20 August, 2018

A IMPORTÂNCIA DA BIOESTATÍSTICA NAS CIÊNCIAS DO DESPORTO E NA MEDICINA DESPORTIVA

Análise e Tecnologia Desportiva
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A estatística é atualmente um conceito bastante utilizado no mundo do desporto, que despertou o interesse de diferentes profissionais, não só  managers, analistas, analistas de vídeo, jornalistas de dados, médicos, preparadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e treinadores, mas também, até, os próprios jogadores. Apesar desse grande interesse, antes de mais, deveria ter-se em mente que a estatística é uma ciência jovem, que aprende com os dados e que também visa medi-los, controlá-los e comunicá-los.

Os profissionais de estatística, os estatísticos, não são vistos apenas como aqueles que descrevem a variabilidade ou ajustam os modelos estatísticos para ajudar na tomada de decisões, pois também participam  na conceção dos estudos e têm de atentar à “c-speak”, uma linguagem comum entre estatísticos e profissionais ou executivos da área, neste caso, do desporto. Hoje em dia, as estatísticas desportivas são frequentemente conhecidas como análises desportivas (“Sports Analytics”).

A área da análise desportiva cresceu exponencialmente, graças à ciência da computação, e também abrange outras subáreas (como, por exemplo, as ciências do desporto, as ciências comportamentais, a medicina ou a visualização de dados), além da estatística com uma abordagem mais tática e do rendimento desportivo (1).

Estamos perante uma nova cultura que provavelmente pede mudanças na organização para se poder fazer face aos dados.  Na análise desportiva, como noutras áreas, essa mudança não será imediata. Para já, os clubes desportivos começaram a criar e renovar os departamentos de análise desportiva, o que permite, desde logo,  aproximar diferentes profissionais do mesmo corpo técnico (analistas, preparadores físicos, fisioterapeutas, treinadores) de cientistas de dados. Isto, em parte, ocorreu graças ao filme Moneyball – Jogada de Risco, às constantes inovações tecnológicas que estão atualmente disponíveis, às conferências populares de análise desportiva, tais como a Sloan, ou a trabalhos recentes de cientistas de dados desportivos como, por exemplo, Tim Gabbett.

Uma das especializações mais consolidadas em estatística é a bioestatística, que combina capacidades de estatística avançada aplicadas às ciências da saúde. O crescimento dessa especialização deu origem, sobretudo no meio académico, à criação de departamentos e associações de bioestatística e epidemiologia de prestígio já consolidados no mundo inteiro. Mas existem também especializações em estatística desportiva? Existem pois. Temos sabermetricians, profissionais de moneyball ou scouting, analistas desportivos e, também, já, a figura do bioestatístico desportivo, que combina competências de estatística avançada, epidemiologia, saúde pública, medicina e ciências do desporto, como se pode verificar na imagem 1. Esta nova profissão foi proposta pelos investigadores Caroline Finch e Martí Casals, nos seus mais recentes trabalhos publicados nas revistas Injury Prevention e British Journal of Sports Medicine (BJSM), onde relatam as novas oportunidades deste perfil e também relembram que a bioestatística pode ajudar a prevenir lesões e cuidar da saúde dos desportistas (2, 3).

Imagem 1: Infografia do papel do bioestatístico desportivo publicada na revista BJSM.

Eis alguns dos papéis mais importantes que um bioestatístico desportivo pode desempenhar:

  • Desafios e uso de dados desportivos Onde o bioestatístico desportivo tenta incidir, ao relatar corretamente as informações ao corpo técnico de um clube para: facilitar a comunicação entre todos (4); garantir a qualidade dos dados, aplicando os conceitos de transparência, reprodutibilidade e replicabilidade (5); não remoer o fenómeno “Big Data” (grande volume de dados), extraindo sempre as informações mais úteis; e, acima de tudo, começar a fazer perguntas pertinentes (6), fazendo uso de provas científicas.
  • Aproximar os profissionais das áreas do desporto dos cientistas de dados (6). A figura de carácter mais transversal, como é a do bioestatístico desportivo, fala regularmente com profissionais da área do desporto, para os ajudar a pensar e resolver quantitativamente questões e problemas presentes no dia a dia, tendo também em mente as orientações de transparência para os estudos científicos (por exemplo: CONSORT, PRISMA, STROBE, TRIPOD, Injury Surveillance Guidelines., etc.), antes de afirmar ou implementar algumas intervenções.
  • Competências para demonstrar que a bioestatística pode ser uma ajuda para a ciência do desporto. Neste sentido, ultimamente, alguns editoriais da revista BJSM, liderados pelo investigador Rasmus Nielsen, promoveram trabalhos aplicados com carácter mais educativo, que aproximam os conceitos metodológicos daquilo que o clínico, analista ou treinador realmente precisa todos os dias. Este é um primeiro passo importante para aproximar a bioestatística e a epidemiologia aplicada das ciências do desporto, relembrando o que o prestigioso investigador Doug Altman alcançou com a bioestatística e a medicina, permitindo que essas ciências crescessem de forma conjunta (7). Outro dos exemplos presentes seria o de Dennis Lock, atualmente diretor analítico da equipa de futebol americano, Miami Dolphins, que vemos numa fotografia tirada durante a sua apresentação na Joint Statistical Meeting (JSM), realizada em 2017, a mostrar a relação entre dados e o ciclo de treino (Imagem 2).
Imagem 2: Fotografia apresentada por Dennis Lock, referente ao seu trabalho como consultor dos Miami Dolphins, na conferência da JSM.

Este é um exemplo perfeito, não só de como a estatística e a bioestatística podem estar presentes nos diferentes profissionais desportivos, mas também de como se podem criar sinergias entre as comunidades das ciências do desporto da medicina e a comunidade da estatística.

 

 

Martí Casals Toquero, Doutorado em Estatística. Professor e investigador no grupo Sport Performance Analysis Research Group (SPARG) do Centro de Investigação do Desporto e da Atividade Física (CEEAF) da Universitat de Vic – Universitat Central de Catalunya UVic -UCC (UVic-UCC). Colaborador no Barça Innovation Hub – Universitas.

Twitter | Researchgate | Linkedin

 

 

Referências bibliográficas

  1. Stein, M., Janetzko, H., Seebacher, D., Jäger, A., Nagel, M., Hölsch, J., … & Grossniklaus, M. (2017). How to make sense of team sport data: From acquisition to data modeling and research aspects. Data2(1), 2.
  2. Casals, M., & Finch, C. F. (2016). Sports Biostatistician: a critical member of all sports science and medicine teams for injury prevention. Injury prevention, injuryprev-2016.
  3. Casals, M., Bekker, S., & Finch, C. F. (2017). Infographic: Sports Biostatisticians as a critical member of all sports science and medical teams for injury prevention.
  4. Barboza, S. D., Bolling, C. S., Nauta, J., Van Mechelen, W., & Verhagen, E. (2017). Acceptability and perceptions of end-users towards an online sports-health surveillance system. BMJ open sport & exercise medicine3(1), e000275.
  5. Goodman, S. N., Fanelli, D., & Ioannidis, J. P. (2016). What does research reproducibility mean? Science translational medicine8(341), 341ps12-341ps12.
  6. Nassis, G. P. (2017). Leadership in science and medicine: can you see the gap?
  7. Matthews, R., Chalmers, I., & Rothwell, P. (2018). Douglas G Altman: statistician, researcher, and driving force behind global initiatives to improve the reliability of health research.

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