BIHUB PATH

2 June, 2020

A GENÉTICA PODE PREVER O TALENTO ESPORTIVO?

Rendimento Desportivo
318K

Traços fisiológicos, antropométricos e psicológicos são parcialmente herdados, mas o interesse em descobrir técnicas que possam prever o talento esportivo, através do uso da genética, aumentou nos últimos anos. Um dos avanços mais utilizados nesta área é a identificação de variações na sequência do DNA, conhecidas como polimorfismos de nucleotídeo único (SNP), pois alguns são associados a fatores que podem afetar o rendimento esportivo. Uma recente revisão descreveu que até 155 marcadores genéticos podem estar relacionados com “o perfil do atleta de elite” (2).

Um dos mais populares é conhecido como “gene da velocidade”, o ACTN3. Uma simples substituição de uma base de citocina por uma de timina neste gene, torna deficiente a expressão de uma proteína relacionada com as fibras rápidas. Isso faz com que pessoas que possuem dois alelos alterados (genótipo XX) tenham uma menor porcentagem de fibras rápidas, o que pode repercutir no rendimento em esportes de potência. Por isso, ter alelos RR (sem alterações) está relacionado com os perfis de velocistas entre outros esportes de potência, enquanto que, ter um genótipo XX parece estar associado a um fenótipo contrário. No entanto, é importante mencionar que, embora em algumas pesquisas foram encontrados em atletas de velocidade com uma menor incidência do genótipo XX (1,7), em outras não foram encontradas diferenças entre grupos de controle e velocistas (jamaicanos e americanos) (6). Inclusive, uma pesquisa de Lucía e colaboradores (3) constatou que, um atleta do salto em distância espanhol que participou dos Jogos Olímpicos de 2012 tinha o genótipo XX (o “lento”). Ou seja, um atleta do salto em distância, que, pelas análises genéticas utilizadas não apresentava, a princípio, um perfil “elite”, distanciou-se apenas 5 cm do outro atleta medalhista do outro em Londres.

Com base nestes resultados, uma recente checagem realizada por especialistas como os doutores Alejandro Lucía e Juan del Coso (4) revelou que, “a identificação do talento mediante análise de um só gene não é viável. O que parece claro que o perfil do atleta de elite é um traço poligenético, e, por isso, se forem utilizar testes genéticos na identificação de talentos, será necessário descobrir um maior número de polimorfismos para então combiná-los com modelos complexos de pontuação de genótipos (TGS)”. Com base nisto e nas técnicas genéticas comerciais utilizadas atualmente, os autores afirmam que, “os dados disponíveis sugerem que o uso das informações apresentadas nestes testes para a identificação ou seleção de talentos, especialmente em crianças, ainda necessita de muitos fundamentos”.

No entanto, inclusive quando são disponibilizadas informações e ferramentas mais precisas, como as pesquisas de associação do genoma completo (GWAS) ou a fixação de limiares de TGS para atletas de elite, sua frequência será significativamente diferente da prevista pela genética. De fato, existem muitos outros fatores que contribuem para criar um atleta de elite, como os fatores externos (condições econômicas e apoio social) ou fatores ambientais que podem modular a expressão genética durante períodos críticos de desenvolvimento (epigenética). Assim, os autores concluíram que, “parece pouco provável a possibilidade de se utilizarem informações genéticas na identificação, sem equívocos, de um futuro atleta de elite. Na melhor das hipóteses, as informações genéticas poderão representar um complemento potencialmente importante para os procedimentos para a identificação de talentos existentes, aprimorando o processo de seleção, permitindo que o processo de treinamento seja mais personalizado e que os atletas possam aproximar-se ainda mais da excelência”.

 

 

A equipe Barça Innovation Hub

 

REFERÊNCIAS

 

  1. Ahmetov, II, Druzhevskaya, AM, Lyubaeva, E V, Popov, D V, Vinogradova, OL, and Williams, AG. The dependence of preferred competitive racing distance on muscle fibre type composition and ACTN3 genotype in speed skaters. Exp Physiol 96: 1302–1310, 2011.Available from: https://doi.org/10.1113/expphysiol.2011.060293
  2. Ahmetov, II, Egorova, ES, Gabdrakhmanova, LJ, and Fedotovskaya, ON. Genes and Athletic Performance: An Update. In: Medicine and Sport Science (Vol. 61).2016. pp. 41–54Available from: https://www.karger.com/DOI/10.1159/000445240
  3. Lucia, A, Oliván, J, Gómez-Gallego, F, Santiago, C, Montil, M, and Foster, C. Citius and longius (faster and longer) with no α-actinin-3 in skeletal muscles? Br J Sports Med 41: 616 LP – 617, 2007.Available from: http://bjsm.bmj.com/content/41/9/616.abstract
  4. Pickering, C, Kiely, J, Grgic, J, Lucia, A, and Del Coso, J Del. Can Genetic Testing Identify Talent for Sport? Genes (Basel) 10: 972, 2019.Available from: https://www.mdpi.com/2073-4425/10/12/972
  5. Ruiz, JR, Gómez-Gallego, F, Santiago, C, González-Freire, M, Verde, Z, Foster, C, et al. Is there an optimum endurance polygenic profile? J Physiol 587: 1527–1534, 2009.Available from: https://physoc.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1113/jphysiol.2008.166645
  6. Scott, RA, Irving, R, Irwin, L, Morrison, E, Charlton, V, Austin, K, et al. ACTN3 and ACE genotypes in elite Jamaican and US sprinters. Med Sci Sports Exerc 42: 107–112, 2010.
  7. Yang, N, MacArthur, DG, Gulbin, JP, Hahn, AG, Beggs, AH, Easteal, S, et al. <em>ACTN3</em> Genotype Is Associated with Human Elite Athletic Performance. Am J Hum Genet 73: 627–631, 2003.Available from: https://doi.org/10.1086/377590

 

NOTAS RELACIONADAS

O GRANDE DESCONHECIDO NAS LESÕES MUSCULARES: O TECIDO CONJUNTIVO DA MATRIZ EXTRACELULAR

Um editorial publicado na revista The Orthopaedic Journal of Sports Medicine —em que participaram alguns membros dos serviços médicos do clube— propõe considerar também a arquitetura íntima da zona afetada, ou seja, valorizar a matriz extracelular, como ator fundamental no prognóstico da lesão.

NOVOS DADOS COMO AS EXIGÊNCIAS FÍSICAS DOS FUTEBOLISTAS VARIAM CONSOANTE A SUA POSIÇÃO

Muitos dos inúmeros estudos a esse respeito, contudo, analisam essas exigências tendo apenas em conta algumas variáveis ou empregando janelas de tempo muito alargadas. Um novo estudo realizado por preparadores físicos do F.C. Barcelona analisou vários desses dados com mais precisão.

O QUE É REALMENTE A GESTÃO DA CARGA?

Neste artigo, Tim Gabbett e a sua equipa fornecem um guia convivial para os profissionais, ao descrever o objetivo geral da gestão de carga aos treinadores.

DUAS SEMANAS SÃO SUFICIENTES PARA AUMENTAR O VOLUME E A FORÇA MUSCULAR

Pela primeira vez se prova que não são necessários meses de treino, apenas duas semanas de exercícios adequados são o suficiente para melhorar significativamente o volume e a força muscular.

EXERCÍCIOS EXCÊNTRICOS: ESTUDAR “VACINAS” PARA OS MÚSCULOS

É importante treinar com exercícios do tipo excéntrico para prevenir possíveis danos. No entanto, o treino intensivo também pode causar alguns danos a nível muscular, que devem ser monitorizados para minimizar o risco de lesão.

O NÍVEL DE RESISTÊNCIA COMO MODERADOR DA CARGA DE TREINO

A resistência cardiovascular surgiu como moderador do resultado da carga a que se sujeita o desportista.

Estão os jogadores bem perfilados em relação à bola?

Através da visão por computador, podemos identificar alguns défices em relação à orientação corporal dos jogadores em diferentes situações de jogo.

¿VOCÊ QUER SABER MAIS?

  • ASSINAR
  • CONTATO
  • CANDIDATAR-SE

FIQUE ATUALIZADO COM NOSSAS NOVIDADES

Você tem dúvidas sobre o Barça Universitas?

  • Startup
  • Centro de investigação
  • Corporate

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

O formulário foi enviado com sucesso.

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

O formulário foi enviado com sucesso.

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

Por favor, preencha os campos:

O formulário foi enviado com sucesso.