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January 14, 2022

Psicologia

A importância do tempo de jogo e a justiça das decisões do técnico

By Carlos Lago Peñas.

Nos esportes coletivos, o tempo de jogo numa competição é um tempo de desfrute, e um recurso limitado e altamente valorizado pelos atletas. No handebol, por exemplo, o treinador deve distribuir 420 minutos de jogo (60 minutos da partida x 7 jogadores) entre pelo menos 16 jogadores, o que significa apenas 26 minutos em média para cada jogador. No futebol, os 990 minutos (90 minutos de jogo x 11 jogadores) devem ser divididos entre mais de 25 atletas; neste caso, os jogadores devem se contentar com um máximo de 40 minutos por jogo em média. Como consequência dessa realidade, a rivalidade interna e a disputa pelo tempo de jogo são características relevantes nos esportes coletivos de elite. Jogar mais ou menos tempo tem muito a ver com a possibilidade de demonstrar o talento que o atleta tem e pode levar a melhorar um contrato, ou o contrário. É por isso que o treinador deve administrar adequadamente esta distribuição do tempo de jogo. Uma boa ou má decisão pode ter consequências diretas no desempenho da equipe: a percepção dos jogadores sobre a justiça na distribuição dos minutos de jogo pode influenciar na dinâmica da equipe e na motivação e satisfação dos jogadores com o treinador. Uma divisão injusta pode iniciar conflitos internos destrutivos que podem levar a um mau desempenho na competição, enquanto o fato de perceber a decisão como justa pode gerar o resultado oposto.

“No basquete, os jogadores que odeiam você geralmente são aqueles que consideram que não jogam tanto quanto merecem.” Phil Jackson, treinador do Chicago Bulls e Los Angeles Lakers, no seu livro “Onze anéis”.

Uma pesquisa recente1 analisou como o tempo de jogo do que cada jogador dispõe numa competição, e sua percepção da justiça das decisões do treinador, influencia na satisfação dos atletas com seu treinador. O estudo, publicado recentemente na revista Cogent Social Science, foi baseado na análise de 231 jogadores noruegueses de elite de hóquei no gelo (n = 155) e handebol (N = 76). A idade dos jogadores situava-se entre os 17 e os 37 anos (a média de idade é 22,7) e o número de anos a jogar na elite situava-se entre um mês e 14 anos (valor médio de 3,7 anos). O número de jogadores por equipe que participou do estudo ficou entre 11 e 20 atletas, com média de 12,8 jogadores. Os atletas foram divididos em 3 grupos de acordo com o tempo de jogo atribuído na partida: abaixo da média da equipe, dentro da média ou acima da média. A percepção de justiça nas decisões do treinador foi medida por meio do questionário De Backer (2011)2. A escala é composta por 9 itens que vão de 1 a 5 pontos e que analisam a percepção dos jogadores sobre a justiça do treinador em suas decisões. Por exemplo, “Os minutos que eu jogo são justos com base no meu desempenho” ou “Meu treinador toma decisões que são corretas e apropriadas”. Finalmente, a satisfação com o treinador foi medida usando o Athlete Satsifaction Questionnaire (ASQ) de Riener e Chellandurai (1988)3. O ASQ mede a satisfação com o treinamento e as instruções fornecidas pelo treinador, o tratamento pessoal e a satisfação com a forma como o treinador consegue tirar o melhor no talento dos jogadores.

Os resultados denotam várias conclusões muito relevantes: 

  • O tempo de jogo e a percepção dos jogadores sobre a justiça das decisões tomadas pelo técnico preveem a satisfação dos atletas com ele. Quanto mais tempo de jogo e maior percepção de justiça, maior será a satisfação com o trabalho do treinador (p <0,01).
  • A justiça nas decisões do técnico parece ser ainda mais relevante para os jogadores do que o seu tempo de jogo na competição.
  • A qualidade do treino e das instruções, bem como o feedback positivo também estão intimamente relacionados com a satisfação dos jogadores com o seu treinador.

Em um ambiente competitivo e voltado para atingir bons resultados, vencer é uma prioridade que pode prevalecer sobre outros valores. Fazer parte de uma equipe de elite supõe subordinar o interesse próprio ao do grupo e, paradoxalmente, o interesse próprio é melhor promovido desse jeito. O interesse do grupo tem a ver com ter os atletas mais habilidosos na quadra, pois isso aumenta a probabilidade de sucesso4. No entanto, o tratamento justo e consistente dos treinadores pode facilitar o respeito e o orgulho dos jogadores, o que incentiva as pessoas a aceitarem decisões desfavoráveis e facilita o compromisso, a lealdade e o esforço em nome da equipe.5

Como Seirul-lo explica6,7, nos esportes coletivos, o jogo só é possível com os companheiros de equipe, se conseguir alcançar altos níveis de interação com eles e o compromisso de uma necessária participação coletiva, que deve transformar o significado individual de vencer. Surge então a cultura coletiva do jogo onde se confirmam as relações interpessoais, identificando diferentes códigos de comunicação e laços afetivos com os membros da equipe que permitem conhecer os acontecimentos do jogo a partir de outra dimensão específica. A formação precisa para otimizar a estrutura socioafetiva e permitir que ela seja eficiente nas próximas situações vivenciadas deverá levar em consideração:

  • Propor canais de comunicação claros para nossas informações, para que essas decisões sejam eficazes e possam otimizar a personalidade social e efetiva de nossos jogadores.
  • Promover alternativas às conclusões dos juízos que foram negativos no desempenho daquele evento, para tentar modificar essa predisposição indesejada e fazer com que o jogador concorde em modificar seus preconceitos diante de situações futuras.
  • Otimizar os níveis de autogestão do grupo de forma que eles atuem imediatamente após o surgimento desses juízos negativos, e que o jogador se sinta parte dessa autogestão. 

Referências:

1 Giske, R., Rodahl, S., Johansen, B, & Høigaard, R. (2021) Self-reported playing time and justice as predictors of coach satisfaction: An analysis of elite ice-hockey and handball players, Cogent Social Sciences, 7:1, 1860452, DOI: 10.1080/23311886.2020.1860452

2 De Backer, M., Boen, F., Ceux, T., De Cuyper, B., Høigaard, R., Callens, F., & Vande Broek, G. (2011). Do perceived justice and need support of the coach predict team identification and cohesion? Testing their relative importance among top volleyball and handball players in Belgium and Norway. Psychology of Sport and Exercise, 12(2), 192–201. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.201009.009

3 Riemer, H. A., & Chellandurai, P. (1998). Development of the athlete satisfaction questionnaire (ASQ). Journal of Sport & Exercise Psychology, 20(2), 127–156. https://doi.org/10.1123/jsep.20.2.127

4 Gaffney, P. (2015). The nature and meaning of teamwork. Journal of the Philosophy of Sport, 42(1), 1–22. https://doi.org/10.1080/00948705.2014.941849

5 B Tyler, T., Degoey, P., & Smith, H. (1996). Understanding why the justice of group procedures matters: A test of the psychological dynamics of the group-value model. Journal of Personality and Social Psychology, 70(5), 913–930. https://doi.org/10.1037/0022-3514.70.5.913

6 Seirul-lo, F. (2010). Estructura sociafectiva. Documento INEFC – Barcelona. http://www.motricidadhumana.com/estructura_socioafectiva_doc_seirul_lo_Outline_drn.

7 Seirul-lo, F. (editor). (2017). El entrenamiento en lo deportes de equipo. Barcelona: Mastercede.

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