos, observamos que já tinham sido apresentados anteriormente os efeitos negativos de várias semanas sem treinamentos ou com redução expressiva nas cargas de treinamento dos atletas, efeito este conhecido como destreinamento.2 Um estudo recente mostrou que duas semanas sem treinamento, por exemplo, são suficientes para reduzir o desempenho em um teste intermitente de alta intensidade nos atletas semiprofissionais de futebol, embora não tenham reduzido o desempenho em outros indicadores de agilidade, força ou sprint.3 Da mesma forma, uma checagem sistemática concluiu que, períodos de 7 semanas de destreinamento (algo similar a uma situação de confinamento) em atletas profissionais de rugby e futebol americano, resultaram em uma perda de força e potência de 14,5 e 0,4%, respectivamente.4  Além disso, duas semanas de destreinamento levaram a agravamentos na capacidade oxidativa muscular e no desempenho do intervalo de alta intensidade em atletas profissionais de alto rendimento.5 Entretanto, é importante mencionar que, outras pesquisas realizadas em atletas profissionais do futebol mostraram que, se o treinamento de alta intensidade for incluído durante um período de destreinamento, mesmo com uma redução de volume em até 30%, poderíamos evitar estas adaptações negativas assim como melhorar o desempenho.5,6 Por isso, atualmente recomendamos que exista introduções aos treinamentos de alta intensidade com o objetivo de manter as adaptações por períodos onde o volume de treinamento já é reduzido tais como acontecem em férias.2

Efeitos do confinamento em atletas

Com base em todas estas evidências, durante o auge da pandemia, foi previsto em vários artigos que os atletas de alto rendimento sofreriam determinados níveis de destreinamento durante o período de isolamento.7,8 No entanto, as evidências começaram a surgir recentemente.

Uma pesquisa realizada pela equipe do Dr. Jesús Pallarés realizada com 18 ciclistas profissionais demonstrou que, apesar de ser um esporte que conseguiu manter relativamente as cargas de treinamento durante o isolamento, graças ao uso do rolo de treino, os atletas diminuíram o volume de treinamento em 34%, resultando em uma perda de desempenho em testes de 5 (12% em média) e 20 minutos (9% em média).9

Por outro lado, uma pesquisa realizada por pesquisadores espanhóis e liderada por Marc Madruga Parera, preparador físico da segunda divisão do FC Barcelona, analisou os efeitos dos 49 dias de confinamento em 30 atletas semiprofissionais do futebol.10 Para isso, eles avaliaram o desempenho da musculatura isquiotibial com exercícios Nórdicos, ao usar verificações realizadas por vídeo, conforme comentado em artigos anteriores, o que permitiu o monitoramento dos níveis de força à distância. Conforme demonstrado na Figura 1, o ângulo de Breakpoint durante o referido exercício diminuiu 4,4% entre os dias 14 e 49 do confinamento, o que se significa uma perda de força excêntrica de 14%.10 Estas adaptações são especialmente preocupantes pois, conforme já havíamos comentado em outras ocasiões, baixas resistências da musculatura isquiotibial são fatores significativos de risco de lesões.

Figura 1. O efeito dos 49 dias de confinamento sob um ângulo de caída (breakpoint) e a força excêntrica medidas durante os exercícios Nórdicos em atletas profissionais de futebol. Imagem obtida de Moreno-Pérez (2020).10

Por outro lado, uma pesquisa realizada por pesquisadores brasileiros verificaram em 23 atletas profissionais de futebol antes e depois dos 63 dias de confinamento, comparando essas mudanças com as que ocorreram durante um período de 24 dias de férias no ano anterior.11 Os resultados demonstraram que, durante o confinamento, os atletas apresentaram um maior ganho de peso corporal e gordura, o que agravou de forma significativa seu desempenho em sprint (10 e 20 metros) e saltos.

É importante observar que, estas adaptações não só ocasionaram pioras no desempenho dos atletas ao retornarem à prática esportiva, como muito provável, também resultaram em um maior risco de lesões. Em 2011, por exemplo, houve uma paralisação esportiva de mais de 3 meses na National Football League (NFL), em consequência de uma greve, onde os atletas não puderam treinar normalmente, frequentar as instalações esportivas e até mesmo os serviços médicos. Após a retomada das práticas esportivas, as lesões esportivas aumentaram exponencialmente. Assim, enquanto as temporadas anteriores apresentaram uma incidência de aproximadamente 5 lesões do tendão de Aquiles em todo o período, na temporada logo após a greve, ocorreram 10 lesões somente durante os primeiros 12 dias de retorno à prática esportiva (Figura 1).12

Conclusões

Em resumo, períodos de destreinamento, tão longos como aqueles produzidos pelo confinamento, podem significar uma perda importante no desempenho de atletas que tentaram manter seus níveis de treinamento em casa, seja com circuitos de força, exercícios de alta intensidade etc., o que também trouxe o aumento do risco de lesões. Estas adaptações devem ser consideradas pelo departamento técnico, no intuito de realizar um aumento progressivo das cargas de treinamento e do nível dos campeonatos com retorno à normalidade.

 

Pedro L. Valenzuela

 

Referências

  1. Narici M, De Vito G, Franchi M, et al. Impact of sedentarism due to the COVID-19 home confinement on neuromuscular, cardiovascular and metabolic health: Physiological and pathophysiological implications and recommendations for physical and nutritional countermeasures. Eur J Sport Sci 2020; 0: 1–22.
  2. Mujika I, Padilla S. Detraining: Loss of training induced physiological and performance adaptation. Part I. Short term insufficient training stimulus. Sport Med 2000; 30: 79–87.
  3. Joo CH. The effects of short term detraining and retraining on physical fitness in elite soccer players. PLoS One 2018; 13: 1–15.
  4. McMaster DT, Gill N, Cronin J, et al. The development, retention and decay rates of strength and power in elite rugby union, rugby league and american football: A systematic review. Sport Med 2013; 43: 367–384.
  5. Christensen PM, Krustrup P, Gunnarsson TP, et al. VO2 kinetics and performance in soccer players after intense training and inactivity. Med Sci Sports Exerc 2011; 43: 1716–1724.
  6. Thomassen M, Christensen PM, Gunnarsson TP, et al. Effect of 2-wk intensified training and inactivity on muscle Na +-K+ pump expression, phospholemman (FXYDI) phosphorylation, and performance in soccer players. J Appl Physiol 2010; 108: 898–905.
  7. Andreato L V., Coimbra DR, Andrade A. Challenges to Athletes During the Home Confinement Caused by the COVID-19 Pandemic. Strength Cond J 2020; 42: 1–5.
  8. Sarto F, Impellizzeri F, Spörri J, et al. Impact of potential physiological changes due to COVID-19 home confinement on athlete health protection in elite sports: a call for awareness in sports programming. Sport Med; In press.
  9. Muriel X, Courel-Ibáñez J, Cerezuela-Espejo V, et al. Training Load and Performance Impairments in Professional Cyclists During COVID-19 Lockdown. Int J Sport Physiol Perform; In press.
  10. Moreno-Pérez V, Del Coso J, Romero-Rodríguez D, et al. Effects of home confinement due to COVID-19 pandemic on eccentric hamstring muscle strength in football players. Scand J Med Sci Sport 2020; 30: 2010–2012.
  11. Grazioli R, Loturco I, Manfredini Baroni B, et al. COVID-19 quarantine is more detrimental than traditional off-season on physical conditioning of professional soccer players. J Strength Cond Res; In press.
  12. Myer GD, Faigenbaum AD, Cherny CE, et al. Did the NFL lockout expose the achilles heel of competitive sports. J Orthop Sports Phys Ther 2011; 41: 702–705.

 

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