11 July, 2018

O ESTUDO DAS ACELERAÇÕES E DESACELERAÇÕES DE ALTA INTENSIDADE NO FUTEBOL

Rendimento Desportivo
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A aceleração é uma actividade metabolicamente exigente, que aumenta o consumo energético da actividade e a fadiga muscular, relativamente a quando se compara com a deslocação a uma velocidade constante (Osgnach et al., 2010). Nos desportes coletivos, acelerações, desacelerações e mudanças de direcção são acções de alta frequência. No caso específico do futebol, mais de 85 % das acelerações máximas não alcançam categorias de alta velocidade de deslocação (>4.17 m·s-2; Varley e Aughey, 2013). Deste modo, estas acções não serão consideradas de elevada intensidade na análise tradicional e simplista que contempla a velocidade das deslocações dos desportistas, subestimando as acções de elevada intensidade realizadas pelos desportistas. As acelerações máximas (>2.78 m·s-2) ocorrem com uma frequência superior a 8 vezes, relativamente às acções de sprint (Varley e Aughey, 2013). É, por isso, necessário estudar a fundo este tipo de acções durante os treinos e/ou jogos de futebol (aplicável aos desportos coletivos em geral). Esta nova dimensão torna-se relevante na descrição das solicitações dos futebolistas, uma vez que se podem estar a subestimar acções realizadas em aceleração máxima, mas a baixa velocidade. Alguns autores já começaram, por isso,  a prestar-lhes atenção  (Castellano et al., 2013). Para definir categorias de intensidade nas acelerações e desacelerações de alta intensidade, os diferentes autores utilizaram diferentes limiares de intensidade absoluta. Mais concretamente, podemos indicar que as acelerações de máxima intensidade foram estabelecidas a partir dos valores 2,78 m·s-2 (Varley e Aughey, 2013), 3 m·s-2 (Hodgson et al., 2014) e 4 m·s-2 (Buchheit et al., 2014).

Figura 1. Aceleração em função do tempo, durante um jogo de futebol, onde se estabelecem os limiares a partir dos quais as acelerações passam a ser consideradas de elevada intensidade. No exemplo exposto, marca-se a uma intensidade de 2.5 m·s-2.

No exemplo que se apresenta, utiliza-se o limiar de  >2,5 m·s-2 e <-2,5 m·s-2 para categorizar as acelerações e desacelerações como de elevada intensidade. Devemos ter em conta que uma acção de alta velocidade de deslocação nem sempre é precedida de uma acção de alto nível de aceleração, uma vez que o desportista pode acelerar pouco a pouco durante mais tempo. Nesse sentido, a capacidade máxima de aceleração de um desportista está relacionada com as suas capacidades físicas e, portanto, quanto mais os sistemas de registo vão melhorando a sua fiabilidade, validez e precisão, mais estes limiares de intensidade deverão ir atentando aos perfis individuais do jogador. Além disso, a capacidade de aceleração máxima do desportista depende da velocidade inicial de deslocação, de modo que, quanto maior for a velocidade inicial de deslocação, menor será a capacidade de aceleração máxima do desportista. Dessa forma, a utilização de limiares de intensidade de aceleração absolutos (por exemplo, considerando acções de elevada intensidade de aceleração com valores acima de 2,5 m·s-2) poderia, por um lado, subestimar as acções realizadas pelo desportista com uma velocidade inicial de deslocação alta e, por outro, sobrestimar as acções realizadas em velocidades de deslocação baixas (Sonderegger et al., 2016). Mais concretamente, partindo de um valor de >2,5 m·s-2  para categorizar as acções como de alta intensidade, este limiar representa um esforço máximo, se a velocidade inicial for de cerca de 5 m·s-1, mas, apesar disso, representar um limiar inferior a 50 % das possibilidades máximas do desportista que está parado e começa a fazer um esforço de aceleração.  

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  Em seguida, passa-se a descrever as acelerações dos 10 jogadores a participar num jogo de futebol em campo, relacionando-se a velocidade inicial de deslocação com a magnitude da aceleração. Como se pode observar, quanto mais aumentam as velocidades iniciais de deslocação, mais diminuem as magnitudes das acelerações realizadas pelos desportistas. Por exemplo, não se registam acelerações acima de 3,5 m·s-2 com velocidades iniciais de deslocação superiores a 15 km·h-1. Devemos ter presente que, nesta figura, se representa a velocidade inicial das acelerações que os jogadores realizam durante a competição, enquanto que, em estudos anteriores, como o de Sonderegger et al., (2016) surgem valores máximos obtidos pelos desportistas em corrida, com diferentes velocidades iniciais de deslocação.

Figura 2. Relação entre a velocidade inicial da deslocação e a magnitude da aceleração, durante um jogo de categoria juvenil.

Por último, também é importante assinalar que os valores de aceleração (número de acções, distância percorrida em metros ou em % do total, tempo em segundos ou em % do total) são obtidos a partir dos valores de posicionamento e não a partir dos acelerómetros que contêm alguns dos dispositivos comercializados actualmente. Isso explica, em parte, que a fiabilidade e validade das medidas de aceleração assentam em aceleração e velocidade dependente, com piores resultados quando se incrementa a velocidade de deslocação e/ou a magnitude da aceleração.   David Casamichana Gómez, Doutor em Ciências da Atividade Física e do Esporte. Preparador físico de futebol. Professor universitário e pesquisador. Professor especialista do Certificado em Gestão da Carga de Trabalho no Futebol do Barça Innovation Hub – Universitas.     Referências Buchheit, M., H. Al Haddad , B.M. Simpson, D. Palazzi, P.C. Bourdon, V. Di Salvo e A. Mendez-Villaneuva. “Monitoring accelerations with GPS in football: time to slow down?” Int J Sports Physiol Perform. 2014;9:442-445 Castellano, J. e D. Casamichana, (2013). “Differences in the number of accelerations between small-sided games and friendly matches in soccer.” Journal of Sports Science and Medicine, 12(1), 209-210. Hodgson, C., R. Akenhead e K. Thomas (2014). “Time-motion analysis of acceleration demands of 4v4 small-sided soccer games played on different pitch sizes.” Human Movement Science, 33, 25-32. Osgnach, C., S. Poser, R. Bernardini, R. Rinaldo e P.E. di Prampero (2010). “Energy cost and metabolic power in elite soccer: a new match analysis approach.” Medicine & Science in Sports & Exercise, 42, 170 – 178. Sonderegger, K.,  M. Tschopp, W. Taube (2016). “The Challenge of Evaluating the Intensity of Short Actions in Soccer: A New Methodological Approach Using Percentage Acceleration.PLoS ONE 11(11): e0166534. doi:10.1371/journal. pone.0166534. Varley, M.C. e R.J. Aughey (2013). “Acceleration profiles in elite Australian soccer.” Int J Sports Med. 34(1):34-9.

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