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23 July, 2020

ÁNGEL CAPPA, O TÉCNICO NO CORAÇÃO DO FUTEBOL

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Ele iniciou seu processo de aprendizagem como técnico da seleção argentina e do FC Barcelona de César Luis Menotti há quarenta anos. Desde esse momento, desenvolve uma filosofia dentro do futebol com forte fundamentos no amor. O amor pelo futebol. Através da sensibilidade e do conhecimento que este esporte representa, dispondo-se a amar e apreciar cada momento, assim como um técnico enfrenta a gestão de uma equipe esportiva. Não obstante, suas ideias sobre esporte seguem sendo as mesmas de quando ele era criança no humilde bairro de Bahía Blanca, em Buenos Aires, onde nasceu. O valentão era temido no bairro, mas respeitado pelos que jogavam bem futebol.

O principal objetivo do Cappa é jogar o futebol sem medo. Não se pode conduzir um time marcado pelo medo dos adversários. Uma equipe esportiva precisa ter ideia de jogo e o técnico deve escolher os atletas mais adequados para a defesa, ideia que deverá prevalecer sempre. A garantia é o técnico, pois para Cappa, é a parte mais importante de toda essa estrutura.

A ideia de jogo

Na hora de se trabalhar com uma equipe, é preciso ter em mente que não se pode controlar o futebol. A sobrecarga de informações sobre um adversário pode ser completamente inútil ou produzir efeito contrário ao que é desejado. Cappa explica melhor essa ideia com um exemplo: em um jogo no Carlos Belmonte, entre Albacete e Real Madri, da temporada de 1994/1995, explicou à sua equipe de defesa sobre a estratégia que ele normalmente usava nas áreas de cobrança de escanteio. Passe direto de Salazar a Óscar, atleta de base do Barça, para que lançasse a entrada da bola. Repassaram essa jogada antes do jogo e durante ele comunicaram-se em cada escanteio, porém nada disso evitou que, com 85 minutos de jogo completassem a jogada assim como o praticado. Há situações que escapam do controle mais exaustivo.

Os vídeos devem ser aplicados para corrigir os próprios erros e não para concentrar-se em investigar as outras equipes. Além disso, pela sua experiência, um atleta profissional do futebol não permanece mais de dez minutos observando as imagens. É preciso encontrar seu conceito próprio, ao exercitar-se com treinos sempre fundamentados em ações de jogo.

Especificidade da preparação física

No âmbito físico, Cappa recomenda uma preparação específica de futebol. Um ensaio de jogo. Ensinamentos que o faz lembrar de Johan Cruyff, quando foi comentado em uma transmissão que uma equipe havia percorrido uma média 12 quilômetros, o técnico holandês reagiu dizendo: “que mal que deveriam estar jogando”. Tudo deve ser fundamentado na velocidade, mas não do atleta e sim da bola. É nessa direção que se deve trabalhar.

O esquema

O esquema do time no gramado é algo que não preocupa Cappa, já que ele acredita em uma disposição natural dos atletas. A única certeza que tem é que necessita de quatro atletas para cobrirem a largura do campo. O restante, se considera uma divisão igualitária de espaços.

Posse de bola

No eterno debate sobre a posse de bola, Cappa é impaciente com aqueles que defendem que é melhor ter uma menor porcentagem de posse de bola e ganhar, porque consideram um debate sem fundamentos. Um falso dilema porque a posse de bola é uma necessidade de jogo e não uma opção estética. É preciso se concentrar em qual é o objetivo de ter a posse de bola. Não se deve fazer um passe simplesmente, garantindo a posse e sim é preciso fazê-lo sempre com o objetivo de criar situações que levarão ao gol.

A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever

Cappa também rejeita discursos que abordam sofrimento para se ganhar um jogo. Ele lamenta ouvir expressões como, por exemplo, atletas que têm que jogar a base de sofrimento. Enfim, trabalhar e produzir em estado de alienação. O escritor Eduardo Galeano antecipou com a sentença: “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever”.

O futebol deve existir para dar satisfação aos torcedores e é preciso jogar bem para não exista sofrimento. Se você tem a posse de bola não sofre, mas joga, e isso não é trabalho. O atleta profissional de futebol precisa ter a ilusão de jogar.

Considerando que, no futebol atual não há espaços para desenvolver este tipo de jogo, Cappa concorda, mas exatamente por causa disso, porque é preciso criar ótimas jogadas, algo que se pode conseguir com a simulação, a mobilidade e a pausa. Ao contrário do que se acredita, quando um atleta profissional de futebol faz uma pausa torna o futebol mais rápido. Os atletas devem levantar a cabeça e pensar. Um hábito que sempre tentou incutir em suas equipes através de exercícios foi o de instituir como regra nos jogos, que não há uma definição quanto à utilização dos dois toques, forçando os atletas a atenderem à demanda de seus companheiros de forma sistemática.

O técnico como figura central

Uma das bases de seu modelo passa pelo controle dos tempos, e é exatamente neste ponto onde encontramos o papel do técnico, que é o mais importante. É preciso fazer com que o atleta entenda o jogo, porque os atletas profissionais de futebol jogam com o que a natureza lhes deu. O segredo é sempre entender a lógica do jogo, porque se rege por uma ordem a ser desordenada e é aí que reside o papel do técnico.

Há anos, recorda Cappa, não existia técnico. O que existia eram poucas indicações. Atualmente, ele defende que exista uma função didática, pois é importante que exista sem limitações. Especialmente no futebol de base, isto porque a qualidade mais valiosa que um atleta profissional de futebol poderá ter no futuro é a confiança e é nisso que o técnico tem que trabalhar com o objetivo de fortalecê-la. E em hipótese alguma se deve limitar. Se um atleta profissional de futebol jovem erra sempre da mesma maneira é porque se equivocou de profissão.

Importante também que não haja excesso de instruções. E é no intervalo que as correções devem ser feitas. Não se pode corrigir jogadas que já aconteceram. É mais importante motivar o atleta a sair no segundo tempo mais seguro de si mesmo. Outro profissional muito respeitado, Arsenio Iglesias, contou uma vez que só dava uma palestra para seus atletas pela manhã, pois não queria incomodá-los no restante do dia.

Definitivamente, acredito que devemos fugir de técnicos que interpretam a preparação física como um castigo. Não entende como há técnicos que se orgulham de realizar treinos tão exaustivos. O treinamento não deve servir para gastar energia e sim para acumulá-la. A essência é que o atleta profissional de futebol não corra atrás da bola e sim a favor do jogo. Isso gera uma equipe que não se cansa. Uma conclusão antecipada por Maradona, quando Fernando Signorini, preparador físico, reprovou o que estava fazendo, inclusive quanto às suas piores marcações na hora de correr no treinamento e Diego respondeu: “então jogue você no domingo”.

 

Álvaro González

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