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October 20, 2020

Psicologia
Nutrição
Saúde e Bem-Estar

A IMPORTANCIA DO NUTRICIONISTA E DO PSICÓLOGO ESPORTIVO NA RECUPERAÇÃO DE LESÕES

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Quase todos os atletas lesionados fazem a mesma pergunta: “Quando voltarei a jogar?” O retorno aos campos o return to play (RTP, sigla em inglês) é visto como aquele dia mágico em que o atleta volta a aproveitar ao máximo de sua modalidade de esporte, no mesmo nível em que se encontrava antes ou até melhor, como se a lesão nunca tivesse acontecido. O RTP é um dos processos mais importantes da recuperação de um atleta lesionado, pois tratamos de um período no qual ele mais necessita se preparar para o grande retorno aos campeonatos.

O RTP deve ser visto como um fato real durante todo o processo de recuperação e reabilitação.1 Uma Declaração de Consentimento publicada em 2016 sobre o RTP do atleta após uma lesão propôs três fases dentro deste retorno real, conforme a seguir:1

  • Return to Participation: o atleta pode voltar a realizar sessões de treinamento completas ou parciais, mas ainda não conta com a liberação médica, física ou psicológica para retomar à prática esportiva.
  • Return to Sport: o atleta está integrado plenamente em sua modalidade de esporte, porém ainda não possui o desempenho desejado. Entretanto, participa de todos os treinamentos.
  • Return to Performance: quando o atleta atingiu ou mesmo ultrapassou o nível de desempenho anterior à lesão. Ele está pronto para retornar aos campeonatos.

Nestes casos, uma abordagem interdisciplinar permitirá que os atletas estejam física e psicologicamente preparados em seu por recidiva, já que este é um momento especialmente crítico para o aparecimento de novas lesões. De fato, a Declaração de Consentimento de 2016 reconheceu a importância da contribuição de outras áreas de conhecimento, além da medicina e fisioterapia, tais como a ciência do esporte e o coaching.1No documento também foi estabelecida a importância de considerar fatores biopsicossociais durante todo o processo de RTP.1 É por isso que se considera fundamental integrar a psicologia e a nutrição esportiva dentro da abordagem interdisciplinar necessária para alcançar uma recuperação plena e um RTP bem sucedido.

Recentemente foi publicado um artigo de verificação no qual participaram membros do Departamento de Rendimento Esportivo do FC Barcelona onde foram analisadas as funções das áreas de psicologia e nutrição esportiva dentro do processo de RTP após uma lesão.2Os autores realizaram comparações entre a fase aguda da lesão e a recuperação funcional.

Fase aguda da lesão

Durante este período, desde o momento da lesão até o início da mobilização ativa da área lesionada e que estaria relacionado à fase Return to Participation, surgem frequentemente dúvidas e temores sobre a gravidade da lesão, assim como pensamentos negativos e questionamentos como, por exemplo: “nunca voltarei ao meu melhor nível; por que tinha que acontecer justamente comigo?; por que agora?” e também emoções instáveis como frustração, raiva, desesperança e outras que podem até aumentar a percepção de dores. Todos estes pensamentos e emoções contribuem para o aumento da sensação de angústia e ansiedade. Por esta razão, a figura do psicólogo esportivo passa a ser importante dentro do departamento médico de uma equipe, uma vez que técnicas de relaxamento, respiração diafragmática ou uso de imagens podem atenuarem respostas às dores e os respectivos sentimentos de angústia.

O respeito pelo tempo de inatividade devido às lesões dos atletas pode ser particularmente angustiante de um ponto de vista psicológico. Os psicólogos esportivos e o resto da equipe médica precisam trabalhar em conjunto para diminuir e aliviar este sofrimento bem como utilizar muitas técnicas pedagógicas com o atleta e fornecer informações claras e consistentes sobre a importância de respeitar o tempo exigido por qualquer lesão. É fundamental trabalhar com estes aspectos, já que as incertezas sobre diagnósticos de lesões com gravidade entre outras implicações e dúvidas sobre a eficácia dos tratamentos realizados são indicadores importantes da adesão ao tratamento.

É importante que o atleta esteja envolvido durante todo o processo, tanto nas decisões relativas à sequência de tratamentos como conhecendo diferentes alternativas e opções sempre que possível, ao ser apresentado a casos em que sua opinião foi considerada. Em tudo isso observamos que, desta forma, o atleta fortalece sua autonomia e controle no processo de recuperação.3Esta questão tem sua importância, pois durante a fase aguda da recuperação, os atletas podem sentir uma certa falta de controle sobre seu próprio corpo o que pode comprometer o andamento de todo o processo.

Além disso, durante esta fase, o plano nutricional deve complementar a reabilitação física. É primordial que nutricionistas e psicólogos esportivos trabalhem em conjunto com o claro objetivo de identificar atletas que correm riscos de desenvolverem distúrbios alimentares como bulimia, anorexia entre outros ou então insatisfação corporal com os risco de aumento do peso corporal, um verdadeiro trabalho em equipe com o objetivo de resolver todas estes problemas, caso aconteçam. Também é essencial fornecer aos atletas uma dieta que garanta energia suficiente para manter a massa muscular e atenuar os danos causados pela inatividade.

O consumo energético pode ser ainda maior durante a fase aguda da lesão, como resultado do processo de cura e reabilitação durante a fase inicial. Assim, recomendamos não reduzir totalmente a ingestão calórica para níveis abaixo de 2750 kcal durante esta fase, e recomendamos um consumo entre 2750 e 3250 kcal, dependendo do nível de imobilização deste atleta. Por exemplo, recentemente foi publicado o caso de um atleta da Premier League lesionado por ruptura do ligamento cruzado anterior e recomendaram um consumo de 3178 kcal por dia,4 o que significa um pouco menos do que as 3500 kcal consumidas em média pelos colegas de equipe em uma semana com dois jogos.5 Embora alguma redução no consumo de carboidratos possa ser necessária, considerando novamente o nível de imobilização, a pesquisa realizada em outro atleta da Premier League mostrou que, uma dieta com redução de carboidratos pode gerar perdas de aproximadamente 6 kg de massa muscular e um ganho de 1 Kg de massa de gordura em apenas 8 semanas de inatividade.6 O que deve ser evitado nos atletas lesionados é a ingestão proteica durante o processo de recuperação. Inclusive recomendamos o aumento no consumo diário de proteínas a 2,3 g/kg de peso para prevenir a perda de massa muscular.

Outra recomendação para diminuir a atrofia muscular secundária devido à imobilização seria o suplemento com óleo de peixe, que é rico em ácidos graxos, Ômega 3, vitamina D3 e creatina monohidratada.2 Os nutricionistas sugerem aos psicólogos reforçarem seus conselhos aos atletas quanto ao cumprimento das orientações nutricionais, embora os profissionais da área de psicologia do esporte não sejam os melhores indicados para fornecerem este tipo de informação.2 Importante citar também as propriedades da gelatina e do colágeno, que são ricos em aminoácidos como, glicina, prolina, hidroxilisina e hidroxiprolina, cujo consumo demonstrou um aumento na síntese de colágeno e uma melhora na biomecânica dos ligamentos e tendões. Para lesões na junção miotendínea, pode ser aconselhável ingerir colágeno hidrolisado antes da sessão de reabilitação para auxiliar no processo de cura.7Uma vez que o atleta seja reintegrado aso treinamentos, há dois “princípios básicos” da nutrição esportiva que necessitamos levar em consideração, como iniciar a atividade física com reservas adequadas de glicogênio muscular no organismo e uma boa hidratação.8

Além disso, durante no período de uma lesão, é aconselhável eliminar ou pelo menos reduzir ao máximo o consumo de álcool. O consumo de álcool reduz a síntese proteica mesmo se ingerido em conjunto com proteínas, o que pode influenciar na recuperação do atleta.9 O álcool também aumenta o risco de consumo calórico excessivo e o fracasso das estratégias de ordem psicológica.

 Recuperação funcional

Esta fase está relacionada ao Return to Participation.

Um dos problemas mais evidentes durante esta fase é a capacidade de motivação do atleta, especialmente quando ele está lesionado e essa lesão é de longa duração. Além disso, a motivação dentro do processo de RTP desempenha um papel fundamental, uma vez que o próprio atleta se questiona com frequência sobre seu desempenho ao regressar de uma lesão; assim, é importante que os fatores de motivação sejam apropriados para restaurar a confiança após este período de inatividade.

Há também a preocupação quanto à sua capacidade de lidar com uma reabilitação dura, com exercícios que o levarão a explorar seus limites físicos e mentais. Sensações de isolamento ao permanecer afastado da rotina do grupo também exercerão um profundo impacto durante sua recuperação funcional. Manter o atleta lesionado em contato com o restante do grupo pode ajudá-lo a sentir-se importante, bem como garantir que é parte fundamental dele.10 Isto pode ser alcançado através de sua participação em reuniões para análise de jogos inclusive nas refeições com a equipe.

Outro fator a considerar, no caso de lesões graves, seria o questionamento do atleta quanto à sua recuperação, sobretudo, se poderá voltar a ter o seu melhor desempenho, o que pode vir a diminuir sua autoestima e desenvolver pensamentos negativos do tipo (“Não sou nada sem o futebol, é a única coisa em que sou bom”). Assim, durante esta fase, apresentar ao atleta lesionado a experiência de outros casos semelhantes ao seu, onde conseguiram recuperar a sua melhor forma, convencerá de que é possível o seu retorno ao esporte de elite.

Conclusões

O acompanhamento nutricional e psicológico durante uma lesão, muitas vezes faz com que os atletas, que relutam em trabalhar com especialistas nestas disciplinas, se envolvam durante o resto de suas carreiras, concedendo-lhe grandes benefícios (Tabela 1). Garantir aos atletas diretrizes nutricionais e “ferramentas” psicológicas adequadas para eles mesmos possam administrar o processo de lesão também pode ser relevante uma vez que tenham superado a lesão. Além disso, será uma medida preventiva mediante uma recidiva.

Tabela 1. Exemplos práticos de como a nutrição e a psicologia esportiva podem interagir de modo interdisciplinar no processo de RTP.2

É fundamental que entendamos o RTP como um processo constante de tomada decisões, onde cada escolha condicionará a próxima. Neste sentido, uma abordagem interdisciplinar será sempre a melhor estratégia para não se dar passos em falso. Embora cada vez mais os clubes esportivos incluam a figura do nutricionista e do psicólogo esportivo em seu staff, o caminho ainda é relativamente longo para se alcançar o verdadeiro reconhecimento destes profissionais, tão ilustres e indispensáveis neste contexto do mundo dos esportes.

 

 

 

 

Javier S. Morales

 

 

 

Referências:

  1. Ardern CL, Glasgow P, Schneiders A, et al. 2016 Consensus statement on return to sport from the First World Congress in Sports Physical Therapy, Bern. Br J Sports Med. 2016;50(14):853-64.
  2. Rollo I, Carter JM, Close GL, Yangüas J, Gomez-Diaz A, Medina Leal D, Duda JL, Holohan D, Erith SJ, Podlog L. Role of sports psychology and sports nutrition in return to play from musculoskeletal injuries in professional soccer: an interdisciplinary approach. Eur J Sport Sci. 2020.
  3. Chan DK, Lonsdale C, Ho PY, Yung PS, Chan KM. Patient motivation and adherence to postsurgery rehabilitation exercise recommendations: the influence of physiotherapists’ autonomy-supportive behaviors. Arch Phys Med Rehabil. 2009;90(12):1977-82.
  4. Anderson L, Close GL, Konopinski M, Rydings D, Milsom J, Hambly C, Speakman JR, Drust B, Morton JP. Case Study: Muscle Atrophy, Hypertrophy, and Energy Expenditure of a Premier League Soccer Player During Rehabilitation from Anterior Cruciate Ligament Injury. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2019;29(5):559-566.
  5. Anderson L, Orme P, Naughton RJ, Close GL, Milsom J, Rydings D, O’Boyle A, Di Michele R, Louis J, Hambly C, Speakman JR, Morgans R, Drust B, Morton JP. Energy Intake and Expenditure of Professional Soccer Players of the English Premier League: Evidence of Carbohydrate Periodization. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2017;27(3):228-238.
  6. Milsom J, Barreira P, Burgess DJ, Iqbal Z, Morton JP. Case study: Muscle atrophy and hypertrophy in a premier league soccer player during rehabilitation from ACL injury. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2014;24(5):543-52.
  7. Baar K. Minimizing Injury and Maximizing Return to Play: Lessons from Engineered Ligaments. Sports Med. 2017;47(Suppl 1):5-11.
  8. Williams C, Rollo I. Carbohydrate Nutrition and Team Sport Performance. Sports Med. 2015;45 Suppl 1(Suppl 1): S13-22.
  9. Parr EB, Camera DM, Areta JL, Burke LM, Phillips SM, Hawley JA, Coffey VG. Alcohol ingestion impairs maximal post-exercise rates of myofibrillar protein synthesis following a single bout of concurrent training. PLoS One. 2014;9(2):e88384.
  10. Podlog L, Heil J, Schulte S. Psychosocial factors in sports injury rehabilitation and return to play. Phys Med Rehabil Clin N Am. 2014;25(4):915-30.

 

 

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