8 October, 2019

A INFLUÊNCIA DO ESTILO DE LIDERANÇA DO TREINADOR NAS LESÕES NO FUTEBOL DE ELITE

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Dispor de todos os jogadores saudáveis e preparados para competir é um dos grandes objetivos da preparação no futebol de alto nível. O custo econômico mensal que tem a lesão de um jogador de um time que participa da Liga de Campeões é de €500.000.1 Além disso, claro, também devem ser consideradas as consequências negativas no rendimento das equipes.

Os pesquisadores e os clubes tentam descobrir os fatores que podem aumentar ou reduzir a probabilidade de sofrer uma lesão. O comportamento do treinador pode ser muito relevante. Sabemos, por exemplo, que a mudança de técnico aumenta o número de lesões musculares nas equipes2. A frequência de lesões musculares é 2,3 vezes maior nas duas semanas posteriores à chegada do novo preparador e 1,9 vezes mais alta um mês depois.

Uma pesquisa recente3 também demonstrou que o estilo de liderança do treinador está correlacionado com as lesões e a disponibilidade dos jogadores para treinar e competir. O estudo, publicado na revista British Journal of Sports Medicine em 2018, baseou-se na análise de 36 equipes de elite de 17 países europeus diferentes, durante os anos 2012 a 2016. Em cada reunião anual realizada no término de cada temporada, o chefe dos serviços médicos de cada clube avaliou o estilo de liderança do treinador principal de sua equipe mediante a escala Global Transformational Leadership (GTL).4. O responsável por cada equipe médica respondeu sete perguntas sobre sua percepção do comportamento mais ou menos democrático do preparador mediante uma escala Likert de 5 pontos, de “raramente ou nunca” (pontuação = 1) a “muito frequentemente ou sempre” (pontuação = 5). As pontuações mais altas sugerem um estilo de liderança mais democrático e, as mais baixas, o contrário. As sete pontuações foram utilizadas para estabelecer uma nota média para cada preparador. As equipes foram classificadas em três grupos, dependendo da pontuação alcançada pelo treinador em seu estilo de liderança mais ou menos democrático: nível baixo (valores 1-2), moderado (3) ou alto (4-5). Os médicos também descreveram a frequência e o tipo de lesão sofrida em suas equipes durante a temporada e a participação dos jogadores nas sessões de treinamento e partidas de competição.

Os resultados sugerem quatro grandes conclusões:

  • Existe uma correlação entre o estilo de liderança e a incidência de lesões graves e a presença dos jogadores no treinamento.

 

  • Os treinadores que tenderam a utilizar um estilo de liderança democrático ou participativo tiveram uma menor incidência de lesões graves em suas equipes. A correlação entre ambos os aspectos explica 6% da variação na frequência de lesões graves.

 

  • A presença dos jogadores nas sessões de treinamento foi maior quando os treinadores estimularam e reconheceram o esforço dos membros do corpo técnico, incentivaram o pensamento inovador, fomentaram a confiança e agiram como modelos de comportamento a ser seguido. A participação foi 4% superior nas equipes com treinadores que manifestaram um nível alto em seu comportamento democrático em comparação com aqueles que mostraram um nível baixo (81% contra 85%, p<0,05).

 

  • A incidência de lesões graves foi entre 29 e 40% (p<0,05) menor nos clubes onde os treinadores transferiam uma visão clara e positiva, apoiavam os outros membros do corpo técnico e incentivaram e reconheceram as conquistas dos jogadores.

As aplicações práticas sugerem que os treinadores poderiam adotar uma série de atuações para conseguir reduzir o risco de lesão:

  1. Focar na preparação da equipe.
  2. Deixar a preparação do jogador nas mãos de seus colaboradores. Que sejam eles os que melhorem a condição física, reduzam os riscos de lesão, melhorem a recuperação depois das partidas ou ajudem a aumentar os níveis de autoeficácia dos atletas.
  3. Perguntar e demonstrar interesse pelo trabalho individual. Os colaboradores se sentirão mais valorizados e os jogadores se envolverão mais no que fazem.
  4. Incluir os conteúdos da preparação individual no planejamento da equipe. Também é carga de treinamento.
  5. Individualizar a preparação do jogador. Cada atleta possui necessidades distintas. Existem diferentes culturas esportivas, cargos específicos, antecedentes lesionais, idades, motivações.

Em qualquer caso, apesar dos benefícios de um estilo de liderança democrático da parte do treinador, apostar em um modelo de direção mais autoritário ou de deixar fazer pode ser recomendável em outros panoramas. Dependerá de outros fatores como, por exemplo, a idade dos jogadores, o momento em que se encontrem de sua vida esportiva, o tempo disponível para treinar, se a situação a ser resolvida é controlável ou não, ou a cultura esportiva do clube. Adaptar o tipo de intervenção às necessidades de cada situação implica, muito possivelmente, uma das grandes competências dos preparadores para alcançar o sucesso no alto nível.

 

Carlos Lago Peñas

 

Referências:

1 Ekstrand, J. (2013). Keeping your top players on the pitch: the key to football medicine at a professional level. British Journal of Sports Medicine. 47:723-724.

 

2 Donmez, G.; Kudas, S.; Yörübulut, M.; Yildirim, M.; Babayeva, N. e Torgutalp, S. (2018). Evaluation of Muscle Injuries in Professional Football Players: Does Coach Replacement Affect the Injury Rate? Clinical Journal of Sport Medicine.

 

3 Ekstrand, J.; Lundqvist, D.; Lagerbäck, L.; Vouillamoz, M.; Papadimitou, N. e Karlsson, J. (2018). Is there a correlation between coaches´ leadership styles and injuries in elite football teams? A study of 36 elite teams in 17 countries. Br J Sports Med 2018;52: 527-531.

4 Carless, S.A.; Wearing, A.J. e Mamm, L.A. (1990). A short measure of transformational leadership. J Bus Psychol. 14: 389-405.

 

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