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July 12, 2021

Psicologia

Bloqueadores e Estimulantes da Criatividade no Mundo dos Esportes

O artista multimídia Phil Hansen, em uma apresentação no TED Talk explicou como desenvolveu a obra que viralizou e vem surpreendendo o público através das técnicas utilizadas. Segundo ele, sua criatividade resulta especialmente de suas próprias limitações. Quando frequentava a escola de artes, descobriu um dano neurológico permanente, afetando justamente o traçado quando desenhava. Foi quando tentou mudar suas técnicas, migrando para o pontilhismo, mas o problema dos tremores em suas mãos persistiu. Certo dia, ele resolveu ficar em frente à tela e simplesmente deixou sua mão tremer. Com os rabiscos que saíram, desenhou uma série de sombras que, de uma perspectiva mais ampla, formaram uma figura perfeita do que ele queria retratar.

Ele precisava explorar uma nova técnica. A partir daí, começou a pintar com usando os pés, maçaricos para escurecer a madeira ou guardanapos de papel colados em uma parede. Então veio a descoberta de que apenas com uma variação da escala de seu trabalho, os sintomas neurológicos que implicavam em limitações já não constituíam um problema.

Em conclusão, sua carreira devia muito às limitações em consequência da doença, porque elas contribuíram para o desenvolvimento de sua criatividade. Ele aprendeu que ser criativo em meio às limitações é a grande esperança da humanidade no intuito de transformar pessoas, sociedades e o mundo. As limitações devem ser vistas como fontes de criatividade, como dizem, talvez a adversidade não seja um lugar pacífico ou confortável para exercermos nossa criatividade, mas possivelmente a única maneira de sair de uma fase de estagnação ou zona de conforto, seja repensar sobre habilidades e questionar padrões pré-estabelecidos.

Os mesmos esquemas propostos por este artista estão presentes no esporte, mas não com um olhar poético ou artístico e sim voltados para a pesquisa científica sobre criatividade dos atletas. O que levou o atleta profissional de basquete Magic Johnson a dar passes sem olhar para seu parceiro, um recurso semelhante ao utilizado pouco tempo depois, no futebol por Michael Laudrup? Desde 1967, esses estudos se multiplicaram exponencialmente. No momento, ainda não exista uma definição padronizada sobre o termo. A criatividade de um atleta depende muito de quem o julga, seja o público que não está familiarizado com o esporte ou o técnico que é especialista no assunto. Em relação aos pesquisadores, alguns defendem ser um movimento original ou interação entre parceiros, no sentido de que ninguém nunca havia realizado, outros acreditam ser uma ação inovadora, o que também significa que nunca havia sido realizada até então, enquanto outros se concentram mais no valor da ação em si, ou seja, se ela é útil ou tem, em termos estéticos, sua razão de ser. Nos esportes de equipe, podemos citar uma faceta clara da criatividade que é o desejo de aumentar a imprevisibilidade do desempenho e assim ganhar uma vantagem competitiva. Em resumo, é uma ferramenta essencial para clubes esportivos de sucesso.

Os estudos realizados até o momento coincidem em apontar a possibilidade de treinar a criatividade, mas divergem no momento de elaborar estratégias para seu desenvolvimento. Há muitas questões que influenciam, desde a predisposição do atleta profissional de futebol até sua classe social além do papel que seu técnico decide desempenhar.

Em uma pesquisa realizada pela Faculdade de Ciências da Saúde e do Esporte da Universidade de Stirling, no Reino Unido, sobre toda a literatura científica neste campo desenvolvida até o momento, distinguia-se a figura da criatividade tática ou pensamento tático divergente. Seriam as decisões variáveis, estranhas e flexíveis, que desempenham um papel importante nos esportes de equipe, como futebol, basquete, hóquei ou handebol. Uma série de decisões que não estão relacionadas com o pensamento tático convergente, ou seja, o que consiste em buscar as soluções mais efetivas para um problema específico. Em contrapartida, a criatividade consiste em gerar soluções diferentes para um mesmo problema.

Há dois sistemas cognitivos no cérebro dos seres humanos, quando falamos de criatividade. O explícito é aquele que lida com abstração e resolução de problemas complexos e pode ser verbalizado, enquanto o sistema implícito está relacionado com as habilidades motoras, que não podem ser verbalizadas. No esporte, geralmente, a criatividade é produzida através da ação e não sobre a ação. Trata-se de impulsos intrínsecos e motores, de natureza sistêmica, ou seja, não é realizada pelo atleta porque apresenta determinadas características e sim, surge exatamente da interação destas características com as possibilidades oferecidas pelo contexto de jogo, e, mais especificamente, como o atleta percebe e sente o ambiente. Novas formas de ação, de natureza adaptativa, diante de novas situações. Desta forma, o aparecimento de formas inovadoras de movimento exigiria um sistema que, diante de novas condições ou limitações, pudesse criar diferentes estruturas comportamentais.

Realmente, nos esportes de equipe, exige-se reação e adaptação fundamentados em um conjunto de fontes de informação disponíveis no ambiente, que sempre são diferentes, mediante o ciclo de percepção-ação, sendo que a habilidade de um atleta depende de sua capacidade em identificar a informação procedente desse ambiente. Tem sido demonstrado que os atletas mais criativos são aqueles que estão mais sintonizados com a realidade ao redor. Ao ter uma atenção ampla e uma perspectiva maior, sobre o que acontece em campo, o atleta pode coletar informações que a princípio poderiam parecer irrelevantes. Exatamente neste ponto encontramos aquele famoso clichê de ver o que os outros não veem. E tudo isso acontece fora do controle consciente, como demonstrado pelos grandes atletas profissionais, que, quando questionados sobre suas ações notáveis, não conseguem explicar como conseguiram fazê-lo.

Há um estreito limiar entre a criatividade de um atleta e sua habilidade de busca visual. O estudo Creative decisión making and visual search behavior in skilled soccer players, realizado em 2018 na Itália com um sistema de registro de movimentos oculares, identificou que os atletas profissionais de futebol, mas atentos e com uma quantidade maior de golpes de vista ao seu redor, eram mais criativos. Além disso, obviamente, também eram mais conscientes de que os colegas de sua equipe estavam livres da marcação, sendo mais fácil de conduzir a bola até eles.

Na mesma linha, o técnico francês Arsène Wenger comentou no evento Sports Tomorrow Congress 2020 organizado pelo Barça Innovation Hub, os resultados de um estudo realizado na Inglaterra que apresentava as mesmas características. Calcularam quantas vezes um atleta olha ao redor nos 10 segundos antes da posse de bola. O resultado é que em média o fazem entre quatro e seis vezes. E os de maior destaque entre seis e oito. Xavi Hernandez do FC Barcelona, que ficou fora desta medição, apresentou uma média de 8,3. Ele já ocupava a posição de melhor atleta profissional de futebol do mundo na época no momento de realizar a amostra.

Em casos práticos, foi demonstrado que, apenas mudando o material, forma e tamanho das bolas além da parte do corpo com que deve ser contatada, aumentaram as possibilidades de expressão criativa. Nos últimos anos, tem sido comum encontrar técnicos de futebol veteranos que sentem falta de atletas profissionais que começaram jogando bola nas ruas, sem instalações esportivas, de tudo que aprenderam quando crianças em um terreno acidentado e com obstáculos de todos os tipos, incluindo o tráfego de veículos.

Também foi constatado que atletas com mais experiência desenvolvem maior flexibilidade cognitiva, bem como aqueles que praticam um maior número de modalidades diferentes de esporte, foram considerados significativamente mais criativos do que aqueles que só se dedicam a apenas uma. Nesta perspectiva, eles foram tratados como anedotas na época, mas talvez o interesse demonstrado pelo campeão mundial Salvador Bilardo em outros esportes, tenha tido muito mais sentido do que o proporcionado pela mídia. Ele é conhecido por ter estudado as táticas utilizadas no hóquei sobre campo e no polo aquático.

Da mesma forma, em experimentos com atletas profissionais de handebol, verificou-se que, com o uso de exercícios de vídeo, 45% dos atletas participantes não identificavam quando um atleta havia saído da marcação. Entretanto, se fossem dadas instruções ao grupo, a porcentagem daqueles que não se deram conta havia diminuído para 17%. Trabalhando com crianças, eles também notaram que aquelas que passaram por um programa específico para melhorar sua atenção eram mais criativas. Para isso, o grupo foi dividido em dois. Em um grupo o técnico dava instruções durante o jogo, corrigindo cada lance e, no outro, orientava apenas antes do jogo, sem interferir verbalmente durante a partida. O segundo grupo apresentou uma melhora considerável em sua criatividade.

Em outros estudos foi proposto que a atuação de um técnico também é determinante na medida em que se é permitido correr riscos. Para que exista criatividade, o risco não pode ser penalizado ou recriminado porque é uma condição sine qua non. A partir de uma perspectiva social, também notamos que atletas profissionais de futebol que entendem o jogo como um meio de se promover, são mais criativos, do modo aspiracional e os que abordam o jogo como uma forma de prevenção, de um modo mais orientado ao dever. Assim, podemos observar que as evidências científicas que indicam que a criatividade pode ser aprendida, geralmente se referem aos estágios iniciais da vida. Entretanto, a pressão exagerada para o alcance do sucesso pode ser incompatível com a expressão intrínseca da criatividade, a busca de resultados conduziria a atitudes mais subordinadas que poderiam bloquear qualquer tipo de impulso para a experimentação. No entanto, o que é fato, como afirmado na Exploring the multifaceted role of creativity in an elite football contextnos esportes de equipe não é possível vencer sem, em algum momento, deixar de utilizar de estratégias fundamentadas na criatividade dos atletas profissionais de futebol.

 

Xavier Damunt

 

FONTES

TED Talks: Phil Hansen Embrace the shake https://www.ted.com/talks/phil_hansen_embrace_the_shake

Defining, assessing, and developing creativity in sport: a systematic narrative reviewdoi:10.1080/1750984x.2019.1616315

Play and practice in the development of sportspecific creativity in team ball sports.

doi:10.1080/13598139.2010.488083

Exploring the multifaceted role of creativity in an elite football context.doi:10.1080/2159676x.2019.1625809

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