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5 December, 2019

BFR OU TREINOS COM RESTRIÇÃO DE FLUXO SANGUÍNEO: DA CIÊNCIA À PRÁTICA

Saúde e Bem-Estar

JUNTE-SE A Daniel Romero Rodriguez e Francesc Cos no Certificado em Treinamento da Força: da Reabilitação ao Desempenho

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Uma entrevista com Prof. Jeremy Loenneke e D. Javier Ruiz.

Prof. Jeremy Loenneke

O Blood flow restriction training (BFR), ou Treino com restrição do fluxo sanguíneo, tornou-se, nos últimos anos, um método popular para incrementar a massa muscular. Hoje em dia, o BFR é usado em contextos muito distintos: desde pessoas que desejam promover a hipertrofia muscular para fins estéticos até indivíduos que buscam atenuar a perda de massa muscular durante a recuperação de uma lesão. Professor Jeremy Loenneke, da Universidade do Mississippi, nos Estados Unidos, é um dos principais pesquisadores na área. Seu trabalho é responsável por muito do que sabemos atualmente sobre o método BFR.

 

– Professor Loenneke, poderia explicar resumidamente os mecanismos do BFR para promover o anabolismo muscular?

Prefiro pensar no método BFR como três fases separadas. A primeira envolve a aplicação do BFR na ausência de contrações musculares; a segunda, BFR em combinação com caminhadas/ciclismo de baixa intensidade; a terceira, BFR em conjunto com exercícios de resistência com cargas leves (20%-30% do máx.).

Sabemos que a aplicação isolada do BFR (Fase 1) atenua a perda de massa e força musculares em caso de imobilizações; ou seja, ainda ocorrem perdas, mas em menor escala caso o BFR seja aplicado. É importante ressaltar que essa afirmação tem por base um número pequeno de observações e que ainda são necessárias muitas pesquisas para compreender melhor se e como o BFR funciona quando o aplicamos isolado de contrações musculares. Uma hipótese é que a aplicação da faixa gera uma alteração aguda em inchaços intracelulares, o que pode ser importante para o anabolismo. No entanto, é apenas uma hipótese e requer mais estudos.

A segunda e a terceira fases envolvem a aplicação de BFR em conjunto com contrações musculares. No caso de caminhada/ciclismo de baixa intensidade, costuma haver uma pequena mudança no tamanho e na força musculares, estando a magnitude da mudança provavelmente relacionada ao status de treino atual do indivíduo. As maiores alterações ocorrem quando o BFR é combinado a exercícios de resistência com cargas leves: nesse caso, a mudança no tamanho muscular é semelhante àquela resultante de exercícios de resistência tradicionais com carga pesada. É importante observar que embora a força aumente ao se combinar o BFR com exercícios de resistência de carga leve, a alteração geralmente é menor do que a decorrente de exercícios de carga pesada comuns. O mecanismo subjacente às mudanças observadas, especula-se, inclui alterações agudas no inchaço intracelular e no acúmulo de metabólitos em torno do músculo. A acumulação metabólica pode oferecer um motivo para os altos níveis de ativação muscular observados neste tipo de exercício, pois, uma vez ativado o músculo, a cadeia de sinalização metabólica é provavelmente a mesma observada em exercícios de resistência tradicionais com carga pesada.

– Quais são os benefícios do BFR no contexto esportivo, especificamente no âmbito da reabilitação?

Primeiramente, quero deixar claro que não sou médico. Sou um acadêmico que pesquisa sobre o BFR. Meu papel é fornecer informações aos médicos de modo que possam usar esse conhecimento em conjunto com a própria experiência/especialidade médica.

Se considerarmos as três fases, a aplicação do BFR na ausência de exercícios pode ser empregada nos casos em que o atleta esteja imobilizado. Existem dados (embora limitados) de que essa prática pode retardar a perda de massa muscular e pode ajudar a manter a função. Se o atleta conseguir andar/pedalar em baixa intensidade, a aplicação do BFR pode ajudar a incrementar o estímulo do exercício. Existem evidências, por exemplo, de que ocorrem pequenos aumentos no tamanho e na força musculares quando o exercício aeróbico de baixa intensidade é combinado ao BFR. Se o atleta está apto para treinos de resistência com cargas leves, é possível esperar, nessa fase, as maiores alterações no tamanho e na força musculares. Outro possível benefício inclui mudanças na rede vascular que podem dar suporte à adaptação/recuperação muscular.

Pesquisas recentes sugerem que o uso do BFR pode ajudar a reduzir dores (pelo menos agudas), o que também pode ser uma estratégia a ser implementada antes dos exercícios de reabilitação. Um esforço curto de BFR antes do tratamento padrão pode auxiliar as pessoas a ter uma sessão de fisioterapia de maior qualidade. Isso é apenas uma hipótese e requer mais estudos.

Ainda é incerto se o método BFR pode propiciar alterações significativas aos tendões, pois elas provavelmente requerem cargas mais pesadas. No entanto, ainda precisamos de mais pesquisas.

– Existem evidências suficientes de que o uso de BFR é seguro?

As evidências sugerem que, se feito adequadamente, é possível aplicar o BFR de forma segura. Duas preocupações comuns giram em torno de lesões musculares e coágulos sanguíneos. Sempre há a possibilidade de que um deles ocorra com a prática regular de exercícios. Adicionar o BFR, no entanto, não parece aumentar esse risco (se aplicado adequadamente).

Duas outras preocupações envolvem a hipótese segundo a qual a aplicação do BFR pode exagerar a resposta cardiovascular em determinadas populações. É verdade que o BFR aumenta a resposta cardiovascular em relação a um controle combinado à repetição, mas a magnitude da alteração é relativamente comparável à observada em exercícios de resistência tradicionais. A segunda preocupação é o impacto que o uso repetido de BFR pode ter nas veias (especificamente, nas válvulas), visto que essa forma de exercício causa acúmulos venosos. Nosso laboratório, entre outros, não observou efeitos negativos nas veias após o uso repetitivo. No entanto, há um déficit de estudos e são necessárias mais pesquisas sobre o assunto.

– Quais condições/regras devem ser consideradas a fim de garantir a segurança da aplicação do BFR?

Deve-se aplicar o BFR com base na faixa usada e no indivíduo que a porta. Existem, por exemplo, pulseiras feitas com distintos materiais (náilon, elástico, etc.) e larguras (estreitas: 3 cm versus largas: 20 cm). Não considerar algum desses aspectos (principalmente a largura da faixa) gera um impacto significativo na pressão aplicada: quanto mais larga for a faixa, menor é a pressão necessária para restringir o fluxo sanguíneo; o que não significa, necessariamente, que é melhor. É simplesmente o reflexo de como a pressão é transmitida para o tecido.  O outro componente que deve ser considerado é o indivíduo que porta a faixa. Pessoas com circunferências dos membros mais largas tendem a requerer uma pressão maior do que pessoas com circunferências menores. Se a mesma pressão for aplicada a todas as pessoas, então o estímulo provavelmente será distinto para cada uma.

Ambos os fatores parecem ter sido considerados no uso da chamada “pressão relativa”. Coloque a faixa usada no BFR, por exemplo, na parte superior do braço ou da perna.  Ela inchará lentamente até que seja possível determinar a menor pressão em que não haja pulso no membro distal à faixa, que é denominada pressão de oclusão do membro. Um percentual dessa pressão é então aplicado ao indivíduo, pois o objetivo é obter um BFR parcial. Em outras palavras, se a pressão de oclusão do membro é 100 mmHg, a meta é uma pressão relativa de 40%. Logo, seriam aplicados 40 mmHg durante o exercício. Como a pressão será medida nos membros do indivíduo com a mesma faixa a ser usada durante o exercício, são consideradas tanto as dimensões da faixa quanto as características do indivíduo em uma mesma medição.  Para adaptações musculares, percentuais entre 40% e 90% da pressão de oclusão do membro geram mudanças semelhantes. Já adaptações vasculares podem requerer pressões mais elevadas (cerca de 80% da pressão de oclusão do membro), mas precisamos de mais pesquisas para ter certeza.

– Como você recomendaria, em termos de praticidade, implementar o BFR para um atleta lesionado?

Presumindo não haver contraindicações para essa forma de treino, eu faria o atleta executar séries de exercícios de resistência com cargas leves e estabeleceria uma meta para o número de repetições (30 repetições para a primeira série, seguidas de 3 séries de 15 repetições ou até a falha na tarefa, o que ocorresse primeiro) com 30 segundos de descanso entre séries. Eu visaria a cargas por volta de 20% a 30% do máximo e usaria as repetições como um guia para a progressão da carga. Se o atleta conseguisse executar todas as 75 repetições (30-15-15-15) com a técnica correta, eu recomendaria uma leve progressão da carga. Eu definiria a pressão entre 40% e 80% da pressão de oclusão do membro em descanso (ou seja, a menor pressão em que não há fluxo distal para o membro).

Se o atleta não conseguisse executar o treino de resistência com carga leve, eu recomendaria caminhadas ou ciclismo de intensidade leve em conjunto com o BFR. Isso pode ajudá-los a conseguir uma adaptação um pouco melhor em cada passo/repetição se comparada ao mesmo exercício sem BFR. Os protocolos geralmente envolvem caminhadas lentas (cerca de 50 m/min) ou ciclismo de baixa intensidade (cerca de 40% da capacidade aeróbica máxima) por cerca de 20 minutos. Eu definiria a pressão entre 40% e 80% da pressão de oclusão do membro em descanso. No entanto, o efeito de pressões relativas distintas é ainda amplamente desconhecido, visto não haver tantos estudos com caminhadas/ciclismo quanto os que envolvem exercícios de resistência com restrição do fluxo sanguíneo. Uma vez que o atleta possa executar o treino de resistência, eu recomendaria a progressão para esse tipo, presumindo que a meta seja recuperar o tamanho e a força musculares.

Se o atleta não puder executar contrações musculares, recomendaria que ele considerasse inchar e desinchar a faixa nos membros várias vezes de manhã e à noite. Existem, embora sejam poucas, evidências de que isso pode diminuir a atrofia observada durante a remoção da carga e pode ajudar a manter a função muscular. O protocolo costuma envolver inchar a faixar na pessoa enquanto está sentada, levemente reclinada, com as pernas posicionadas à frente do corpo. A faixa é inchada por 5 minutos e desinchada por 3, repetindo-se cinco vezes de manhã e novamente à noite. A pressão provavelmente precisa estar mais próxima a 80% da pressão de oclusão do membro, embora o efeito de diferentes pressões relativas não tenha sido bem analisado com esse protocolo. Uma vez que o atleta possa executar exercícios de resistência ou de baixa intensidade/carga aeróbica, eu recomendaria a progressão para esse formato a fim de maximizar a adaptação.

– É preciso usar materiais caros (p. ex., ultrassom Doppler) para implementar e controlar o BFR?

Não é necessário usar equipamento caro para aplicar o BFR. Propomos um modelo prático de BFR na literatura há cerca de 10 anos. Desde então, vários estudos mostram que a aplicação de joelheiras ou faixas nos membros é capaz de produzir uma adaptação muscular favorável. A limitação é que não se conhece a pressão aplicada. Para indivíduos saudáveis interessados em hipertrofia muscular, isso não seria uma grande preocupação, pois foi observado que uma grande variedade de pressões apresenta mudanças semelhantes. No entanto, em ambientes clínicos, é importante saber quanto do fluxo sanguíneo está sendo restringido. Uma sugestão é usar uma escala de percepção de tensão de “7” de 10.  Essa escala foi proposta para restringir o fluxo venoso, mas não gerar oclusão do fluxo arterial. O problema dessa abordagem é que gera uma grande variedade de pressões aplicadas. Além disso, dados recentes de nosso laboratório sugerem que as pessoas não conseguem determinar de forma confiável a pressão do BFR com a escala de intensidade “7” de 10. Por exemplo, uma percepção de “7” pode produzir 30% de pressão de oclusão arterial em um dia e 90% em outro. Uma alternativa na qual temos trabalhado é a aplicação da faixa em relação ao tamanho do membro. Colocar, por exemplo, a faixa para um percentual da circunferência do membro. Ao fazê-lo, foram observadas reduções semelhantes no fluxo sanguíneo àquelas produzidas com equipamentos mais caros. Isso, no entanto, foi demonstrado apenas em descaso e ainda não sabemos se há diferenças quando usado em exercícios.

Agradecemos por sua colaboração, Prof. Loenneke. Temos certeza de que essas informações serão muito úteis para nossos leitores.


 

A fim de complementar as informações apresentadas por Dr. Loenneke, conversamos também com Javier Ruiz, o preparador e readaptador físico de nosso clube de basquete, que já implementa o BFR de forma habitual.

Javier Ruiz

Javier, em sua opinião, quais são os benefícios dessa técnica?

Em nossa visão, o BFR oferece uma vantagem fundamental para atletas lesionados: tentar reduzir o máximo possível o processo de atrofia durante o período de lesionamento. A funcionalidade do jogador machucado se mostra alterada durante um certo período em que suas capacidades físicas estão reduzidas. O treino com BFR permite tentar reduzir a perda de massa e funcionalidade musculares, o que é central não para reduzir os prazos de recuperação, mas sim para incrementar a qualidade do processo.

O BFR combinado a exercícios de baixa intensidade (até 30% da RM) permite fomentar alterações intracelulares como consequência do acúmulo de vários metabólitos que, por sua vez, geram uma ativação muscular semelhante ao trabalho executado em altas intensidades. Este é o motivo pelo qual um atleta que não esteja preparado para suportar uma carga mecânica elevada (por exemplo, uma sessão de HIIT) pode ativar um número maior de fibras musculares, beneficiando-se assim da alteração metabólica proveniente do uso de BFR. Esta alteração é também responsável pela ativação da glândula pituitária, que permite liberar GH (o hormônio do crescimento), o que é chave para o processo de síntese de colágeno, bem como aumentar o número de células satélite. Além disso, há um efeito analgésico que requer mais pesquisas a fim de determinar exatamente quais são suas origens, mas que na prática é bastante real: o atleta manifesta menos dor clínica quando executa exercícios de baixa intensidade combinados com a restrição vascular.  Acreditamos que isso seja um grande benefício para qualquer processo de Return to Play (RTP).

É importante considerar alguns aspectos metodológicos. Segundo nosso ponto de vista, o processo de individualização é central: aplicar pressões corretas nas faixas permite conseguir os efeitos desejados de forma mais concreta. Em suma, podemos dizer que o BFR parece ser uma boa ferramenta tanto para processos de readaptação quanto para a gestão da patologia de atletas que precisam enfrentar calendários cada vez mais exigentes. O objetivo está sempre claro: usar os efeitos metabólicos que permitam oferecer à estrutura afetada um plus metabólico sem o estresse implícito da carga mecânica.

 

Como vemos, o BFR não somente conta com várias evidências científicas que o corroboram, mas também já vem sendo integrado na prática de atletas do mais alto nível.

 

A equipe Barça Innovation Hub

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