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14 April, 2021

Como surge a criatividade no esporte

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Em 1968, Dick Fosbury surpreendeu o mundo com uma nova técnica de salto em altura nos Jogos Olímpicos do México. Até então, o recorde mundial era o do soviético Valeri Brúmel, que adotava o estilo rolo ventral, voltado para frente e transpondo o sarrafo no topo com um movimento cruzado. Fosbury quebrou todas as convenções com sua corrida em curva e salto para trás na direção transversal, mas ganhou o ouro e estabeleceu um recorde olímpico. O público, pela primeira e única vez, não festejou a entrada do vencedor da maratona, que também acontecia naquele momento, diante da expectativa em função da inovação. Hoje, todos os atletas de salto em altura usam essa técnica. Na época foi debatido se sua criatividade havia surgido em virtude da sua imaginação ou devido às suas limitações, uma vez que estas são intrínsecas ou impostas pela tarefa, além de significarem uma boa fonte de criatividade devido à necessidade de adaptação ao contexto, mas a hipótese predominante foi uma mudança fundamental na própria situação, que abriu novas possibilidades de ação para Fosbury, que foi a introdução do colchonete por trás do sarrafo.

Assim os pesquisadores Dominic Orth, John van der Kamp, Daniel Memmert e Geert J.P. Savelsbergh acreditam em seu artigo de 2017 Creative Motor Actions As Emerging from Movement Variability. As ações criativas dependem tanto das características do indivíduo quanto do ambiente onde elas devem acontecer. Uma explicação que difere das abordagens tradicionais que consideram que o cérebro, a partir de uma posição hierárquica superior, concebe ações criativas que seriam então colocadas em prática. Esta explicação diferenciou-se entre a geração de ideias e sua execução, quando foi demonstrado que a ação é uma parte integrante da criatividade. Portanto, soluções criativas surgiriam somente no ato e durante a ação, não antes disso. São produtos fruto de constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente. Seria incoerente dissociar a elaboração mental da execução.

No conceito tradicional do comportamento criativo, entendido como um processo exclusivamente psicológico, seria definido por sua originalidade, pelo incomum da decisão tomada; por sua flexibilidade, pela variedade ou diversidade dessas ações, por sua fluidez e pelo número de decisões geradas em função da variabilidade.

Na literatura científica, Joy Paul Gilford, nos anos 70, distinguiu duas operações para resolver um problema: pensamento convergente e divergente. O primeiro é baseado na associação de ideias para encontrar uma resposta, seria um esquema rígido; o segundo, na apresentação de uma grande variedade de respostas para um mesmo estímulo, uma forma de pensar que não se fundamentaria na experiência, como a anterior. Gilford entendeu que a criatividade era fruto deste pensamento divergente. Ao mesmo tempo, E. Paul Torrance, nessa mesma etapa, separou o pensamento da ação e definiu uma pessoa criativa como aquela que desenvolveu sensibilidade a partir das deficiências do processo, o que o motivaria a formular hipóteses ou especulações para poder modificá-lo. Ambas as explicações resumem o aprendizado e o treinamento de um atleta.

No desenvolvimento de sua teoria, os pesquisadores Orth, Van der Kamp, Memmert e Savelsbergh partem do princípio de que a ciência sempre esteve muito interessada em compreender a fonte da criatividade. Não é por acaso que ela desempenha um papel fundamental nos avanços e transformações alcançados através do esforço humano. Nesta linha de pensamento, pesquisas são geralmente desenvolvidas para analisar como uma pessoa cria ideias para resolver um determinado problema. Se a criatividade é entendida como a solução original, porém viável para um problema, concluiu-se que as ideias criativas surgem a partir da variação das soluções possíveis. Assim, quanto maior a variabilidade, maior a probabilidade do nascimento de uma ideia criativa. Algo muito parecido acontece no esporte.

Há pesquisadores, como David Cárdenas Vélez, coautor da Neurociencia, Deporte y Educación, que considera, nesta perspectiva, o papel do técnico como determinante para aumentar a criatividade de um atleta ou, ao contrário, para inibi-la, como é tradicional no uso de metodologias com estratégias didáticas que reproduzem modelos fechados de comportamento que limitem os níveis de liberdade e/ou projetem tarefas com pouca variabilidade.

A variabilidade será sempre determinada pelas características contextuais em que as ações motoras acontecem, ou seja, serão criativas de acordo com o indivíduo, a tarefa e o ambiente. Esta capacidade, conhecida como criatividade motora, está relacionada à adaptabilidade contextual. É uma forma de ação adaptativa a novas situações, que no contexto esportivo acontecem de forma contínua.

Os técnicos do futebol de base do FC Barcelona projetam SSPs que apoiam esta criatividade motora, utilizando procedimentos básicos propostos pela área de metodologia, como exercícios rondo, jogos de posições e situacionais, principalmente. Todos eles trazem a inerente particularidade de simular contextos abertos de alta especificidade, ou seja, não limitam o atleta de forma excessiva, mediante a redução dos níveis de liberdade, seja de regras ou de instruções verbalizadas pelo técnico, garantindo assim, que o atleta se adapte ao contexto de mudança que ocorre e que, portanto, a criatividade motora surgirá a partir de sua flexibilidade já treinada. Consideramos que atletas flexíveis sejam capazes de se adaptarem melhor aos diversos contextos de jogo, especialmente aqueles que se afastam do que é experimentado em um maior número de ocasiões durante as práticas de treinamento e os campeonatos (Damunty Guerrero, 2021).

De fato, nos documentos que registram as sessões práticas, os técnicos são convidados a refletir se seus projetos de SSPs são de índole exploratória, orientação ou de natureza específica de jogo. As SSPs de orientação reduzem ligeiramente os níveis de liberdade dos atletas e/ou introduzem regras que orientam ou facilitam sua tomada de decisão. Neste caso, não é gerado um contexto ideal para a criatividade do atleta, mas pode servir, por exemplo, para que os atletas, em especial os novatos, possam atender a determinadas fontes de informações que os técnicos considerem interessantes, facilitando percepção, bem como compreensão do que acontece nestes contextos quando uma ação é realizada, porque é mais estável e mais propensa a que determinadas ações provoquem modificações semelhantes de situações em resposta a elas.

Por outro lado, há o projeto exploratório acima mencionado. Neste caso, geralmente, o atleta atua com maior nível de liberdade, aumentando a variabilidade de suas ações e permitindo uma adaptação ao contexto de diversas formas, de acordo com as possibilidades de ação que surgem, também em interação com suas habilidades e capacidades. Entretanto, este contexto aberto de prática é normalmente complementado com algum constrangimento ou restrição em um determinado grupo de atletas. Como informado no início, estas restrições são uma boa maneira de perturbar o atleta que, em virtude de querer continuar sendo eficiente em seu jogo, terá que se adaptar às limitações propostas, executando ações inusitadas, ou seja, criativas.

Finalmente, na mistura desses dois tipos de projetos, existe o jogo específico, que conserva as características necessárias para que o atleta se desenvolva com a liberdade necessária para dar suporte à criatividade, mas é ligeiramente orientado porque incorpora as regras do próprio jogo, que seriam as situações de fora de jogo, existência de balizas, área de meta etc., e, além disso, por opção e habituais demarcações com estruturas próprias do dia do jogo que orientam ainda mais estes atletas a manifestarem, neste caso, certos tipos de comportamentos relacionados com o seu próprio papel.

É interessante a otimização das ações criativas, pois, em primeiro lugar, elas são um sinal evidente de que o atleta que as executa apresenta as habilidades necessárias para se adaptarem às situações de jogo, que é a base do sucesso devido à alta imprevisibilidade que o futebol apresenta e, em segundo lugar, porque, em certos casos, se a criatividade não se limita apenas a novas ações para o atleta, torna-se incomum ou esperada para os adversários, além de imprevisíveis, gerando incerteza e ao mesmo tempo surpresa para eles.

Além disso, observamos em pesquisas como a Executive Functions Predicts the Success of Top-Soccer Players, que no futebol existe sim uma relação entre criatividade e desempenho. Os atletas que fizeram mais gols e realizaram mais lances durante uma temporada, foram as que apresentaram os mais altos níveis de flexibilidade cognitiva. Um exemplo disso são as equipes masculinas e femininas da liga sueca. Da mesma forma, na Qualitative and quantitativechange in thedynamics of motor learning foram verificados que, durante a aprendizagem de uma disciplina esportiva, se o aluno tiver oportunidades de descobrir e desenvolver novas soluções de coordenação e controle, conceitos estes que se referem à forma como um atleta modifica seu comportamento durante a aprendizagem, esta liberdade estava totalmente associada às melhorias no seu desempenho.

Em seu trabalho, Orth, van der Kamp, Memmert e Savelsbergh concentram sua atenção nos tipos de treinamento em que se jogam com mudanças de distâncias para estimular a criatividade dos atletas. Podemos citar alguns exemplos como o de afastar a cesta dos atletas profissionais de basquete ou o saco dos boxeadores, ou seja, manipular os constrangimentos de um jogo ou uma disciplina durante sua prática. Assim, chegaram à conclusão de que as estratégias metodológicas devem evoluir para a introdução de tarefas motoras que incentivem os participantes na busca ativa de soluções, isto significa, fundamentalmente, tarefas de projetos exploratórios.

 

Xavier Damunt é membro da Área de Metodologia do FC Barcelona

 

Bibliografia:

Damunt, X. & Guerrero, I. (2021). El entrenamiento sistémico basado en las emociones. FdL

Orth D, van der Kamp J, Memmert D, Savelsbergh GJP. Creative Motor Actions As Emerging from Movement Variability. Front Psychol. 2017

Vestberg T, Gustafson R, Maurex L, Ingvar M, Petrovic P (2012) Executive Functions Predict the Success of Top-Soccer Players.

Liu YT, Mayer-Kress G, Newell KM. Qualitative and quantitative change in the dynamics of motor learning. J Exp Psychol Hum Percept Perform. 2006

VV.AA (Wanceulen Editorial, 2018) “Neurociencia, Deporte y Educación)

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