4 October, 2019

COMO A EPIDEMIOLOGIA DAS LESÕES PODERIA AJUDAR A ENTENDÊ-LAS E GERENCIÁ-LAS MELHOR NO BASQUETE PROFISSIONAL

Medical services and wellness
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No basquete, como em qualquer outro esporte profissional, a possibilidade de uma mudança no paradigma médico constitui uma notícia de grande transcendência. O descobrimento de nova informação sobre as lesões, principalmente aquelas que provocam períodos de time loss (períodos de baixa) nos jogadores, que são as mais preocupantes para equipes e torcedores, poderia produzir uma revisão não só para a preparação física e para a atenção médica, mas também para a melhor otimização do desempenho esportivo. Um estudo de recente publicação aponta para essa mudança de paradigma. Mas a que nos referimos concretamente ao falarmos de um novo paradigma?

Tradicionalmente, foi considerado que a lesão mais frequente no basquete, e a que causa mais baixas nas equipes, é a lesão de tornozelo. Embora a bibliografia científica sobre a epidemiologia do basquete não seja muito ampla, pensava-se que os problemas de tornozelo distinguiam o basquete do futebol, onde as lesões musculares são as que apresentam maior incidência, muito acima de outros tipos de lesão. Esta ideia ditou quais eram as necessidades médicas primordiais do basquete, determinando os protocolos de treinamento e a prevenção de lesões. Contudo, é uma ideia que poderia começar a mudar devido aos últimos estudos científicos, um deles, o recentemente publicado na revista científica Orthopaedic Journal of Sports Medicine. Tal estudo está encabeçado pelo doutor Gil Rodas, responsável pela área Médica do Barça Innovation Hub e médico da equipe titular de basquete do FC Barcelona durante o período da pesquisa (2007 a 2015), e pelo professor/pesquisador da Universidade de Vic – Universidade Central da Catalunha (UVic-UCC), Martí Casals, que também colabora como bioestatístico e especialista em epidemiologia do departamento de Ciências do Esporte do FC Barcelona – Barça Innovation Hub. O estudo aponta a uma nova direção: no basquete, contrariamente ao que sempre se acreditou, as lesões musculares também poderiam ser as que provocam baixas com maior frequência.

Gil Rodas e Toni Bové
Martí Casals

Há nove anos, o doutor Rodas observou a tendência de que talvez as lesões musculares poderiam ser mais frequentes na equipe de basquete. Como a preponderância das lesões musculares sobre as de tornozelo não entrava no paradigma geralmente aceito, ele começou a recopilar dados de maneira paralela à sua atividade clínica para a equipe. Com o objetivo de contrastar a nova hipótese, e seguindo o método científico, ele propôs ao professor/pesquisador Casals trabalhar, usando um pensamento estatístico e científico, uma aproximação epidemiológica do problema. Assim foi iniciado o estudo que foi forjado com um intenso trabalho de campo, mas que foi muito mais além da mera acumulação de dados, pois foi aplicado um enfoque multidisciplinar para a interpretação dos dados coletados. Também participou do estudo uma equipe de profissionais e pesquisadores: Daniel Medina, ex-médico da equipe titular de futebol do FC Barcelona e com experiência na NBA (Philadelphia 76ers); Toni Caparrós, ex-preparador físico do FC Barcelona e também com experiência na NBA; o médico especialista em prevenção de lesões Dai Sugimoto, da Harvard Medical School; o médico especialista em esporte de alto desempenho Bruce Hamilton, do Millennium Institute of Sport and Health; o fisioterapeuta Toni Bové, cuja ampla experiência na elite inclui mais de três décadas na equipe titular de basquete do F.C. Barcelona; e um professor/pesquisador especialista em estatística, Klaus Langohr, da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) e do grupo de pesquisa GRBIO, da mesma universidade. Todas estas contribuições permitiram combinar a experiência profissional in situ de cada um deles com a bagagem acadêmica para construir, corrigir e refinar uma base de dados elaborada através de um estreito seguimento da equipe, tudo isso com um método científico que implicou “apesentar um problema, recopilar a informação, corrigindo e controlando com rigor os possíveis erros ou viéses, e efetuar uma primeira análise descritiva”.

Os resultados deste estudo sobre epidemiologia lesional em uma equipe profissional de basquete (F.C. Barcelona) parece corroborar o padrão da hipótese inicial sobre a nova tendência de lesões musculares que, em equipes profissionais, não parece ser o mesmo no basquete universitário. As lesões de tornozelo, que eram consideradas as mais típicas do basquete, neste estudo parecem indicar que já não são as que causam mais baixas.

Taxas de incidência de perda de tempo (TL) e atenção médica (AM) de acordo com os 2 tipos de lesões avaliadas (entorse de tornozelo e distensões musculares) por estação-ano.

Embora o professor Casals afirme que o resultado do estudo por enquanto é só uma fotografia da hipótese no âmbito de uma equipe específica, “parece que em outras equipes e em outras ligas, como a NBA, estão tendo o mesmo problema”. Isto poderia mudar a visão de alguns dos staffs que trabalham na medicina esportiva deste esporte, e também sugere novas perguntas. Uma delas, por exemplo, sobre a própria competição: a possibilidade de que uma agenda de jogos menos apertada reduza a incidência e a gravidade das lesões. Na opinião do doutor Rodas, “uma maior densidade de partidas e uma maior intensidade do jogo implicam uma menor recuperação e, portanto, maior risco de lesões musculares”, algo com o que coincide o professor Casals: “O basquete mudou muito com relação ao contato físico, à rapidez e à exigência”. Esta explicação também é consistente com o que ocorre no basquete de divisões inferiores, onde continuam predominando as lesões de tornozelo, como se esperava. Segundo o doutor Rodas, “a técnica individual dos jogadores jovens ainda está por ser desenvolvida e eles não têm um fisioterapeuta que esteja vendando seus tornozelos todos os dias”. De fato, na medida em que as competições amadoras vão se parecendo mais com as profissionais quanto ao nível de exigência, a incidência de lesões musculares “também poderia influir em como o período formativo dos jogadores é enfocado”, como se refere em notícias recentes sobre a incidência de lesões em jogadores jovens.

Estamos, assim, nas portas de uma nova concepção dos condicionantes médicos do basquete profissional. Isto poderia influir sobre novas estratégias de prevenção. E talvez a primeira devesse considerar a organização da competição, por exemplo, cortando o número de jogos, que segundo o doutor Rodas “poderia ser a primeira estratégia preventiva, além de potencializar maior trabalho na recuperação a nível fisioterapêutico e revisão dos aquecimentos, se requerem exercícios específicos e mais focados no aspecto muscular”.

Um novo modelo explicativo das lesões poderia demandar a adoção de novas medidas. A preocupação sobre as lesões cresce em ligas como a NBA, onde algumas estrelas ficam sem jogar partidas chave e se sugere a conveniência de que tais estrelas sejam supervisionadas por seus próprios médicos. Um esporte profissional não evoluiu só graças à contribuição dos grandes jogadores ou à aplicação de novas táticas sobre o campo; também colaborações entre os praticantes de um staff e pesquisadores das ciências do esporte e da medicina esportiva podem contribuir com novo conhecimento que ajude a continuar com questionamentos e a entender problemas reais da medicina. Esperamos que durante os próximos anos continuemos vendo esta estreita comunicação entre profissionais de um staff e a ciência, para que o resultado de pesquisas como essa não sejam só uma enumeração científica, senão um visível passo para frente na evolução do esporte da cesta. 

 

A equipe Barça Innovation Hub

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